Sessões na Cinemateca – Escolhas de 12 a 17 de outubro

(Fotos: Divulgação)

Tendo terminado a retrospetiva a Roy Andersson bem como a programação em parceria com o MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa, esta semana a Cinemateca conta com mais Delphine Seyrig, cuja filmografia como atriz e realizadora é o foco da colaboração com a 21ª Festa do Cinema Francês. Só na próxima semana se iniciará aquela outra colaboração de outubro, desta feita com o DocLisboa, que nos levará numa viagem pelo cinema da Geórgia. Por ora, aproveitemos a oportunidade de redescobrir os filmes em que Seyrig esteve à frente e atrás da câmara.

Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 12 a 17 de outubro:

– Sois Belle et Tais-Toi! (1976) – Segunda-feira, 12 de outubro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. É o filme mais conhecido dos filmes desconhecidos de Delphine Seyrig realizadora, que aqui entrevista 24 atrizes sobre a sua experiência profissional, papéis desempenhados, relações com encenadores, realizadores e equipas de trabalho. Um retrato coletivo no feminino que reflete, em 1976, o balanço negativo de uma profissão que remete as mulheres a personagens estereotipadas num mundo dominado pelo imaginário masculino. Neste filme-ensaio eloquente encontram-se, entre as convocadas, Ellen Burstyn, Barbara Steele, Shirley MacLaine, Marie Dubois, Jane Fonda, Maria Schneider ou Anne Wiazemsky.

– Baisers Volés (Beijos Roubados, 1968) – Segunda-feira, 12 de outubro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Delphine Seyrig e Michael Lonsdale, que foram grandes cúmplices em palco e no ecrã, são um casal neste filme de François Truffaut, cineasta que aqui continua a filmar Jean-Pierre Léaud como Antoine Doinel, na sequência de “Les 400 Coups” e “Antoine et Colette”. Tido como o mais jubiloso Truffaut, o filme que “não conta nada de nada” (Truffaut) segue Doinel já com 20 anos de idade e recém-saído do exército, que dá por si detetive privado e alimentando uma paixão por Christine (Claude Jade). É o filme em que Seyrig surge a Léaud como uma “aparição” e com ele protagoniza três cenas e um monólogo inesquecíveis, explicando-lhe como é uma mulher. Os beijos são roubados à canção de Charles Trenet, “Que reste-t-il de nos amours?” que embala e titula o filme.

Muriel ou Un Temps d’un Retour (Muriel ou O Tempo de um Regresso, 1963) – Terça-feira, 13 de outubro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Alain Resnais entregou o papel da jovem viúva Hélène Aughain a Delphine Seyrig (prémio de interpretação no festival de Veneza 1963), com quem já filmara em “L’année Dernière à Marienbad” (1961, a primeira, notável, longa-metragem da atriz). Seguindo a história da protagonista de 40 anos (bastante mais velha que a à época jovem Seyrig), num momento de reencontro com o homem que amara na adolescência, e uma segunda linha narrativa centrada no jovem enteado de Hélène, atormentado por lembranças da Guerra da Argélia, Resnais assina um filme de planificação e montagem extremamente elaboradas. Refletindo as feridas do tempo e a obsessão da memória, “Muriel” é uma obra avassaladora.

– Jeanne Dielman, 23, Quai du Commerce, 1080 Bruxelles (1975) – Quinta-feira, 15 de outubro, 21h00. Assente num rigoroso trabalho sobre a duração e a repetição, foi o filme mais decisivo na consagração da cineasta Chantal Akerman, e é um título fulcral na filmografia de Delphine Seyrig, que voltaria a trabalhar com a realizadora em “Golden Eighties” (1985) e em “Letters Home” (1986). “Jeanne Dielman” é uma observação sistematizada, quase maníaca, do dia a dia rotineiro de uma mulher de Bruxelas (Seyrig), com a prostituição a aparecer como um espectro de coloração realista. A dureza formal do filme de Akerman revela-se na sua obsessiva calendarização do tempo e das rotinas. Uma obra única na História do cinema.

Ohayo (Bom Dia, 1959) – Sábado, 17 de outubro, 15h00, Salão Foz. Contrariamente à quase totalidade das obras-primas realizadas por Yasujirō Ozu na fase final da sua carreira, Ohayo é uma comédia e não aborda o tema da dissolução de uma família, mas apenas um momento de crise causado por dois miúdos. As crianças fazem greve de silêncio para protestar contra o facto de os pais se recusarem a comprar uma televisão. A realização de Ozu, como sempre rigorosa e perfeita, tece um filme que, ao invés de mostrar o fim de uma vida ou de uma família, mostra uma continuidade, a aceitação da mudança. É ainda um dos filmes em que o cineasta trabalha exemplarmente a cor.

– La Musica (1966) – Sábado, 17 de outubro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. O primeiro filme de Marguerite Duras foi o primeiro Duras com Seyrig. A partir da peça homónima da cineasta sobre “ela e ele”, em La Musica seguimos um casal separado que se reencontra três anos depois da separação para recolher a sentença de divórcio. O casal protagoniza uma fabulosa cena fantasmática num átrio de hotel neste filme belíssimo. É de Seyrig que Duras dirá: “O único entrave à sua liberdade é a injustiça de que os outros são vítimas”.

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