“Antártida”, “Se Eu Fosse Você 3” e a corrida para recuperar o público brasileiro

De Antártida a Se Eu Fosse Você 3, o cinema brasileiro aposta em tecnologia, estrelas e marcas conhecidas para tentar recuperar público nas salas.

Oráculos meteorológicos garantiam uma sexta-feira de inverno típico em Gramado, com temperaturas entre 12 °C e 15 °C e possibilidade de chuva fraca. Mas bastou Antártida começar no Palácio dos Festivais para nevar. A passagem do thriller de Bruno Safadi pela abertura da 54.ª edição do Festival de Gramado, na última sexta-feira, não serviu apenas para apresentar uma das mais ambiciosas produções dos Estúdios Globo. Pelo grau de sofisticação da sua engenharia de imagem, a longa-metragem colocou em circulação uma pergunta que ultrapassa o ecrã: para onde caminham as bilheteiras brasileiras num momento em que o cinema nacional atravessa uma das suas temporadas mais magras de público?

A discussão chega num cenário em que os grandes fenómenos recentes estabeleceram uma fasquia difícil de alcançar. Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, coroado com o Óscar de Melhor Filme Internacional, terminou a sua trajetória com cerca de 5,8 milhões de espectadores, tornando-se um dos maiores êxitos nacionais da história recente. Já O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, lançado na transição de 2025 para 2026, chegou à casa dos 2,5 milhões de bilhetes vendidos, confirmando a força que um título brasileiro pode alcançar quando consegue transformar prestígio crítico em acontecimento popular. A diferença para a realidade atual é brutal: entre as estreias nacionais de janeiro para cá, o melhor desempenho continua a ser o de Velhos Bandidos, de Claudio Torres, na faixa dos 430 mil espectadores. Os dados disponíveis apontam para 427.350 espectadores.

Esse descompasso ajuda a explicar a expectativa em torno da segunda metade do ano. Depois de uma primeira parte marcada pelo predomínio de produções estrangeiras — e por fenómenos como Spider-Man: Brand New Day, A Odisseia, Toy Story 5, Super Mario Galaxy e Michael —, o cinema brasileiro chega a agosto, setembro e outubro com uma sucessão de títulos que tenta devolver às salas a dimensão de evento. Entre eles estão O Shaolin do Sertão 2, de Armando Praça, previsto para 20 de agosto, e Muito Prazer, nova longa-metragem de Jorge Furtado, com Luisa Arraes e Daniel de Oliveira. Setembro traz ainda uma aposta de apelo popular evidente: Se Eu Fosse Você 3, que estreia em 8 de outubro, duas décadas depois do primeiro capítulo da franquia.

Em outubro estreia Se Eu Fosse Você 3

O regresso da série criada em torno das trocas de identidade entre Helena e Cláudio carrega consigo uma memória de bilheteira poderosa. O primeiro Se Eu Fosse Você, lançado em 2006, levou cerca de 3,6 milhões de espectadores aos cinemas, enquanto Se Eu Fosse Você 2, de 2009, chegou a aproximadamente 6,1 milhões. Agora, Cleo Pires e Rafael Infante assumem o centro da trama como Bia e Aquiles, enquanto Glória Pires e Tony Ramos permanecem ligados às personagens originais. A realização é de Anita Barbosa, com argumento de Leandro Soares e produção da Total International, em coprodução e distribuição da Buena Vista International.

Na história, duas décadas depois da última troca de corpos, Helena e Cláudio vivem uma nova fase ao lado da filha Bia, já adulta e casada. Um acontecimento inesperado rompe o equilíbrio familiar e coloca as relações em xeque. Quando o raio parece cair novamente no mesmo lugar, as personagens são obrigadas a reaprender a colocar-se no lugar do outro — desta vez, literalmente. É uma fórmula que combina reconhecimento de marca, memória afetiva e renovação de elenco, três elementos capazes de ajudar o cinema nacional a enfrentar a concorrência de blockbusters e franquias internacionais.

Em setembro chega Minha Melhor Amiga, reunião de Ingrid Guimarães e Mônica Martelli sob a realização de Susana Garcia. Filmada entre Rio de Janeiro, Lisboa e Sevilha, a longa-metragem nasce da experiência real das atrizes com as suas filhas adolescentes e explora a química que a dupla construiu ao partilhar nas redes sociais histórias de viagens e percalços familiares. No filme, Julia e Clara atravessam a casa dos 50 anos em momentos de crise. Uma é jornalista divorciada e desencantada com o amor; a outra vive um casamento desgastado e uma rotina doméstica que a sufoca. Quando as filhas partem para um intercâmbio em Portugal, decidem interromper a vida que consideram sem graça e viajar juntas.

A promessa é de uma comédia apoiada menos numa fórmula de estúdio do que no capital afetivo acumulado por duas artistas reconhecidas pelo público. É justamente esse tipo de vínculo que a indústria brasileira procura transformar em bilhetes vendidos: rostos conhecidos, personagens familiares, situações reconhecíveis e a expectativa de uma experiência coletiva que possa competir com o conforto do streaming.

