Sessões na Cinemateca – Escolhas de 27 de setembro a 2 de outubro

(Fotos: Divulgação)

Com o fim de setembro à porta, terminam os dois ciclos que nos têm acompanhado ao longo deste mês. Em “Histórias de Objetos, Objetos nas Histórias” a Cinemateca procura refletir sobre o papel das coisas, dos objetos materiais, nas histórias do cinema. Muitas vezes os objetos são o centro e a força condutora quer de cenas quer de filmes inteiros, podendo um objeto conter todo mundo de um filme. Os objetos que aqui são homenageados são quase sujeitos: não podem ser encarados como meros adereços, porque efetivamente atuam no tecido dramático do filme e, por vezes, assumem-se mesmo como protagonistas. Paralelamente, termina o ciclo sobre “O Cinema de Vichy – A França Ocupada (1940-44)”. Durante o período da ocupação pela Alemanha nazi foram realizados em França um total de 220 filmes, e este ciclo, que mostra exclusivamente filmes realizados entre junho de 1940 e agosto de 1944, dá um apanhado do que foi o cinema dito “de Vichy”, que ainda hoje continua a ser relativamente pouco conhecido, mas que merece reconhecimento.

A entrar em outubro, com um programa que nos reserva diversas surpresas para as próximas semanas, começamos com um ciclo dedicado a “Dirk Bogarde – O Ator das Sombras”. Assinalou-se em março passado o centenário do nascimento deste que foi um dos atores mais marcantes do cinema britânico do período pós-II Guerra, e que aqui é recordado em dez paragens por momentos que se contam entre os mais importantes da sua carreira. Desde um primeiro momento em que se tornou uma vedeta popularíssima da comédia britânica até à descoberta do seu caráter sombrio, Bogarde foi um ator muito versátil, à vontade em vários géneros. Nos seus últimos anos, dedicou-se a outro talento (a escrita: publicou dezenas de livros, relatos de memórias, romances, ensaios, poesia) e retirou-se do cinema, sem dramas, à entrada dos anos 1990, vindo a falecer no final dessa década.

Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 27 de setembro a 2 de outubro:

The Glass Menagerie (Algemas de Cristal, 1987) – Segunda-feira, 27 de setembro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos melhores trabalhos de Paul Newman como realizador e a terceira adaptação da peça homónima de Tennessee Williams ao cinema. Filme de interiores passado numa noite em que se dão importantes revelações no seio da família composta por uma filha “quebradiça” que coleciona pequenos animais em cristal (Karen Allen), a matriarca algo ditatorial (Joanne Woodward) e o filho inconformado (um John Malkovich em início de carreira). O drama intimista cristaliza-se numa imagem: a de um unicórnio em vidro que perdeu o corno depois de cair ao chão, acidente causado por uma valsa dançada entre a jovem e um convidado especial (James Naughton). O menagerie familiar revela-se um espaço de uma raríssima e delicada beleza humana.

The Night of the Hunter (A Sombra do Caçador, 1955) – Segunda-feira, 27 de setembro, 21h30, Esplanada. Esta única incursão de Charles Laughton na realização (que foi um completo fracasso comercial à época) resulta numa obra-prima incomparável, ponte de passagem obrigatória do cinema clássico ao moderno, com uma nova exploração da iluminação expressionista. Nesta onírica história infantil, o ogre é um assassino em série (a mais mítica criação de Robert Mitchum), perseguindo duas crianças filhas de uma das suas vítimas. Na boneca favorita da pequena Pearl – símbolo de uma inocência sob ameaça – está a fortuna que o falso reverendo (lobo mau…) anda a farejar desde que soube da morte do pai das crianças na sequência de um assalto a um banco. Fábula sobre a ganância, é, hoje em dia, um dos filmes mais amados na história do cinema.

Douce (Coração Impaciente, 1943) – Terça-feira, 28 de setembro, 21h30, Esplanada. Considerado como um dos melhores trabalhos de Claude Autant-Lara, este também é um dos filmes que anuncia de maneira mais nítida o cinema “de prestígio” francês dos anos cinquenta (a chamada Qualité Française que viria a ser criticada pelos cineastas da Nouvelle Vague), baseado no saber dos argumentistas (no caso deste filme, a dupla Jean Aurenche e Pierre Bost, que reinaria durante um longo período) e dos técnicos. Douce é situado em fins do século XIX num meio aristocrático e narra elegantemente a história do amor impossível, devido à diferença de classes, entre uma jovem “de família” e um criado.

They Live (Eles Vivem, 1988) – Quarta-feira, 29 de setembro, 21h30, Esplanada. A ficção científica, o terror e a sátira: neste filme um homem chega a Los Angeles para descobrir que a sociedade de consumo está a ser dominada por mensagens subliminares ditadas por “aliens” disfarçados de humanos. O “real” só se torna visível através de óculos escuros especiais, objeto que permite ao protagonista ver menos para ver mais além. “Stay asleep”, “no imagination”, “submit to authority” são algumas das palavras de ordem para subjugar os humanos. Um filme incontornável na filmografia de John Carpenter.

The Servant (O Criado, 1963) – Sexta-feira, 1 de outubro, 15h30, Sala M. Félix Ribeiro. O mais famoso filme inglês de Joseph Losey, adaptado do romance de Robin Maugham, sobre um jovem aristocrata que regressa da Índia para ocupar a sua mansão londrina e acaba joguete de um criado corrupto e vicioso, numa inversão que é uma metáfora sobre a luta de classes. Na carreira de Dirk Bogarde – de que é um dos pontos mais altos – The Servant é talvez o filme que mais perto fica de lhe definir e fixar uma imagem.

Morte a Venezia (Morte em Veneza, 1970) – Sábado, 2 de outubro, 21h30, Sala M. Félix Ribeiro. Uma obra-prima de Luchino Visconti adaptada de uma novela de Thomas Mann. História de envelhecimento e decadência onde as pessoas morrem numa cidade também ela moribunda sob os efeitos da peste, e onde um chefe de orquestra envelhecido se apaixona pela imagem de um jovem efebo no luxuoso hotel de Veneza onde se encontra. “You must never smile like that. You must never smile like that to anyone. I love you.”

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