“Siamo Donne” (à letra, “somos mulheres”) é o nome do ciclo coorganizado pela Cinemateca e pela Festa do Cinema Italiano, este ano na sua 14ª edição, que tem lugar este mês de novembro. O programa conta com 22 títulos e traça uma genealogia das divas do cinema italiano, percorrendo cerca de 100 anos dessa cinematografia ao sabor dos nomes das suas atrizes mais consagradas, capazes de disputar a primazia do público com as grandes vedetas americanas ou francesas das mesmas épocas. Para celebrar estas afamadas intérpretes, percorreremos a evolução desta classe especial de atrizes desde as primeiras divas do mudo até às estrelas de décadas mais próximas de nós, passando pelas vedetas da “idade de ouro” do cinema italiano dos anos de 1950 a 1970.
Ao mesmo tempo, o ciclo “Disponíveis para o Noir” retoma outro programa, apresentado em junho deste ano, intitulado “No Coração do Noir”, que se concentrava no fulcro do cinema clássico de Hollywood dos anos 1940 e 50. O que agora a Cinemateca propõe é uma viagem cronologicamente balizada entre 1947 e 1967 por um núcleo de títulos atraídos pelo noir nas cinematografias francesa, britânica e japonesa, que estiveram particularmente atentas ao subtexto e ao estilo de Hollywood.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 15 a 20 de novembro:

Io La Conoscevo Bene (1965) – Terça-feira, 16 de novembro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Antonio Pietrangeli faleceu prematuramente em 1968, mas pôde dar com este filme a medida do seu talento atrás da câmara. O filme conjuga o tema da juventude e o tom lúdico da Nouvelle Vague com a “desdramatização” herdada do cinema de Antonioni, narrando uma única história, fragmentada em episódios breves, como se o filme fosse construído sobre o princípio da associação de ideias. No centro do filme está Stefania Sandrelli e a sua relação com diversos homens, pretexto para um fabuloso retrato, em “corte sociológico”, da Itália em meados da década de 1960. A 25 de novembro, quinta-feira, o filme voltará a ser exibido, às 15h30 na Sala M. Félix Ribeiro.

Jiokhwa (Uma Flor no Inferno, 1958) – Quarta-feira, 17 de novembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro // Sábado, 20 de novembro, 20h00, Sala Luís de Pina. Um clássico de Shin Sang-ok (1926-2006), produtor e realizador tido por figura de proa do cinema sul-coreano dos anos 1950/60, com a atriz Choi Eun-hee (1926-2018), estrela muito popular nas décadas de 1960/70, que aqui interpreta a fabulosa personagem da prostituta que ganha a vida com os yankees da base militar de Seul e deita a perder o destino de dois irmãos no pós-guerra da Coreia. O retrato da pobreza e da corrupção da sociedade sul-coreana dos anos 1950 conjuga-se com um enredo de perdição de fundo erótico em que o pendor realista, o melodrama e o imaginário noir americano confluem poderosamente.

Respiro (2002) – Quinta-feira, 18 de novembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. A personagem principal é a impressionante paisagem mediterrânica da ilha de Lampedusa, onde uma mulher, interpretada por Valeria Golino, suspeita-se, terá ensandecido. O seu comportamento errático, desordeiro e considerado ofensivo deteriora a relação desta mulher, mãe de três crianças, com o marido, um pescador em crescente desespero. Formado na Universidade de Nova Iorque, Emanuele Crialese era, à data, um dos mais promissores realizadores italianos, aqui assinando a realização e o argumento que seduziram a crítica no Festival de Cannes de 2002, valendo-lhe dois grandes prémios: Semana da Crítica e Jovens Críticos. Uma segunda projeção terá lugar dia 27 de novembro, sábado, pelas 20h00 na Sala Luís de Pina.

Aru Kyounhaku (Intimidação, 1960) – Quinta-feira, 18 de novembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Koreyoshi Kurahara (1927-2002) estreou-se na realização para a Nikkatsu em 1957 e foi aí que assinou este drama criminal de elementos noir, em que um ambicioso bancário se enreda num esquema de chantagem que o leva a organizar um assalto ao próprio banco, confrontando-se com um subalterno movido pelo ressentimento vingativo. A acidez das reviravoltas narrativas engendradas na concentração da intriga tem lugar no Japão do pós-guerra, expondo o fundo corrupto pequeno-burguês de uma sociedade ameaçada pela desagregação. Os meandros da história, o ambiente noturno e a firmeza da realização fazem reverberar motivos do cinema clássico americano.

Cabra Marcado Para Morrer (1984) – Sexta-feira, 19 de novembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Mais uma projeção especial do ciclo “Salvar a Cinemateca Brasileira!”, um programa quinzenal em que se homenageia o cinema brasileiro e a Cinemateca Brasileira. Apesar de não ter sido o primeiro filme rodado por Eduardo Coutinho, esta obra marca o início da sua carreira como documentarista de referência. Coutinho iniciou a rodagem de um filme a poucos meses do golpe militar de 1964 e mais de 20 anos antes da sua estreia internacional. No início era uma ficção, sobre a morte do líder da liga camponesa de Sapé, João Pedro Teixeira, mas, devido à interrupção de duas décadas, acabou por se tornar um documentário sobre a tentativa de resgatar o filme perdido, propiciando várias oportunidades de reencontro com alguns dos seus protagonistas. Uma obra fundamental da história do documentário.

Zero No Shoten (Zero Focus, 1961) – Sábado, 20 de novembro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Referenciado como o pioneiro japonês do cinema noir, Yoshitaro Nomura (1919-2005), ativo entre as décadas de 1950 e meados de 80, foi um realizador extremamente popular no seu país, com destaque para os filmes em que adaptou romances criminais do escritor Seicho Matsumoto, emblemáticos do pessimismo do pós-guerra. Zero No Shoten é um deles, o mais limpidamente noir. Para aí apontam a construção em flashbacks guiada pela voz off da protagonista feminina (Yoshiko Kuga), a duplicidade das personagens, revelações e revezes narrativos. É comum notarem-se afinidades hitchcockianas na história da recém-casada Teiko, que parte de Tóquio em busca do marido desaparecido para se confrontar com homicídios, o rasto da prostituição e do estigma dos tempos de guerra. A sessão repete-se na terça-feira, 23 de novembro, às 20h00 na Sala Luís de Pina.
Nota: Na segunda-feira, 15 de novembro, voltará a ser exibido Du Rififi Chez les Hommes (Rififi, 1954), às 15h30 na Sala M. Félix Ribeiro, filme sugerido pelo C7nema na semana passada.

