O caso Woody Allen Vs Dylan Farrow já passou pela justiça há duas décadas, mas ganhou novo relevo com o surgimento do movimento #MeToo, impulsionado pela reportagem escrita no New Yorker por Ronan Farrow, onde este denunciava os abusos sistémicos perpetrados por Harvey Weinstein.
Como consequência, várias outras mulheres contaram histórias de abuso em torno do produtor, mas igualmente de outras figuras, como James Toback e muitos outros. Dylan Farrow aproveitou também estes tempos para, através do blog pessoal de um jornalista do New York Times, escrever uma carta ao público, revelando – mais uma vez – os alegados abusos que sofreu por parte de Woody Allen quando tinha 7 anos. O título do artigo questionava qual era, para o espectador, o filme preferido do cineasta.
Alguns dos alegados crimes denunciados durante este período transformam-se em processos judiciais, ainda a correr nos tribunais, mas muitos deles – prescritos – serviram apenas como exposição e denúncia no “Tribunal da Opinião” pública. No caso de “Allen Vs Farrow”, é isso que está em causa: um julgamento popular onde este novo documentário – lançado pela HBO – transmite exclusivamente o ponto de vista da acusação.
Por isso, não esperem por aqui encontrar qualquer depoimento ou provas que possam contrariar de alguma forma as palavras de Dylan e Mia Farrow sobre os eventos, sendo ainda possível vislumbrar algumas matreirices – típicas em advogados de acusação ou defesa – para solidificar uma imagem em torno de alguém (neste caso Woody Allen). Num desses momentos, por exemplo, numa escuta telefónica, Allen afirma não estar a gravar a conversa com Mia Farrow, mas está, sendo o objetivo claro desta sequência mostrar que o realizador mente. Noutro momento, joga-se com a perceção e mente do espectador, quando Diane Keaton sobe ao palco dos Globos de Ouro em 2014 para homenagear Allen, e a primeira pessoa que se filma no público a bater palmas é… Kevin Spacey, ator que nos remete imediatamente para grandes papéis no cinema e TV, mas também para casos de abuso sexual. Esta cena é introduzida e cortada numa primeira fase apenas com esse propósito, pegando-se novamente nela para mostrar a bajulação a Allen por parte da indústria, mesmo com a sombra do alegado abuso a persegui-lo desde sempre. A questão é que ela é apresentada a dois tempos, sendo a primeira obviamente uma forma “subliminar” de ligar as duas figuras.
Nesta fase é importante compreender que não há absolutamente nada de errado em apresentar um documentário seguindo apenas e só a visão de um dos lados. Este é, como disse acima, um objeto apresentado pela acusação, para o tribunal popular observar, refletir e eventualmente proferir uma sentença individual, que se transformará em coletiva, quer se queira, quer não. Mas também é importante dizer neste instante que, se procuram um projeto que apresente acusação, rebate, e reflexão dos pontos contraditórios apresentados por ambos os lados, então esta série de 4 capítulos não serve para o propósito. Este é o lado da história contado por Dylan, Mia e de todos aqueles à sua volta.
Woody Allen, Soon-Yi Previn e Moses Farrow não falam por aqui, nem tão pouco outros amigos e defensores do cineasta, ou qualquer psicólogo, psiquiatra e até críticos e estudiosos de cinema que certamente num tribunal real iriam sentar-se na bancada de Woody Allen e contrariar algumas das ideias expostas por outros colegas ao longo desta produção.
Construído em 4 episódios, “Allen Vs Farrow” conta cronologicamente um caso com várias décadas, recorrendo a imagens de arquivo e depoimentos de amigos e empregados de Mia Farrow, além dos elementos da família Previn (Mia foi casada com o músico André Previn, antes da relação com Allen), onde se destaca Mia e Dylan.
Sempre numa estrutura formal de documentário invadido por “cabeças falantes”, com uma montagem precisa, e alguns toques mais sentimentais também a surgirem, especialmente na parte final quando se evoca a importância do testemunho de Dylan no auge do #MeToo, os realizadores (Kirby Dick & Amy Ziering e Amy Herdy) começam por abordar o início da relação de Woody e Mia, duas figuras já com créditos firmados em Hollywood, e no papel que Allen queria ter (ou não) na educação dos filhos da companheira.
É quando nasce Dylan que o documentário diz-nos que o realizador começou a centrar-se em demasia na rapariga, o que alegadamente despertou o primeiro sinal de alerta em Mia, mas que perdeu força quando uma psiquiatra afirmou que apesar de Allen estar realmente centrado nela, essa ligação não era de todo sexual.
Aqui, nesta sequência, vemos também um modus operandi da produção, que gasta vários minutos a especular que Allen estava obcecado por Dylan, mas que apresenta a avaliação psiquiatra feita ao cineasta em escassos segundos, através de uma única frase que se perde na imensidão de informaçãa. E essa tendência prossegue durante todos os episódios, com um rebater sistemático das coisas que foram sendo ditas por todos os que contrariam a acusação, não só pelo próprio Allen, mas também por Soon-Yi, Moses, e os relatórios médicos de avaliação ao alegado abuso. Entram também em cena os vídeos gravados por Mia Farrow nos dias seguintes aos alegados abusos, em que a pequena Dylan detalha o que lhe foi feito, sendo mais tarde essas imagens usadas por especialistas ligados a casos de abuso sexual de crianças para emitirem o seu parecer.

