Na última semana de outubro a programação da Cinemateca é dominada pela parceria com o DocLisboa, que se materializa numa extensa retrospetiva dedicada à cinematografia da Geórgia. Esta viagem cinematográfica inicia-se nos anos 1910 e prolonga-se aos dias de hoje, atravessando todas as épocas do cinema georgiano dos primórdios à atualidade, destacando-se a riquíssima produção feita durante o período em que o território integrou a URSS. Além de nomes conceituados do cinema georgiano, como Giorgi Shengelaia e Sergei Parajanov, teremos também a oportunidade de (re)descobrir admiráveis cineastas no feminino, entre elas Mariam Khatchvani e Nana Ekvtimichvili.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 26 a 31 de outubro:
– The Great Dictator (O Grande Ditador, 1949) – Segunda-feira, 26 de outubro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Neste singularíssimo filme, que se tornou icónico do imaginário do século XX e, como nenhum outro, arriscou o exorcismo pelo riso parodiando o III Reich de Hitler, Chaplin entra em guerra contra o fanatismo e a intolerância, e aparece no ecrã no papel de um barbeiro judeu que tem um sósia. Nem mais nem menos do que o ditador do país, Adenoid Hynkel (e a referência não podia ser mais transparente), com quem um dia é confundido. Rodado em finais de 1939, estreou nos EUA no ano seguinte, em plena II Guerra Mundial. Em Portugal só estrearia em 1945, com cortes de censura no discurso final, e teve uma primeira reposição em 1974.
– Arabeskebi Pirosmanis Temaze (Arabescos sobre o Tema de Pirosmani, 1985) & Pirosmani (1969) – Terça-feira, 27 de outubro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Enquadrada pelo olhar de Parajanov, a pintura de Niko Pirosmani (1862-1918) é avivada, justaposta e decomposta numa organização em capítulos que lhe visita e entrelaça as obras como os arabescos do título. O filme valeu a Parajanov um curioso prémio em Roterdão, o de Realizador do Futuro. Na sua versão de “Pirosmani”, Shengelaia abordou o dilema entre a integridade artística e o compromisso com o poder, num biopic a um tempo muito livre e muito rigoroso, como se o autor propusesse a liberdade austera e radical de Pirosmani como modelo para a sociedade. Inesquecível no papel principal, um outro pintor fundamental, Avto Varazi.

– Arachveulebrivi Gamofena (Uma Exposição Invulgar, 1968) – Terça-feira, 27 de outubro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Em guerra contra os nazis ou na paz de Kutaissi, onde reside, o escultor Aguli Eristavi só se interessa pela sua arte e pelo seu mármore de Paros, com que fará uma obra grandiosa. Enquanto isso não sucede, vai acumulando bustos no cemitério local, onde o seu talento está sempre presente. Uma metáfora do impasse de uma geração após o Degelo, com um tom de delicado desencanto que Shengelaia jamais perderia na sua análise mordaz da sociedade soviética.
– Dede (2017) – Sexta-feira, 30 de outubro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Nas montanhas da Svanécia, uma jovem viúva resiste a separar-se do filho, que deve abandonar se for reclamada por um pretendente. Duas tragédias levaram-na a essa situação, que não parece prestes a melhorar. Drama convicto, iniciado em 1992 na guerra com a Abecásia, Dede (“Mãe” em língua suana) assinala a persistência na região de uma violência arcaica sobre a mulher, assim como da natureza grandiosa e dos trilhos difíceis que o filme incorpora na narrativa.
– Grdzeli Nateli Dgueebi (Eka e Natia, 2013) – Sábado, 31 de outubro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Duas adolescentes, Eka e Natia, vão preservando a sua amizade na Tbilissi de 1992, abalada pela guerra civil e o rescaldo de um golpe de estado. Narrativa de crescimento acelerado e ilusões desfeitas, este filme é também uma crónica da resistência pessoal à lógica da violência. Esse questionamento, comum a uma parte do cinema georgiano contemporâneo, é o que abranda as histórias e a sua vertigem, para preservar a evocação dos “longos dias claros” mencionados no título original.

