Não é apenas na antestreia partilhada de “Holgut” que une o festival de cinema suíço e o dinamarquês. A morte do jornalista saudita Jamal Khashoggi, dentro do consulado da Arábia Saudita em Istambul, a 2 de outubro de 2018, é o ponto de partida para dois filmes presentes em ambos os certames: “The Dissident”, produto estreado no Festival de Sundance de 2020 que chega agora a terras nórdicas, e “Belgrade Forest Incident…and What Happened to Mr. K”, em estreia mundial no certame helvético, inserido na competição de curtas e médias metragens.
“The Dissident” já fez um sumptuoso passeio pelo mundo, tendo até sido recentemente exibido no É Tudo Verdade, no Brasil. Assinado por Bryan Fogel (Icarus), o documentário possui uma grande máquina de investigação jornalística que não só recompõe um crime dentro de um consulado situado num país estrangeiro, como traça um panorama da guerra de informação e desinformação que acontece/u nas redes sociais em torno da figura de Khashoggi, dissidente do regime monarca, quase centenário, de uma nação que sente a extrema necessidade de controlar a informação distribuída aos súbditos.
Apesar de algumas construções de imagens, especialmente para nos falar nas guerras das redes sociais, Fogel utiliza com grande intensidade o material de arquivo registado pelos meios de comunicação, que desde o desaparecimento do jornalista assentaram arraiais à porta do consulado saudita na capital turca.
Num registo diferente, mas em nada inferior, o finlandês Jan Ijäs conta a mesma história com grande vigor e de maneira extremamente meticulosa, mas fá-lo através de imagens (falsas/construídas) que penetram a nossa mente enquanto a voz de Rebecca Clamp vai narrando consecutivamente, num jeito muito BBC, a sequência tenebrosa dos eventos.
Curiosamente, seja com imagens reais ou criadas especificamente para acompanhar as palavras, ou ainda captadas em outros registos mas incutidas no filme, a leviandade de todo o caso, do assassinato ao livrar-se do corpo do jornalista, é refletida com uma intensidade brutal em qualquer uma das obras, conseguindo ambas transmitirem um constante tom de suspense, tensão e estupefacção.
Veja-se por exemplo os relatos do esquartejamento a que Mr.K foi submetido no filme finlandês, ao serem acompanhados por imagens de talhantes a cortarem e transportarem carne. Este momento leva-nos para um lado muito sombrio da mente e do ser humano, jogando com os nossos sentidos e o poder de sugestão.
Aplicado a toda uma obra com apenas com 30 minutos, tudo isso torna este projeto numa investigação jornalística caracterizada pelo rigor, pelos factos, mas simultaneamente um ensaio cinematográfico profundamente desarmante.

