Criada há 116 anos por Maurice Leblanc, a personagem de ficção francesa Arsène Lupin, o ladrão de casaca, ganha uma nova vida numa série da Netflix que aposta em todos os clichês e na anorexia das personagens para entregar mais um produto de entretenimento simples mascarado de grande complexidade concetual. Não, Lupin não surge mesmo em cena, mas antes serve de inspiração para Assane Diop (Omar Sy, de “Amigos Improváveis” ), um “ladrão cavalheiro” de origem senegalesa, perito na arte do disfarce, que quer vingar o pai que se suicidou na cadeia depois de ser injustamente acusado do roubo de um colar que pertenceu a Marie Antoinette.
Percebe-se a aposta da Netflix numa série com Lupin na agenda, afinal, Assane Diop é também ele uma espécie de génio a solo como o Professor de “La Casa de Papel“, com uma agenda bem clara enquanto nas entrelinhas passa uma mensagem antissistema. Curiosamente, Lupin nasceu nas bases de uma certa anarquia implícita na escrita de Leblanc, um discurso que foi se alterando ao longo dos tempos, sendo ele transformado num grande patriota quando chegaram as guerras devastadoras que atingiram França no século passado.
Talvez a maior energia e força – desta nova “pedrada no charco” Lupin – tenha sido a escolha de um protagonista negro, o filho de um emigrante que sofreu na pele o racismo sistémico de uma sociedade, e que é transposta para o enredo em pequenos grandes detalhes. Mas nessa transposição o que encontramos de forma supérflua são lugares comuns e personagens vazias, todas padronizadas nos mais variados estereótipos, desde o rico corrupto inevitavelmente racista, a filha liberal com quem Assane transporta boas memórias, a jornalista pela verdade calada pelo “sistema”, e policias genericamente idiotas na caça ao anti-herói.

A série é também vítima do pensamento anglo-saxónico das relações e da “interpretação” da própria cultura francesa, vindas certamente de George Kay, o escritor e showrunner britânico da série (já trabalhou para a Netflix em Criminal e escreveu alguns episódios de Killing Eve). Trocado por miúdos, é tudo totalmente orientado para as formas saxónicas de entretenimento (La Casa de Papel também já sofre com isso) e do pensamento monogâmico pastelão e simplório de orientação familiar judaico-cristão.
Outro drama por aqui é que se confunde o registo de ligeiro com extremo simplismo, particularmente no uso seletivo da tecnologia, de ponta numas ocasiões, esquecida noutras para realçar o engenho do nosso ladrão cavalheiro. Um bom exemplo é logo no primeiro episódio, do grande assalto ao Louvre, inspirado na criação literária, onde na transposição contemporânea o reconhecimento facial não existe, qualquer um consegue entrar facilmente pela zona dos empregados, porque sim, e as câmaras de vigilância são resolvidas e entregues a um único tipo que costuma adormecer, mas que por acaso até nem dorme na noite do grande assalto. Ora, numa era de entretenimento em todo o lado e com os filmes de grandes golpes e esquemas a serem eles mesmo um subgénero por si só, super explorado, tudo soa a demasiado fácil, esquemático e previsível. Tudo movido para encaixar num modelo de consumo de séries e filmes que se tornou padrão, algorítmico, mas que no fundo despreza a inteligência do espectador capaz de apanhar falhas, simplicidades e omissões a olho nu.
Estética

Os três primeiros episódios foram entregues a Louis Leterrier, um descendente do cinema de Luc Besson (Correio de Risco) habituado a grandes golpes no cinema (Mestres da Ilusão). A espetacularidade das sequências é reforçada para tapar as gralhas do guião, onde felizmente Sy também imprime humor e charme para disfarçar banalidades. Os anacronismos e a montagem super recortada servem como forma estilística de dar a falsa sensação de complexidade a estruturas, formas e sequências profundamente básicas. No fundo, o nosso anti-herói é super esperto, movido pela vingança dos ostracizados, marginalizados e humilhados pelo mal regido por uma elite poderosa e arrogante, e todos os que o tentam travar são imbecis inferiores que inadvertidamente lutam contra a verdadeira justiça que vem de um indivíduo.
Haja simplismo, paternalismo e paciência para construir algo tão ingénuo e carente de real profundidade além de um vertiginoso complexo “Robin Hood” naquele que se tornaria o “Sherlock Holmes” gaulês. E desde quando é que ligeiro se tornou um adjetivo tão positivo numa sociedade supostamente com maior educação e conhecimento?

