“I’ll Be Gone in June” transforma um intercâmbio estudantil num retrato político da América

(Fotos: Divulgação)

Verdadeira pérola integrada na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes, I’ll Be Gone in June marca a primeira longa-metragem da realizadora alemã Katharina Rivilis, que inspirada na sua experiência como estudante de intercâmbio nos EUA filma um coming-of-age profundamente sensorial e político que cruza a descoberta íntima da adolescência com a transformação traumática dos Estados Unidos após o 11 de Setembro. 

Produzido por Wim Wenders e filmado nas paisagens áridas do Novo México, em Las Cruces, o filme acompanha Franny (Naomi Cosma), uma estudante alemã de intercâmbio que chega aos Estados Unidos em 2001 à procura da sua própria ideia de América. Com uma imagem dos Estados Unidos moldada pela cultura pop, pela música e pelo cinema, a jovem chega ao Novo México à procura da sua própria ideia de América, apenas para se confrontar com um país em choque após o 11 de Setembro, atravessado pelo patriotismo, pelo medo e por um crescente sentimento de isolamento. 

Em conversa com o C7nema, Katharina falou sobre a experiência de viver o 11 de Setembro no Novo México, o trabalho com atores não-profissionais, a construção visual e musical do filme e a vontade de filmar uma América rural raramente representada no grande ecrã sem caricatura. 

Katharina Rivilis

O filme é baseado na sua própria experiência como estudante alemã de intercâmbio nos EUA. Pode falar-nos dessa experiência?

Sim, o filme é pessoal, embora não autobiográfico. Quando tinha 16 anos fui estudante de intercâmbio nos Estados Unidos e imaginava viver a minha própria versão da América: liberdade, aventura, tudo aquilo que conhecia através da cultura pop, da música e do cinema.

A maioria dos estudantes não vai para Nova Iorque ou para a Califórnia. Eu fui parar ao Novo México e pensei literalmente: “Isso sequer existe?”  Foi numa era antes dos smartphones, trocávamos apenas uma carta com a família anfitriã antes de partir.

Ao início fiquei muito desapontada e em choque. Pensei até em voltar. Mas depois conheci as pessoas e aquele lugar acabou por se tornar quase uma segunda casa. 

Vivi lá também o 11 de Setembro, o que tornou tudo ainda mais marcante. Quando voltei à Alemanha perguntava-me constantemente: “O que foi aquele lugar? Como fui parar ali naquele momento da História?” 

Os chamados (de forma pejorativa) “flyover states” são muitas vezes ignorados, mas são culturalmente muito ricos, cheios de comunidades nativo-americanas, hispânicas, artistas e pessoas fascinantes.

Trabalhou apenas com atores não-profissionais?

Sim, foi uma escolha. Procurámos durante três anos os protagonistas do filme.

Encontrámos mais de três mil jovens durante o casting.

O que procurava exatamente?

Procurava a Naomi. Vi uma fotografia dela numa publicação qualquer nas redes sociais. Era uma imagem melancólica: uma rapariga com um cigarro, com um olhar triste, parecia uma fotografia antiga dos anos 80.

Pensei imediatamente: “É exatamente a Franny.” Tentei descobrir quem era. A fotografia vinha de um blog de poesia sul-americano que também não sabia de onde vinha originalmente. Acabei por encontrar o fotógrafo e ele disse-me: “Ela é uma rapariga alemã chamada Naomi.” Nem queria acreditar.

Contactei-a pelas redes sociais. Ela nunca tinha representado verdadeiramente. Convenci-a a vir a Berlim fazer um casting. E quando entrou na sala ficou imediatamente claro: era ela.

A banda sonora e os visuais são muito fortes. Como trabalhou essa identidade estética ligada ao estado emocional da protagonista e à geografia do Novo México?

A música foi pensada desde muito cedo. Antes de começar a filmar já sabia quem queria para a banda sonora. Um compositor berlinense chamado Steve Binetti , cujo trabalho já conhecia. Ele enviou-me um disco rígido cheio de músicas ainda antes da rodagem.

Para tudo o que o Elliot toca, tentamos usar músicos locais, pessoas da cena musical de Las Cruces. O Novo México tem uma cena musical extraordinária e muito pouco conhecida.

