Ao longo do mês que agora termina, a Cinemateca tem apresentado uma nova instalação do programa “Revisitar os Grandes Géneros” – que já teve, em 2019, uma versão dedicada ao melodrama, e em 2020 outra em torno da comédia –, que desta vez se concentra no film noir. O ciclo “No Coração do Noir” é o primeiro dos dois passos do programa e propõe 30 títulos norte-americanos realizados entre 1940 e 1959, que constituem uma amostra substancial deste género (movimento? estilo?) cinematográfico. O outro grande ciclo do mês de junho tem sido a “Carta Branca a Augusto M. Seabra”, crítico de cinema e música português cuja atividade o levou à função de jurado em diversos festivais internacionais de cinema (como em Cannes, em 1993), a que se juntou a atividade de programador, nomeadamente do DocLisboa. O conjunto de filmes que selecionou deixa de fora títulos óbvios, de cânone, concentrando-se antes em 21 obras de grande amplitude geográfica e diversidade de registos, num desafio à descoberta.
Em julho, a Cinemateca preparou o ciclo “Cinema Italiano, Lado B”, que propõe levar-nos numa viagem “alternativa” a Itália e ao cinema italiano, para a qual foram estabelecidas três regras. A primeira é uma delimitação temporal: do início dos anos 1950 ao final dos anos 1970, ou seja, uma das épocas de ouro desta cinematografia. O segundo critério: não incluir obras dos grandes mestres (Rossellini, Visconti, De Sica, Antonioni, Pasolini, Fellini, Bertolucci, etc.) que, por isso mesmo, têm tido ao longo dos anos maior visibilidade. O terceiro: não incluir obras de três géneros intrinsecamente característicos do cinema italiano deste período: o western spaghetti, o peplum e o giallo. Assim, o ciclo conta com 23 filmes de realizadores de “segunda linha” do cinema italiano, perfazendo um percurso heteróclito e nada canónico que mostra como era belo o cinema italiano na sua capacidade de ser simultaneamente popular e autoral.
“Hot Blood – No Centenário de Jane Russell” será o outro ciclo que se inicia já esta semana. Russell foi um dos maiores símbolos sexuais do cinema americano dos anos quarenta e cinquenta, e nesses primeiros anos da década de 40, com a guerra a rugir na Europa e no Pacífico, ficou célebre como pin up, adorada pelos soldados americanos estacionados pelo mundo fora. Foi só depois da guerra que a sua carreira cinematográfica verdadeiramente arrancou, e logo o seu talento e a sua versatilidade explodiram e se tornaram evidentes. São essas as qualidades de Russell (nascida a 21 de junho de 1921, morreu em 2011) que aqui estarão em exibição.
Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 28 de junho a 3 de julho:

Meghe Dhaka Tara (Estrela Escondida, 1960) – Segunda-feira, 28 de junho, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Ritwik Ghatak (1925-76) é um dos mais célebres cineastas do Bengala, a mesma região da Índia de onde é originário Satyajit Ray, de quem quase tudo o separa. Este foi o filme que consagrou definitivamente o seu nome fora do seu país natal. A trama narrativa é melodramática, coisa que Ghatak sempre defendeu, e a realização nada tem de tradicional. Segundo a observação de Joel Magny, o filme é “uma estranha tentativa, totalmente suicidária, de levar o cinema ao seu limite”. Uma obra excecional.

Out of the Past (O Arrependido, 1947) – Terça-feira, 29 de junho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Jacques Tourneur já filmara os abismos da noite em obras anteriores, mas a atmosfera deste filme é puramente noir. “Nunca a vi à luz do dia. Parecíamos viver à noite. O que sobrava do dia esfumava-se como um maço de cigarros” – diz a personagem de Robert Mitchum, aqui antagonista do bandido de Kirk Douglas e fatalmente traído por uma destrutiva Jane Greer. A narrativa, em flashback, retrata um um ex-detetive nova-iorquino que tenta a pacatez de uma bomba de gasolina na Califórnia, um homem cujo presente não liberta o passado maldito. Entre recortes de fumo, luz e sombras, com a fabulosa fotografia de Nicolas Musuraca, este é um expoente do noir, dos mais icónicos filmes do género.

Vanya on 42nd Street (1994) – Terça-feira, 29 de junho, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Esta não foi a primeira vez que o dramaturgo André Gregory e o ator Wallace Shawn se juntaram a Louis Malle para a produção de um filme sobre o teatro e a vida. My Dinner With André (1981) já prometia o que aqui se cumpre. Gregory desenvolveu um workshop informal com um conjunto de atores ao longo de mais de quatro anos que, em sessões privadas, sem público, trabalhavam em torno de uma versão, escrita por David Mamet, da famosíssima peça de Tchékov, O Tio Vânia. Não havia intenção de mostrar nada ao público, mas Gregory acabou por convidar Louis Malle para registar a peça, interpretada pelos atores em roupas informais num teatro abandonado e decrépito, situado em Manhattan. O resultado é uma ode à arte interpretativa.

Touch of Evil (A Sede do Mal, 1958) – Quarta-feira, 20 de junho, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Defende-se que Citizen Kane (1941) já transportava a semente noir, e Orson Welles semeou-a, estonteante, em The Lady From Shanghai (1947), mas é (quase) consensual que Touch of Evil encerra o fulcro do ciclo noir americano vibrante desde o início da década anterior. Alucinante investida no noir e um pungente solilóquio sobre o mal, dominada pela mestria e a presença de Welles, no papel de um polícia que impõe a sua lei numa corrupta cidade da fronteira com o México, fazendo frente a um agente americano na espiral de uma narrativa de ilusão e paranoia. O plano sequência inicial faz parte da lenda cinematográfica, a aparição de Marlene Dietrich é de antologia, e o filme – na altura um desastre à medida da grandeza de Welles – conquistou o culto.

Tutti a Casa (1960) – Sábado, 3 de julho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Um dos mais famosos filmes do género da “comédia à italiana”, tem como pano de fundo a Segunda Guerra Mundial e o anúncio de um armistício que deveria reconduzir os soldados italianos às suas casas. Uma das obras-primas de Luigi Comencini em que a comédia e a tragédia se unem em torno dos paradoxos da guerra. Alberto Sordi, que já protagonizara no ano anterior La Grande Guerra, de Monicelli, regressa aqui ao campo de batalha.

His Kind of Woman (Redenção, 1951) – Sábado, 3 de julho, 20h30, Sala M. Félix Ribeiro. Um filme de culto à volta das peripécias de um aventureiro (Robert Mitchum) contratado para assumir a identidade de um chefe de gang, destinado, sem o saber, a ser vítima de um crime. O diálogo é fabuloso, mesmo nos seus clichés, cheio de achados e ironia, mas a palma vai para Vincent Price na figura de um ator de série B que resolve fazer jus à sua fama de aventureiro na vida “real”. A mulher do título original é Jane Russell.
Nota: Na terça-feira, 29 de junho, voltará a ser exibido The Killers (Assassinos, 1946), pelas 15h30, na Sala M. Félix Ribeiro, e na quarta-feira, 30 de junho, também Odds Against Tomorrow (Homens no Escuro, 1959) terá uma segunda exibição, ambos sugeridos pelo C7nema na semana passada.

