«O Prefeito»: alegoria de um Rio de Janeiro em ruínas, disponível online

(Fotos: Divulgação)

É Dia da Mãe no Brasil, e soa quase provocativo o facto de um ensaio sobre a opressão da cultural patriarcal ibero-americana ganhar holofotes na web, em uma projeção sintonizada com os esforços dos movimentos de #FiqueEmCasa desta Quarentena: O Prefeito.

Mas a sua projeção gratuita, neste domingo (10/05), a partir das 18h (no horário brasileiro; 22h, em Portugal), na plataforma Vimeo, tem um viés crítico, antenado com a degradação da cidade do Rio de Janeiro, sobretudo em termos morais. Quem clicar no link pode conferir – a custo zero – o exuberante desempenho de Nizo Neto no seu mais inusitado papel. Não é todo dia que uma comédia brasileira aposta no grau de experimentação formal como faz este derivado do projeto de filmes de baixo orçamento Tela Brilhadora, considerado um dos mais ousados exercícios autorais pilotados pelo cineasta Bruno Safadi, que arrancou elogios da Europa, recentemente, com Sofá, exibido em Torino em novembro.

A obra deste cineasta – consagrado na América Latina desde que foi laureado com o troféu Barroco de melhor filme na Mostra de Tiradentes de 2008, com Meu Nome É Dindi – tem como traço identitário retratar e repensar ambientes urbanos do Rio de Janeiro pouco explorados pela ficção, sobretudo sob uma geopolítica do isolamento. E esta geopolítica ganha contornos metafísicos quase fantasmagóricos de uma narrativa que utiliza foto como linguagem – quase numa lógica de fotonovela, num dispositivo similar ao usado por Chris Marker em La Jetée (1962). Só que o dispositivo narrativo da estática é, aqui, aplicado às ruínas da Perimetral. E estas ganham contornos de assombro na fotografia em preto e branco de Lucas Barbi, cujo requinte plástico evoca pérolas cómicas de mestres como Ernst Lubitsch, sobretudo o seminal A Loja da Esquina (The Shop Around the Corner, 1940).

Inaugurada em 1960, para funcionar como uma das principais vias rodoviárias de acesso do Rio, a Perimetral teve o seu prazo de validade vencido no fim de 2013, quando foi derrubada no meio à reconfiguração da cidade para a Copa do Mundo de 2014 e para as Olimpíadas de 2016. Mas, dos seus escombros, brotou uma bem-humorada crítica política filmada ao longo de sete dias, em outubro de 2014. Dublador (famoso pela dobragem de Matthew Brodderick em O Rei dos Gazeteiros), mágico e humorista, Nizo ficou célebre no Brasil (e Portugal) como o aluno CDF Seu Pitolomeu do programa humorístico Escolinha do Professor Raimundo, na qual trabalhava com o seu pai, Chico Anysio.

Em O Prefeito, ele assume o papel-título e colecionou elogios pelo seu desempenho. Ele é um alcaide que sonha decretar a independência do Rio em relação ao restante do Brasil, tornando-se o seu sumo-governante. Só que este líder opta por governar a Cidade Maravilhosa do que sobrou dessa via de acesso demolida. E, em meio dos seus delírios de grandeza e ao TOC que tem com limpeza, ele recebe uma visita de um ente espectral (Djin Sganzerla, atriz sempre no timbre fino da ironia) que entorpece os seus sentidos a pedras de crack.

Este filme nasce do meu desejo de trazer o humor ácido de volta aos nossos ecrãs, como forma de pegar uma tendência cinematográfica que anda em voga no país – a comédia – só que associada a um estilo televisivo, esteticamente pobre, como forma de reinventá-lo“, disse Safadi, à época das filmagens.

No enredo da obra, a personagem de Nizo, conhecido apenas como O Prefeito, é um governante viciado em remédios que sonha ser um novo Pereira Passos (1836-1913), o político responsável pela revitalização urbanística do Rio entre 1902 e 1906. Mas a forma que o protagonista do filme de Safadi encontra é emancipar o Rio como nação soberana, mantendo os impostos locais – altíssimos – dentro do perímetro da cidade. A ideia, a princípio megalómana, concretiza-se graças ao apoio de aliados de governo que sonham dividir a receita dessa taxação carioca entre si, além de ganharem, cada um, uma rua ou um bairro do Rio para desfrutarem como quiserem. Aos poucos, contudo, o que seria um golpe escuso torna-se um governo revolucionário, tendo como sede os dejetos de concreto, aço e poeira da Perimetral. A montagem de Ricardo Pretti valoriza cada virada do roteiro sem jamais amordaçar a liberdade reflexiva que vai além das leis de causa e efeito da narrativa.

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