“Support our boys” é uma das mensagens institucionais frequentemente vistas em cidades israelitas numa referência às suas tropas e aos serviços secretos (Mossad) que defendem o país desde a sua criação até aos dias que correm.

Eli Cohen, um dos mais famosos espiões do estado de Israel, é um desses homens, falecido, ou antes, enforcado, em terras Sírias na década de 1960. Até hoje, o corpo de Cohen continua em solo sírio.
Para contar a história de Eli Cohen a Netflix contratou Gideon Raff, aquele que se pode chamar o “historiador” oficial das forças de segurança de Israel na plataforma, nem que seja porque este ano ele mesmo já assinou um filme para o gigante de streaming (Mergulho no Mar Vermelho), contando a missão de salvamento em território etíope por parte de agentes da Mossad nos anos 70 e 80.
Mas tal como nesse filme, Raff volta a preferir as convenções, dramatizando os eventos em modo panfletário, sentimental e, pior que isso, simplório e sem garra. Isso não se nota apenas em pormenores do argumento, que teatraliza aos limites do improvável e cai mesmo na condescendência e paternalismo histórico, mas nos elementos técnicos aplicados, como a escolha de planos (sem criatividade ou arrojo), uma montagem académica “by the book”, uma cinematografia dos lugares comuns (cores frias e mais minimalistas em Israel, em especial a caminho do fim do filme, em contraste com mais quentes de tensão na Síria) e uma banda-sonora dolorosa e chorona para ampliar artificialmente o drama. Raff precisava definitivamente de um toque à Assayas (Carlos; Rede Vespa) na forma como ficcionaliza uma história a partir de factos reais.

Cores gélidas de vazio emocional de um homem que saiu da sua própria pele
Vejam-se alguns exemplos, como quando o nosso Eli (Sasha Baron Cohen) começa os treinos na Mossad, havendo uma sequência ao melhor estilo de GI Jane; ou então quando alguém fala em defender a pátria e a sua dura história (carrega-se na banda-sonora melosa); e até na gimnica de mostrar logo no início parte final da história, retrocedendo-se depois para contar passo a passo o que levou Eli aquela situação.
Outro dos problemas é que se a história se aproxima dos factos, os diálogos revelam-se pobres, vulgares e definitivamente cliché, tal como as sequências de espionagem (previsiveis e sem qualquer suspense real), incluindo o travar de conhecimento de Eli com os sírios (o episódio de atravessar a fronteira, que envolve revistas pornográficas, é uma das sequências surreais na sua construção).

Por tal, é uma pena que Spy – que tem Noah Emmerich como o mentor de Eli – não seja mais como a última série em que este ator se destacou: The Americans, a qual também envolve espionagem, foca-se noutras eras e conquistou público e crítica.
Quanto a Sasha Baron Cohen, as suas tentativas em assumir papéis dramáticos esbarram na sua imagem global. Quando o vemos de bigode é impossível não nos lembrarmos de Borat, um problema que só será resolvido na nossa mente após este brilhar num registo diferente. Na verdade, não podemos dizer que a sua escolha seja de todo um miscast, mas com uma personagem esquemática que só no último episódio entra com maior vigor na sua psicologia, o ator não poderia fazer muito mais.
Quem foi Eli Cohen?

Eliyahu (Eli) Cohen nasceu em Alexandria em 1924. Quando jovem, ajudou secretamente judeus egípcios como ele a emigrar para Israel, tornando-se mais tarde parte de uma rede de espionagem israelita no país, descoberta e desmantelada em 1954.
Chegando a Israel em 1956, Cohen ofereceu-se para se juntar aos serviços secretos, sendo aceite quando a situação na fronteira entre a Síria e Israel, na região próxima dos montes Golãs, levou à necessidade de Israel em ter um espião no outro lado do lago que os separava. Iniciando o seu disfarce e nova vida em Buenos Aires como Kamal Amin Thabet, este agora “homem de negócios” iniciou contactos com altas figuras do regime sírio, conseguindo eventualmente uma forma de entrar no país e ascender – pouco a pouco – na hierarquia, até chegar a ter um cargo no ministério da defesa.
O espião viria a ser detido após ter sido apanhado a enviar mensagens secretas para Israel e executado na praça pública a 19 de maio de 1965. Mas do seu trabalho, resultou uma clara vantagem de Israel contra a Síria no conflito, e mais tarde na famosa guerra dos 6 dias, que envolveu muitos mais países árabes.