No dia 24 de setembro, o calendário ganha uma nota mais sombria com Precisamos Falar, de Rebeca Diniz e Pedro Waddington. Baseado no romance O Jantar, de Herman Koch, o argumento de Sergio Goldenberg, supervisionado por George Moura, acompanha uma família de classe média alta confrontada com um crime cometido pelos seus filhos adolescentes. Os jovens agridem uma mulher em situação de sem-abrigo que dormia numa caixa multibanco e acabam envolvidos numa morte. Como as câmaras não permitem identificá-los, cabe aos pais decidir entre protegê-los ou entregá-los à polícia. Alexandre Nero e Marjorie Estiano encabeçam o elenco de um drama que transforma a culpa individual numa radiografia social.

Outubro reserva ainda Picaretas Não Vão Pro Céu, de Roberto Santucci, realizador de Até Que a Sorte nos Separe. Maurício Manfrini, o Paulinho Gogó, e Tirullipa protagonizam a comédia como dois malandros que se fazem passar por religiosos. É outra aposta no potencial de personagens populares e de um humor reconhecível para reconectar o público brasileiro com as salas.

Mas é Antártida que, desde Gramado, oferece a imagem mais eloquente sobre a transformação pela qual passa o cinema nacional. Escolhida para abrir o festival, a longa-metragem foi realizada praticamente toda no Rio de Janeiro, embora a sua narrativa esteja confinada a uma estação brasileira no continente gelado. Para construir esse universo, a produção utilizou um estúdio de mais de 1.500 m², câmaras de autotracking de alta precisão, recursos de Inteligência Artificial e Realidade Aumentada e mais de 300 m² de ecrãs LED. Imagens captadas na Patagónia com câmaras 360° foram combinadas com cenários físicos e produção virtual.

Na trama de Claudia Jouvin, uma cientista, Inês (Marina Ruy Barbosa), sofre um crime brutal na Estação Comandante Diniz. Isolados pelo frio e sem possibilidade de resgate imediato, os homens da base tornam-se suspeitos, incluindo o comandante Barros (Antonio Calloni) e o capitão Vicente (Lázaro Ramos). Cabe à subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) investigar o ocorrido, enquanto as outras mulheres da estação — interpretadas por Leandra Leal e Mariana Sena, além de Marina Ruy Barbosa — precisam de enfrentar o medo, o silêncio e a violência.

Safadi transformou a restrição económica e logística de filmar na Antártida numa oportunidade para experimentar uma linguagem de produção virtual. O resultado é um filme que funde cenografia, imagens reais e computação gráfica diante da câmara, permitindo que atores e realizadores tenham contacto direto com o ambiente que será visto pelo espectador. A equipa dedicou cerca de um ano à pré-produção, incluindo testes, storyboards e planeamento de cada plano.

“Andrea Beltrão sempre quis fazer um filme de ação e eu era louco para filmar com ela, que tinha o Alien de Ridley Scott como sua referência, pela imagem de Sigourney Weaver”, diz Safadi ao C7nema.

É aí que Antártida se liga ao debate sobre a bilheteira. Num mercado em que o cinema brasileiro ainda representa uma parcela pequena do público total — e em que os grandes resultados dependem cada vez mais da capacidade de um filme produzir uma sensação de acontecimento —, a tecnologia pode ser parte dessa disputa. Não basta apenas contar uma história brasileira: é preciso convencer o espectador de que vale a pena sair de casa para a ver no grande ecrã.

Velhos Bandidos conseguiu arrebatar plateias e funciona como o retrato mais imediato da temporada: Fernanda Montenegro, Ary Fontoura, Bruna Marquezine, Vladimir Brichta e Lázaro Ramos reunidos numa comédia de ação realizada por Claudio Torres, ainda assim estacionada em pouco mais de 400 mil espectadores. A longa-metragem, que chegou aos cinemas em 26 de março, foi uma das apostas nacionais de maior desempenho no ano até aqui.

Há, portanto, uma ironia no horizonte de Gramado: enquanto a bilheteira pede filmes capazes de reunir multidões, o próprio festival apresenta uma obra construída a partir de uma tecnologia que pode apontar para uma nova escala de produção. Antártida não resolve o problema do público, naturalmente. Mas a sua passagem pelo Palácio dos Festivais abre uma conversa necessária sobre como o cinema brasileiro poderá disputar atenção num mercado dominado por propriedades globais.

Claudio Torres, vale lembrar, também está ligado à televisão e é um dos criadores de Emergência 53, série médica que terá uma sessão em Gramado nesta segunda-feira. A coincidência ajuda a ampliar o retrato de um mercado em que cinema, televisão e streaming já não podem ser pensados como territórios estanques. O desafio, para o cinema brasileiro, é fazer essa circulação desembocar novamente onde ela importa para a sobrevivência da experiência cinematográfica: na poltrona da sala escura, diante de um grande ecrã, com público suficiente para transformar uma estreia em acontecimento.

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