CineOP revisita os mundos de Helena Solberg

(Fotos: Divulgação)

Helena Solberg chegou a uma Ouro Preto que se agasalha pesadamente — como se nota na fotografia acima, de Leo Lara — sob uma sensação térmica de 17 °C, frio que pode parecer ameno aos europeus, mas soa inóspito a quem vem do Rio de Janeiro, como a octogenária realizadora, que vê os seus 60 anos de carreira celebrados na cidade mineira.

A abertura da CineOP será feita à luz de dois dos seus primeiros filmes: A Entrevista (1966) e Meio-Dia (1970). Esta sexta-feira, Solberg participa num colóquio com a realizadora Lúcia Murat e a professora Mariana Tavares, numa conversa em que revisitará as memórias do seu percurso nos ecrãs. Um percurso decisivo para a renovação estética do documentário latino-americano e para a afirmação de um olhar feminino no cinema moderno brasileiro. Numa permanente inquietação política e humanista, Helena atravessou fronteiras geográficas e culturais, com passagens por territórios hispânicos e pelos Estados Unidos, mantendo sempre a atenção centrada nos indivíduos.

A programação da CineOP recupera diferentes momentos desse percurso, incluindo títulos fundamentais como The Emerging Woman (1974), The Double Day (1975) e o consagrado Carmen Miranda: Bananas Is My Business (1995), documentário distinguido internacionalmente que revisitou a figura da artista brasileira para além dos estereótipos construídos por Hollywood. O seu trabalho inclui ainda a ficção Vida de Menina (2004), vencedora do Kikito de Melhor Longa-Metragem no Festival de Gramado, numa prova da versatilidade de uma autora que nunca se deixou aprisionar por formatos ou convenções.

“A Entrevista”, de 1966

A homenagem promovida pela CineOP reconhece também o papel pioneiro de Solberg num meio historicamente dominado por homens. A sua formação cruza-se com algumas das figuras centrais do Cinema Novo brasileiro: trabalhou com Mário Carneiro na fotografia de A Entrevista (1966), na qual contou com Rogério Sganzerla na montagem, e acompanhou de perto realizadores como Joaquim Pedro de Andrade e Paulo César Saraceni. Contudo, foi no documentário que encontrou a forma ideal para explorar Brasis diferentes do seu.

A sua próxima longa-metragem, ainda em gestação, acompanha Wesley Teixeira, um jovem líder evangélico negro da Baixada Fluminense que se identifica com a esquerda política. Através dele, a realizadora procura compreender um Rio de Janeiro que afirma ainda estar a descobrir. Talvez seja essa a marca mais constante do seu cinema: a convicção de que cada filme é uma oportunidade para escutar, aprender e olhar o mundo de outra forma.

O seu cinema parece manter uma relação muito profunda com a memória, com a preservação de manifestações culturais, de trajetórias pessoais e até de diários transformados em narrativa cinematográfica. O que representa a memória na sua obra?

Não gosto muito de dissecar o meu processo criativo. Ficar demasiado consciente dos mecanismos provoca-me algum pânico, porque sinto que isso até me poderia paralisar. Acredito que a memória, o tempo e a identidade fazem parte de uma forte intuição. Essa intuição é alimentada pela investigação, pelo conhecimento, mas também pelo cinema enquanto ferramenta de expressão. No documentário, sobretudo, essa ferramenta ajuda a organizar esses elementos. No fundo, acredito muito na intuição poética.

Houve algum momento da sua carreira em que essa intuição tenha sido decisiva?

Muitas vezes, pois, durante um filme, o realizador deixa de saber exatamente o que está a fazer. É preciso repensar caminhos e mudar de direção. Recordo uma situação durante as filmagens de A Terra Proibida (1990), sobre a Teologia da Libertação. Entrevistei um homem que estava preso por ter assassinado um padre. Até então, nunca tinha confessado o crime. De repente, diante da câmara, pareceu sentir-se personagem da própria história e acabou por admitir o que tinha feito. Fiquei completamente gelada. Foi um momento muito estranho e profundamente marcante.

