Sessões na Cinemateca – Escolhas de 1 a 6 de novembro

(Fotos: Divulgação)

Siamo Donne” (à letra, “somos mulheres”) é o nome do ciclo coorganizado pela Cinemateca e pela Festa do Cinema Italiano, este ano na sua 14ª edição, que tem lugar este mês de novembro. O programa conta com 22 títulos e traça uma genealogia das divas do cinema italiano, percorrendo cerca de 100 anos dessa cinematografia ao sabor dos nomes das suas atrizes mais consagradas, capazes de disputar a primazia do público com as grandes vedetas americanas ou francesas das mesmas épocas. Para celebrar estas afamadas intérpretes, percorreremos a evolução desta classe especial de atrizes desde as primeiras divas do mudo (Lyda Borelli, Francesca Bertini, Pina Menichelli) até às estrelas de décadas mais próximas de nós (Ornella Muti, Valeria Golino), passando pelas vedetas da “idade de ouro“ do cinema italiano dos anos de 1950 a 1970 (uma longa lista, mas mesmo assim necessariamente incompleta, que inclui os nomes de Anna Magnani, Sophia Loren, Gina Lollobrigida, Alida Valli, Silvana Mangano, Stefania Sandrelli, Claudia Cardinale, Giulietta Masina, Virna Lisi, Mariangela Melato e Monica Vitti).

Ao mesmo tempo, abre o ciclo “Disponíveis para o Noir”, que retoma outro ciclo, apresentado em junho deste ano, intitulado “No Coração do Noir”, e que se concentrava no fulcro do cinema clássico de Hollywood dos anos 1940 e 50. O que agora a Cinemateca propõe é uma viagem cronologicamente balizada entre 1947 e 1967 por um núcleo de títulos atraídos pelo noir nas cinematografias francesa, britânica e japonesa, que estiveram particularmente atentas ao subtexto e ao estilo de Hollywood, e uma incursão no noir das filmografias norueguesa e sul-coreana.

Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 1 a 6 de novembro:

Nora Inu (O Cão Danado, 1949) – Terça-feira, 2 de novembro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro // Sexta-feira, 5 de novembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Da fase inicial da obra de Kurosawa, este é um filme extraordinário em que, além da admiração do realizador pelo universo literário de Georges Simenon, se reconhecem as impressões do neorrealismo italiano e do noir americano. O realismo da ação, ambientada nos bairros pobres da Tóquio do pós-guerra numa sociedade em ressaca, retoma o imaginário noir na profundidade da culpa sentida pelo jovem polícia interpretado por Toshiro Mifune. O enredo parte do roubo acidental da pistola do agente, que o põe no encalço da sua recuperação, torturado pelo destino que as sete balas nela carregadas hão de infligir. A densidade narrativa põe em “confronto invisível” o polícia e o criminoso da mesma geração e passado combatente, levando o protagonista a um debate com o fantasma de si mesmo.

They Made Me a Fugitive (Sou um Fugitivo, 1947) – Terça-feira, 2 de novembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro // Sábado, 6 de novembro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Da fase final do período britânico da obra-viajante de Alberto Cavalcanti, They Made Me a Fugitive (também conhecido como I Became a Criminal) é um expoente das investidas noir britânicas. Imerso nas sombras urbanas londrinas do pós-guerra, nas ruas, pubs, teatros, e estúdios do Soho, segue-se a história de um ex-combatente da Força Aérea que enveredou pela marginalidade do mercado negro (montado sob o negócio de uma funerária) e foi parar à prisão por um crime que não cometeu, fugindo para vingar a traição. A narrativa baseada em A Convict Has Escaped de Jackson Budd, a fotografia contrastada de Otto Heller, a interpretação de Trevor Howard, e a brutalidade final convergem na sensibilidade noir desta grande obra do “género”.

Siamo Donne (Nós, Mulheres, 1953) – Quarta-feira, 3 de novembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro // Sábado, 6 de novembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Filme em cinco sketches a partir de uma ideia de Cesare Zavattini, em que é retratado o quotidiano de atrizes como Alida Valli (por Gianni Franciolini), Ingrid Bergman (por Roberto Rossellini), Anna Magnani (por Luchino Visconti), Isa Miranda (por Luigi Zampa) ou de estreantes como Emma Danieli e Anna Amendola. Atrizes que refletem a essência do cinema italiano no princípio da década de cinquenta, filmadas por realizadores também eles marcantes, numa dinâmica de género que revela desde logo os lugares de poder à frente e por detrás da câmara.

A Volta ao Mundo Quando Tinhas 30 Anos (2019) – Sexta-feira, 5 de novembro, 19h30, Sala Luís de Pina, com a presença de Aya Koretzky. A Cinemateca volta a associar-se este ano aos Encontros Cinematográficos, organizados no Fundão e já na sua 11ª edição. Através de um álbum de fotografias, Aya Koretzky conta a viagem epopeica do pai à volta do mundo, até ao seu estabelecimento em – à história de amor com – Portugal. Já em obras anteriores, Koretzky, nascida no Japão mas radicada em Portugal, havia aprofundado a sua ligação à terra do pai, sobretudo através da escrita epistolar. A lonjura ganha aqui outros contornos, na medida em que o filme olha a memória pelo retrovisor de um álbum de fotografias a par de um diário escrito pelo pai. É uma viagem ao passado, mas também nele se lança um olhar sobre o que é hoje a vida deste homem japonês radicado em Portugal e sobre a relação que mantém, sem se resolver, com a ideia de pátria.

Assunta Spina (1915) – Sábado, 6 de novembro, 19h00, Sala M. Félix Ribeiro. Este é o mais famoso filme de Francesca Bertini, a primeira e maior das divas do cinema mudo italiano, e é também uma obra-prima do cinema italiano e um título fundamental da filmografia muda. Rodado em exteriores naturais, trata-se de uma adaptação de um romance de Salvatore di Giacomo (com argumento de Gustavo Serena e a própria Bertini, que se envolveu a fundo no projeto deste filme e mais tarde o levou para o palco, noutra colaboração com Serena), seguindo uma história de amores napolitanos. O realismo da interpretação de Bertini neste filme foi em si mesmo um marco no cinema da época.

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