Ava Gardner, Cyd Charisse e Judy Garland. Três grandes atrizes do cinema clássico de Hollywood. Três grandes mulheres cujo centenário de nascimento se celebra em 2022. A cada uma a sua história, a sua filmografia, a sua singularidade. O programa que as aproxima na Cinemateca neste mês de fevereiro, sob o título “Fatal Justeza”, traça o raio de ação dos estúdios norte-americanos nas décadas de 1940 e 50 indo até ao território do film noir, dramático, aventureiro ou fantástico, fixando o melodrama, o feérico, ou o género musical. Num conjunto de quase trinta títulos, Gardner, Charisse e Garland irão agraciar o ecrã da sala escura ao longo deste mês, repartindo entre si a atenção dos espectadores. Nesta primeira semana de programação, distinguimos dois filmes que serão porventura dos mais importantes das suas carreiras.
As restantes quatro sessões que salientamos para esta semana integram programas habituais “da casa”. Duas delas fazem parte do ciclo “O Que Quero Ver”, composto por filmes escolhidos pelos próprios espetadores da Cinemateca. A terceira é uma sessão na Cinemateca Júnior onde se poderá ouvir a maravilhosa cítara de Ravi Shankar. E, por fim, destacamos o filme mensal da rubrica “Inadjectivável”, que mostra obras para cuja beleza, ou para cuja grandeza, nunca há qualificativos suficientes.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 31 de janeiro a 5 de fevereiro:

The Celluloid Closet (1995) – Segunda-feira, 31 de janeiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Baseado no famoso livro de 1981 do escritor e ativista Vito Russo, este é um documentário tão divertido como aprofundado que retrata o modo como a opinião pública sobre a homossexualidade foi moldada pela indústria cinematográfica desde a sua origem. Através de extratos de filmes e histórias e reflexões de figuras importantes de Hollywood, os realizadores Rob Epstein e Jeffrey Friedman analisam e descodificam as duplas leituras presentes numa dialética visibilidade/invisibilidade e na progressão da sensibilidade homossexual reprimida pelo cinema norte-americano.

The Killers (Assassinos, 1946) – Terça-feira, 1 de fevereiro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Obra magistral de Robert Siodmak, composta num estilhaçar narrativo cuja fragmentação em flashbacks tem evocado a estrutura-puzzle de Citizen Kane, mas em versão noir. Partindo do conto de Hemingway (um admirador do filme, que considerava a única boa adaptação de um trabalho seu), o argumento conta com a contribuição não creditada de John Huston, e o filme marca a estreia de Burt Lancaster e o estrelato de Ava Gardner, ambos numa fabulosa dupla noir. O ponto de partida é o assassinato dele, um ex-pugilista, e é a sua vida, caída em fatal desgraça, que é reconstituída no curso de uma investigação de vários encontros por um agente de seguros. Na segunda-feira, 7 de fevereiro, a sessão repete-se pelas 19h30 na Sala Luís de Pina.

Ayneh (O Espelho, 1997) – Quarta-feira, 2 de fevereiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Enquanto decorre a transmissão televisiva de um jogo de futebol (o desporto mais popular no Irão) entre as equipas iraniana e coreana, uma rapariga cuja mãe se esqueceu de a ir buscar à escola vagueia pelas ruas de Teerão à procura do caminho de regresso a casa. O filme muda de registo quando em off se ouve a voz do realizador, Jafar Panahi: “Mina, não olhes para câmara!”. Um dos filmes que ajudou a afirmação internacional da “escola iraniana” na sua complexa articulação da questão do realismo com os artifícios da ficção.

A Star is Born (Assim Nasce uma Estrela, 1954) – Quinta-feira, 3 de fevereiro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. A história da atriz que sai do anonimato para a fama tem uma linhagem americana que começa em George Cukor mas noutro título: What Price Hollywood? (1932), com Constance Bennett. Esse filme estaria na base de A Star Is Born, de William Wellman (1937), com Janet Gaynor, filme a que o próprio Cukor regressa para esta versão de 1954 com Judy Garland. Sobrevêm, em 1976, a adaptação de Frank Pierson com Barbra Streisand e, em 2018, uma versão realizada e coprotagonizada por Bradley Cooper com Lady Gaga. O filme de 1954, que inflete para uma adaptação musical, foi pensado para que Garland brilhasse, e Cukor explora as possibilidades do formato largo do CinemaScope. Uma segunda exibição terá lugar a 22 de fevereiro, terça-feira, às 18h00 na Sala M. Félix Ribeiro.

Pather Panchali (O Lamento da Vereda, 1955) – Sábado, 5 de fevereiro, 15h00, Salão Foz. Apu é filho de uma família pobre. O pai, um aspirante a poeta e dramaturgo, parte para a cidade em busca de uma vida melhor para todos. Com a mãe, a irmã Durga, e uma prima idosa, Apu vive numa aldeia remota de Bengala uma infância livre e aventurosa, até que um dia a pobreza a ensombra de forma definitiva. Este filme, reconhecido e premiado internacionalmente, foi considerado um marco no cinema indiano e deu início a uma trilogia, hoje conhecida como trilogia de Apu, que marcou para sempre a obra do cineasta Satyajit Ray.

Senso (Sentimento, 1954) – Sábado, 5 de fevereiro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Uma das obras-primas máximas de Luchino Visconti, e provavelmente o mais operático entre todos os seus filmes (a famosa cena de abertura tem lugar durante uma récita do Trovador, no La Fenice de Veneza). Durante as lutas políticas na Itália, em meados do século XIX, a louca paixão de uma condessa veneziana por um tenente austríaco, paixão que a levará a trair, em vão, a causa do seu país. Na pele da Condessa Livia Serpieri, Alida Valli no seu mais célebre papel.
Nota: Tendo em conta as restrições decorrentes da pandemia que condicionaram o acesso dos espectadores à Cinemateca durante a primeira semana de janeiro, voltarão a ser exibidos nesta primeira semana de fevereiro alguns dos títulos mais prejudicados por essa circunstância. Entre eles, encontram-se alguns filmes que na altura foram recomendados pelo C7nema, nomeadamente Woman They Almost Lynched (1953) e Älskande Par (Amor em Tons Eróticos, 1964).

