Ava Gardner, Cyd Charisse e Judy Garland. Três grandes atrizes do cinema clássico de Hollywood. Três grandes mulheres cujo centenário de nascimento se celebra em 2022. A cada uma a sua história, a sua filmografia, a sua singularidade. O programa que as aproxima na Cinemateca neste mês de fevereiro, sob o título “Fatal Justeza”, traça o raio de ação dos estúdios norte-americanos nas décadas de 1940 e 50 indo até ao território do film noir, dramático, aventureiro ou fantástico, fixando o melodrama, o feérico, ou o género musical. Num conjunto de quase trinta títulos, Gardner, Charisse e Garland irão agraciar o ecrã da sala escura ao longo deste mês, repartindo entre si a atenção dos espectadores. Esta semana destacamos quatro filmes, entre grandes obras-primas e grandes interpretações.
Em simultâneo, está a decorrer a terceira e última parte da retrospetiva da obra de Allan Dwan que se iniciou em dezembro, e ao longo da qual foram mostrados (contando com os filmes de fevereiro) um total de 65 títulos – entre curtas e longas-metragens – do realizador americano de origem canadiana. Nunca, em lado algum, se viu tanto Dwan num só contexto. A nossa recomendação para esta semana recai sobre um dos pináculos da carreira do cineasta e do cinema americano de aventura.
Ainda este mês, a Cinemateca presta homenagem a Rogério Samora (1959-2021), após a sua precoce morte em dezembro do ano passado. O ator deixa uma carreira de 40 anos em que se tornou uma presença permanente junto do público português através do cinema, do teatro e da televisão. Num ciclo que relembra o talento do ator, exibem-se alguns dos seus mais marcantes desempenhos no cinema português, de que salientamos um.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 7 a 12 de fevereiro:

Robin Hood (Robin dos Bosques, 1922) – Segunda-feira, 7 de fevereiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro // Sexta-feira, 11 de fevereiro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Com acompanhamento ao piano por Daniel Schevtz. Um dos pontos mais altos da obra muda de Allan Dwan, assim como da sua colaboração com Douglas Fairbanks. Robin Hood foi um sucesso colossal e bateu todos os recordes de bilheteira no seu tempo, sendo aliás uma das razões por que o universo de Robin dos Bosques se implantou tão poderosamente no imaginário cultural americano e europeu. E, exatamente cem anos depois, continua a ser um festim, cheio de invenções, uma conceção da aventura “narrativa” que não dispensa a aventura “física”, o movimento, bem como a proeza “real” documentada com um mínimo de batota.

The Pirate (O Pirata dos Meus Sonhos, 1948) – Terça-feira, 8 de fevereiro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos mais deslumbrantes musicais de Vincente Minnelli, paródia aos populares “filmes de piratas” da década de 1940, com música de Cole Porter e com o par de eleição: Gene Kelly e Judy Garland. O enredo situa-se em 1830, e joga permanentemente com o sonho e a realidade, a performance e a autenticidade, ao fazer um ator de circo passar pelo pirata por quem a heroína está apaixonada. Mas o truque sai pela culatra… Dada a temática do espetáculo, o filme emparelha-se particularmente bem com outra obra de Minnelli, The Band Wagon (1953), que também é exibido esta semana e que também consta nas nossas recomendações. No dia 23 de fevereiro, quarta-feira, o filme voltará a ser exibido às 19h00 na Sala M. Félix Ribeiro.

Singing in the Rain (Serenata à Chuva, 1952) – Quarta-feira, 9 de fevereiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. O maior musical da História do cinema? É a opinião geral e a sua fama está estabelecida. Mas é também uma maravilhosa homenagem à Sétima Arte e à conturbada fase da transição do mudo para o sonoro no final da década de 20 do século XX, que está na base de alguns dos melhores gags do filme. E é ainda a antologia das grandes melodias daquele tempo, incluindo a que dá o título ao filme, com um bailado final de homenagem às coreografias de Busby Berkeley. A dança entre Gene Kelly e Cyd Charisse de verde Technicolor na sequência Broadway Melody Ballet é uma das grandes aparições da atriz.

O Delfim (2001) – Quinta-feira, 10 de fevereiro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Este filme junta duas das maiores figuras da cultura nacional: o realizador Fernando Lopes, figura chave do Novo Cinema português, e o escritor José Cardoso Pires, autor do livro do qual o filme é adaptado. Através de dois dos maiores atores da sua geração (Rogério Samora e Alexandra Lencastre), O Delfim lança um olhar sobre a decadência da alta burguesia portuguesa no final da década de sessenta, últimos anos de um país ainda preso à mentira da ditadura e à corrupção dos seus elos sociais e pessoais. Um dos maiores sucessos do cinema português dos últimos anos e um dos seus objetos mais prodigiosamente filmados.

Pandora and the Flying Dutchman (Pandora, 1951) – Quinta-feira, 10 de fevereiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Albert Lewin, que teve importantes funções de produtor na MGM, fez incursões extremamente ambiciosas no domínio da realização. Pandora é a mais célebre. Carregado de referências culturais, o filme retoma a lenda do Holandês Voador, o marinheiro condenado a errar eternamente pelo mundo, a menos que uma mulher se apaixone por ele. Aqui, o capitão é James Mason e Pandora é Ava Gardner, cuja imagem misteriosa, sedutora e mítica é a verdadeira celebração do filme. Nas palavras de João Bénard da Costa, “ninguém que não tenha visto Pandora pode alguma vez perceber quem foi Ava Gardner”. Haverá uma segunda oportunidade de ver o filme dia 25 de fevereiro, sexta-feira, às 15h30 na Sala M. Félix Ribeiro.

The Band Wagon (A Roda da Fortuna, 1953) – Sexta-feira, 11 de fevereiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos grandes musicais do cinema americano, homenagem ao mundo do espetáculo, o filme de uma melodia que adquiriu a categoria de um hino: That’s Entertainment. Fred Astaire representa a figura de um bailarino em decadência, contratado para um espetáculo moderno, que acaba por se transformar num fabuloso musical, culminando num bailado-homenagem ao filme de gangsters. Astaire e Cyd Charisse têm um dos mais belos “pas-de-deux” do cinema musical (Dancing in the Dark e Girl Hunt Ballet). “Tudo o que acontece na vida pode acontecer num espetáculo. Podemos rir, podemos chorar. Tudo, tudo pode acontecer. O mundo é um palco, o palco é um mundo de entretenimento.”
Nota: Repete-se esta semana a exibição de The Killers (Assassinos, 1946), filme recomendado pelo C7nema na semana passada.