Em que está a trabalhar atualmente?

Estou a fazer um filme sobre os evangélicos, centrado num líder negro de 30 anos chamado Wesley Teixeira. Vive em Duque de Caxias, na região do Morro do Sapo. O filme acompanha o seu percurso e permite-me compreender melhor esta cultura das periferias urbanas. O Wesley é um evangélico de esquerda, o que torna tudo ainda mais interessante.

O que lhe tem revelado essa experiência?

Descobri um universo que considero fascinante. Muitas vezes vivemos dentro de uma bolha e não compreendemos esse outro mundo, o evangélico, de um Brasil religioso, que representa uma enorme parcela da nossa população e constitui um verdadeiro caldeirão cultural. Cada filme é uma descoberta e uma aventura. Os filmes transformam a forma como pensamos e aquilo em que acreditamos.

Como tem sido lidar com essa dimensão religiosa?

Sempre tive alguma dificuldade com a ideia da fé organizada, mas começo a olhar para essa questão de outra maneira. Vejo como a religião pode ajudar as pessoas a recuperar esperança e a voltar a acreditar em alguma coisa. Continuo a acreditar no mistério da existência. Sabemos muito pouco e há coisas que talvez só venhamos a compreender mais tarde.

Uma característica marcante do seu cinema é o trabalho sonoro. Existe um cuidado especial com o silêncio e uma grande valorização da palavra. Como pensa essa dimensão?

Tenho muito receio de utilizar música em documentários. É algo extremamente delicado. Por vezes uso-a como elemento de memória. Em A Entrevista (1966), por exemplo, recorri a canções ligadas ao colégio de freiras onde estudei. Essas músicas transportam-me para o passado e ajudam o espectador a entrar nessa viagem. Fora isso, procuro ser muito cuidadosa.

Ludmilla Dyer em “Vida de Menina”, uma premiada experiência ficcional da realizadora

Outra marca dos seus filmes é o foco nas pessoas. Mesmo quando aborda movimentos sociais ou manifestações culturais, o indivíduo permanece no centro da narrativa.

Acho que as personagens são fundamentais. Muitas vezes condensam as questões que mais me interessam. É através delas que consigo chegar a temas mais amplos.

Nesse sentido, Carmen Miranda: Bananas Is My Business (1995) parece um marco na sua filmografia. O que representou esse filme?

A Carmen reunia muitos dos temas que me interessavam. Havia a questão do olhar estrangeiro sobre a identidade brasileira. Havia a dimensão feminina de uma mulher que conseguiu afirmar-se numa época extremamente difícil. Havia também o lado trágico da sua trajetória. Achei importante preservar tudo isso.

Ao longo da carreira, filmou muitos Brasis diferentes. Qual deles mais a marcou?

Talvez o primeiro grande choque tenha acontecido durante A Terra Proibida (1989), quando conheci o Nordeste profundo. Parecia outro país. Fiquei impressionada com as pessoas, com a cultura e com a realidade que encontrei.

E fora do Brasil?

A experiência de The Double Day (1976) foi transformadora. Passei cerca de dois meses a viajar pela América Latina com o diretor de fotografia Afonso Beato. Foi uma revelação conhecer melhor aqueles países e perceber como sabemos tão pouco sobre os nossos vizinhos. Essa experiência mudou profundamente a minha visão do mundo. Precisamos de fortalecer essa consciência continental, porque só através dessa aproximação podemos construir algo em conjunto.

O seu cinema continua a descobrir novos Brasis?

Sem dúvida. O filme sobre o Wesley está a apresentar-me um Brasil que eu não conhecia. E essa é uma das coisas mais bonitas do documentário: obriga-nos a continuar a aprender. Cada filme abre uma porta para um mundo novo.

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