Sessões na Cinemateca – Escolhas de 14 a 19 de junho

(Fotos: Divulgação)

Para junho, a Cinemateca reservou uma nova instalação do programa “Revisitar os Grandes Géneros” – que já teve, em 2019, uma versão dedicada ao melodrama, e em 2020 outra em torno da comédia –, que desta vez se concentra no film noir. O ciclo “No Coração do Noir” é o primeiro dos dois passos do programa e propõe trinta títulos norte-americanos realizados entre 1940 e 1959, que constituem uma amostra substancial deste género (movimento? estilo?) cinematográfico. Talvez o elemento estilístico mais característico do noir seja a fotografia a preto-e-branco, altamente contrastada, dominada por sombras expressivas, focos de luz, ricochetes luminosos e silhuetas. Um imaginário visual que se constrói sobre narrativas frequentemente fragmentadas e em flashback, giradas em torno do crime, do susto, da morte, dos tormentos, das angústias, das claustrofobias, das motivações obscuras e paixões funestas. A ambiguidade moral do film noir é a expressão da infiltração da ansiedade da 2ª Guerra Mundial, da depressão do pós-guerra, da tensão da Guerra Fria e do que delas foi vertendo para as comunidades e os indivíduos como um mal-estar existencial.

O outro grande ciclo que marca o mês de junho é a “Carta Branca a Augusto M. Seabra”, crítico de cinema e música português que iniciou a sua carreira no domínio do cinema a escrever para o jornal “Expresso”, passando, desde a sua fundação, a trabalhar para o “Público”. A atividade de crítico levou-o à função de jurado em diversos festivais internacionais de cinema, sendo de destacar a sua presença no júri do festival de Cannes de 1993, a que se juntou a atividade de programador, tendo sido durante vários anos programador do DocLisboa. O conjunto de filmes que selecionou deixa de fora títulos óbvios numa qualquer lista representativa das escolhas do autor que, pela sua maior proximidade ao cânone mais consolidado do cinema mundial, têm sido regularmente exibidos na Cinemateca. Apresentam-se antes vinte e uma obras de grande amplitude geográfica e diversidade de registos, num desafio à descoberta.

Estas são as nossas sugestões para as sessões a decorrer na semana de 14 a 19 de junho:

Ace in the Hole (O Grande Carnaval, 1951) – Segunda-feira, 14 de junho, 17h30, Sala M. Félix Ribeiro. Tudo o que se tem escrito sobre jornalismo sensacionalista já estava dito e denunciado nesta obra-prima de Billy Wilder, que acumula realização, argumento e produção, assinando um filme de rara brutalidade e sufocação. O negrume é interior, e se o escuro é literalmente filmado no buraco de uma montanha, a ação decorre decisivamente na paisagem aberta do deserto mexicano batido pelo sol: um dito jornalista indecentemente movido pelo sensacionalismo mais reles (extraordinário Kirk Douglas) explora até ao último fôlego o drama de um homem soterrado enquanto os trabalhos de escavação se fazem ouvir. À volta da tragédia monta-se um circo, uma autêntica feira, o “carnaval” do título português (que deriva do título imposto pela Paramount na época, The Big Carnival).

Silverlake Life: The View from Here (1993) – Terça-feira, 15 de junho, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Não devem ter conta os documentários sugeridos ou influenciados pelo tema da SIDA, desde finais dos anos oitenta até aos nossos dias. Este, realizado há quase trinta anos, permanece como um dos mais notáveis: cru mas sem esquecer a delicadeza, pudico mas sem obliterar a realidade das coisas, é a observação do quotidiano de dois doentes com SIDA, um deles, Tom Joslin, co-realizador do filme. Um diário videográfico extraordinário que documenta, com coragem e humor, como a vida do casal é afetada pela doença.

Popiol i Diament (Cinzas e Diamantes, 1958) – Quarta-feira, 16 de junho, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Realizado por Andrzej Wajda, foi o filme que revelou aos espectadores ocidentais o cinema de autor da Europa do Leste, antes mesmo das importantes “novas vagas” que existiriam naqueles países nos anos sessenta. A história é situada nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial. Um militante de um grupo nacionalista chega a uma pequena cidade, com a missão de abater o chefe da rede comunista local, mas engana-se na vítima, o que o obriga a esperar pela chegada do verdadeiro alvo. O filme também é célebre devido ao desempenho excecional de Zbigniew Cybulski no papel principal; o ator morreria poucos anos depois, o que lhe valeu a alcunha de “James Dean polaco”.

The Hitch-Hiker (Arrojada Aventura, 1953) – Quinta-feira, 17 de junho, 17h00, Sala M. Félix Ribeiro // Sábado, 19 de junho, 18h00, Sala M. Félix Ribeiro. Trata-se de um road movie noir em cenários rurais realizado por Ida Lupino, uma das raras mulheres realizadoras a trabalhar na clássica Hollywood, que se dedicou a filmar o realismo da sociedade americana e em particular da condição feminina. Seguindo uma história e protagonistas masculinos, é um filme de medo e suspense extraordinário, grande intensidade claustrofóbica, fabulosas fotografia e mise-en-scène. O argumento é inspirado nos atos de um serial-killer que aterrorizou a Califórnia no princípio da década de 1950: dois amigos, de volta de um dia de pescaria, dão boleia a um estranho (William Talman), que revela ser um dos vilões mais assustadores da história do cinema americano.

O Thiassos (A Viagem dos Comediantes, 1975) – Quinta-feira, 17 de junho, 18h45, Sala M. Félix Ribeiro. Um filme-fresco sobre a história da Grécia de 1939 a 1952 vista através do percurso de uma companhia de teatro ambulante que percorre o país representando sempre a mesma peça. Organizando-se em quadros relativamente independentes comentados por monólogos, slogans ou por canções, A Viagem dos Comediantes revela a tragédia grega segundo um olhar brechtiano tão característico do cinema de Theo Angelopoulos. Prémio da crítica no Festival de Cannes de 75, o filme que fez circular o nome do cineasta pelo mundo inteiro é para muitos a sua obra-prima.

In a Lonely Place (Matar ou Não Matar, 1950) – Sexta-feira, 18 de junho, 20h00, Sala M. Félix Ribeiro. Humphrey Bogart e Gloria Grahame são esplendorosos neste dramático noir de bastidores hollywoodianos. É um dos estupendos casos noir do cinema de Nicholas Ray, que por aí começou a carreira com They Drive by Night (1948). Esta é a segunda longa-metragem do cineasta com Bogart, que também assumiu o papel de produtor, e é uma obra-prima. Bogart interpreta o papel de um argumentista atormentado suspeito de ter assassinado brutalmente uma jovem empregada de um restaurante, mas o filme é essencialmente um testemunho sobre a violência que todos temos dentro de nós.

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