É no segundo episódio que entra uma das partes mais problemáticas de todo este projeto, uma análise hiper-superficial ao filme “Manhattan“, a guiões escritos, mas nunca transformados em filme por Allen, e uma coleção de imagens de filmes seus com o objetivo claro de mostrar a sua apetência em retratar homens mais velhos interessados por jovens, para – de alguma forma – ligar isso à relação que entretanto assumiu com Soon-Yi, e posteriormente ao alegado abuso a Dylan Farrow.
Ora, quem conhece a história do cinema do século XX, ou viu, por exemplo, no ano passado o documentário “Skin: A History of Nudity in the Movies”, sabe que essa tendência de apresentar nos filmes americanos relações entre homens mais velhos e jovens, não foi uma invenção de Allen, mas principalmente uma importação do cinema europeu, das décadas de 60 e 70. “Provavelmente serei “assassinada” por dizer isto, mas a Europa é a terra onde uma jovem de 18 anos e um homem de 50 podem protagonizar uma história de amor que faz sentido. Isto não faz sentido na América, às audiências americanas. Isto é algo que só as audiências europeias parecem aceitar”, dizia Tatiana Siegel, editora do The Hollywood Reporter, nesse documentário, momentos antes de surgirem imagens do filme “O Último Tango em Paris“ em exposição, onde a personagem interpretada por Marlon Brando (com 48 anos na altura) inicia uma relação profundamente sexual com a de Maria Schneider (com 20 anos na época).
Aliás, na década de 1960, Kubrick fez o seu Lolita e muitos outros realizadores fizeram o mesmo nos anos que se seguiram. Por isso, a avaliação da obra cinematográfica como reflexo de personalidade não só é especulativa e extremamente simplificada, como teria melhor efeito se fosse abordada por um psicólogo e não por um crítico de cinema ou jornalista.
Além disso, e sempre tendo em mente que esta é a versão que um dos lados da barricada, que tem todo o direito de apresentar o seu caso como bem entender, são analisados os processos judiciais, as investigações forenses e os relatórios médicos independentes que apontaram, no final, e resumindo, que Dylan realmente acreditava ter sido abusada, mas que provavelmente não foi e que o mais provável a acontecer terá sido uma construção mental da situação com interferência da mãe. O documentário foca-se então em minorar o poder desse relatório, mencionando procedimentos que apelida de “irregulares” e fala – até colando a casos recentes – no poder da máquina de advogados ultra poderosos de Allen e até de uma publicista que é descrita quase como o demónio em pessoa.
O provedor do caso original, num dos locais onde foram abertos procedimentos judiciais, Frank Maco, entra também em cena, acreditando que nas provas reunidas havia “causa provável” para os abusos, mas não avança com o processo judicial por receio do impacto que esse julgamento mediático teria em Dylan (facto que terá diretamente impacto nos momentos finais desta série).
Assim, o caso foi arquivado e não continuou em Connecticut, mas paralelamente havia outro em Nova Iorque, que também foi deixado de lado, embora aqui se atribuam responsabilidades à máquina de Allen e a poderes e obscuros, dando a clara sensação de “caso abafado” que até levou à demissão do homem responsável pelas investigações, e que acreditava na versão de Dylan.
Convém lembrar ainda que o realizador nega qualquer abuso sexual à criança e defende-se que todo o processo foi iniciado por retaliação de uma mulher enganada (Mia Farrow) que viu o seu companheiro (Allen) assumir uma relação amorosa com a sua filha adotiva (Soon-Yi).

Se Mia Farrow, por exemplo, é sempre apresentada como uma mãe extremosa sem qualquer problema e várias virtudes (é vincado o seu trabalho em projetos humanitários da ONU), Soon-Yi é é genericamente definida como ingénua (nunca teve namorados, antissocial), chegando mesmo, nas entrelinhas, a sugerir-se que, quando recentemente falou do caso e alegou que sofreu abusos físicos e psicológicos por parte de Mia Farrow, fê-lo porque nessa entrevista Woody Allen nunca saiu da sua beira.
As recentes afirmações de Moses Farrow são também contrariadas e reduzidas; a importância de Ronan Farrow – do movimento #MeToo até ao seu trabalho para o Departamento de Estado dos EUA – como testemunha credível é também elevado, sendo pontualmente ainda chamado a “depor” Fletcher Previn, nomeadamente para contrariar as palavras de Moses sobre uma eventual infância temível por culpa da mãe.
Quanto a Allen, a imagem que tiramos daqui é a de mais um poderoso com uma enorme máquina por trás, alguém que durante o relacionamento sugou e secou a atenção artística de Mia Farrow, e que quando terminou com ela contribuiu para a extinção progressiva da sua carreira. E mesmo que no final de cada episódio surjam sistematicamente – certamente por questões legais – as palavras que ele negou sempre qualquer abuso, todos os elementos reunidos, abordados, apresentados, criteriosamente moldados e montados tentam mostrar o contrário.