Visualmente, trabalhei com a diretora de fotografia Giulia Schelhas durante meses. Fizemos várias viagens de pesquisa aos Estados Unidos, discutimos pinturas, fotografias, filmes. Passámos quatro meses fechados num escritório a pensar cena a cena. Queríamos que a imagem criasse uma tensão entre aquilo que vemos e aquilo que existe por baixo da superfície.

Não queria apenas filmar lugares. Queria filmar a forma como olhamos para eles.

I’ll Be Gone in June

O filme evita olhar para esta América rural de forma caricatural ou simplista. Nas notas de produção fala de estruturas de poder que, quando viveu essa experiência, ainda não conseguia identificar totalmente. Como foi esse processo de regressar a esse lugar e perceber aquilo que antes lhe escapava?

Para mim era muito importante evitar estereótipos e julgamentos fáceis. Passei três anos naquela região a falar com pessoas, a ouvir as experiências delas, a compreender diferentes perspetivas. Algumas cenas foram quase documentais, como a sequência da igreja, filmada durante uma cerimónia real.

Claro que o filme é político. Mostra uma América específica num momento de crise profunda.

Como europeia, e particularmente como alemã, a relação com os Estados Unidos é muito complexa. O 11 de Setembro mudou completamente essa relação.

O que mais o marcou nessa altura?

O crescimento do patriotismo. Na Alemanha temos uma relação muito diferente com a identidade nacional. Para mim foi estranho ver aquele sentimento tão intenso.

Depois do 11 de Setembro existia uma espécie de união absoluta. Ninguém podia realmente questionar nada politicamente. Era um país em estado de choque.

E naquela região em particular tudo gira muito em torno do exército. Há bases militares por todo o lado. Muitas famílias têm militares.

A identidade daquelas pessoas está profundamente ligada à ideia de proteger a América. Isso fascinava-me.

O filme também mostra como esses jovens são atraídos para o exército porque não conseguem pagar estudos ou imaginar outro futuro.

Sim.Toda aquela região está rodeada por estruturas militares. Foi ali perto que explodiu a primeira bomba atómica, no Trinity Site.

Muitos jovens acabam por entrar para o exército porque simplesmente não conseguem pagar uma educação superior.

A protagonista é extraordinária precisamente porque observa tudo sem agressividade. Como escreveu essa personagem?

Foi muito intuitivo. Escrevi o argumento durante a pandemia, em apenas quatro semanas. Precisava mentalmente de escapar daquele momento. O filme surgiu quase como um sonho.

Muitas cenas foram escritas integralmente, mas noutras deixei espaço para improvisação porque trabalhava com não-atores. Por exemplo, a cena em que tentam convencer um homem a comprar-lhes álcool. Eu sabia que seria absurdo escrever aqueles diálogos palavra por palavra. Expliquei apenas a situação e deixei-os reagir.

Outras cenas, como as da sala de aula, estavam mais escritas, mas mesmo aí dava-lhes objetivos e deixava espaço para encontrarem as próprias palavras.

Porque prefere trabalhar com não-profissionais?

Porque gosto dessa estética. Muitos dos meus realizadores favoritos trabalharam com não-atores. Com adolescentes, sobretudo, prefiro pessoas sem experiência a jovens já presos a ideias artificiais sobre representação.

Mas o segredo está no casting. Se escolheres bem e fizeres as pessoas sentirem-se seguras, conseguem dar-te algo de profundamente autêntico.

É uma forma diferente de representar. Adoro isso.

Ao escrever o filme percebeu alguma coisa nova sobre si próprio e sobre aquele período da sua vida?

Sim. Lembrei-me da intensidade emocional daqueles anos. Da forma como sentimos tudo pela primeira vez de maneira absolutamente total.

Voltei a ler cartas antigas, diários, vídeos MiniDV daquela época.

Percebi como éramos ao mesmo tempo completamente inconscientes e profundamente conscientes do mundo à nossa volta. Muitas coisas moldaram-nos sem percebermos.

E talvez aquele ano me tenha ensinado precisamente isso: abertura aos outros, humildade, humanidade.

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