Esta semana marca a transição da programação da Cinemateca de setembro para outubro, razão pela qual é tão heterogénea a nossa seleção de filmes. Alguns títulos fazem ainda parte do ciclo intitulado “A Comédia, Improvavelmente”, que constituiu a segunda instalação dedicada ao “Grande Género” a que este ano a Cinemateca se devota. Outros integram já a retrospetiva a Roy Andersson ou a secção “Duplos e Gémeos”, que propõe percorrer filmes cuja narrativa explore o tema do duplo. A programação de outubro conta ainda com várias importantes colaborações: com a 21ª Festa do Cinema Francês iremos explorar a filmografia de Delphine Seyrig; com o DocLisboa faremos uma viagem pelo cinema da Geórgia; e com a MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa veremos clássicos intemporais assinados por grandes mestres da animação mundial.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 28 de setembro a 3 de outubro:
To Die For (Disposta a Tudo, 1995) – Segunda-feira, 28 de setembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Com argumento de Buck Henry (coguionista de “The Graduate”) baseado num romance de Joyce Maynard, este filme representou uma viragem para o realizador Gus Van Sant, então ainda muito associado ao cinema independente americano e ao culto em torno de “My Own Private Idaho”; mas acima de tudo foi uma rampa de lançamento para a jovem estrela australiana Nicole Kidman, e para apresentar ao grande público os rostos de Joaquin Phoenix e Casey Affleck. Esta é uma mordaz comédia negra sobre uma mulher consumida pelo sonho-obsessão de se tornar uma celebridade televisiva e que não olhará a meios na hora de afastar quem vier atrasar a realização desse objetivo.
Serial Mom (Mãe Galinha, 1994) – Terça-feira, 29 de setembro, 21h30, Esplanada. O “campeão do mau gosto”, John Waters regressava em 1994 para assinar o terceiro filme da sua fase mais mainstream. A estrela Kathleen Turner ter-se-á deixado seduzir pela estranheza do projeto, aceitando interpretar uma mãe galinha programada para matar, pouquíssimo tolerante com todos aqueles que se interpõem entre a sua família e um sonho americano que parece ter saído de um anúncio de eletrodomésticos dos anos 1950. A história desta serial killer de Baltimore foi o produto de um fascínio antigo de Waters por julgamentos muito mediatizados nos EUA.
Om det Oändliga (Da Eternidade, 2019) – Quinta-feira, 1 de outubro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. O mais recente filme de Roy Andersson é uma reflexão sobre a vida humana em toda a sua beleza e crueldade, o seu esplendor e a sua banalidade. Nele deambulamos, como que num sonho, suavemente conduzidos pela voz de uma narradora, através de momentos inconsequentes e de eventos históricos: um casal flutua sobre uma cidade devastada pela guerra; a caminho de uma festa de aniversário, um pai pára à chuva para apertar os atacadores dos sapatos da filha; raparigas adolescentes dançam à porta de um café; um exército derrotado marcha para um campo de prisioneiros de guerra. Simultaneamente uma ode e um lamento, esta obra apresenta-nos um caleidoscópio de tudo o que é eternamente humano, uma história infinita da vulnerabilidade da existência. O filme recebeu o Leão de Prata para Melhor Realizador no Festival de Veneza de 2019.

The Lady Eve (As Três Noites de Eva, 1941) – Sexta-feira, 2 de outubro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Uma das mais divertidas comédias americanas da década de 1940 e um dos títulos que fizeram reavaliar a obra de Preston Sturges muitos anos depois. Vagamente baseado em “Two Bad Hats”de Monckton Hoffe, que foi igualmente o seu título de trabalho, este é um filme profuso em jogos de duplos, máscaras e subentendidos. No papel de uma vigarista que faz dupla com o pai, procurando seduzir um milionário que regressa de uma expedição no Amazonas mais interessado em cobras do que em mulheres, Barbara Stanwyck transforma-se magnificamente em Lady Eve.
En Karlekshistoria (Uma História de Amor, 1970) – Sexta-feira, 2 de outubro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. A primeira longa-metragem de Roy Andersson narra a história de Annika (Ann-Sofie Kylin) e Par (Rolf Sohlman), dois adolescentes idealistas a viver o seu primeiro amor. Resistindo à pressão e ao cinismo dos pais e às pressões sociais, o jovem casal cria a sua própria realidade, alheia às tensões do mundo adulto que os rodeia. Tendo conhecido um enorme sucesso à época de estreia, este drama social romântico tornou-se um filme de culto e assim permaneceu mesmo depois de Roy Andersson ter sido quase esquecido durante o longo silêncio que se impôs entre 1975 e 2000. Uma segunda exibição está programada para 6 de outubro, terça-feira, às 15h30, na Sala M. Félix Ribeiro.

