Rugidos de Veneza no picadeiro de Gotham City

(Fotos: Divulgação)

Onze anos depois de Christopher Nolan ter usado as BDs para produzir a mais sombria alegoria sobre a era Bush e o desamparo moral do século XXI, em O Cavaleiro das Trevas, o Yorick de Gotham City volta a aprontar das suas e dá-nos o que pode ser definido como um estandarte do descontrolo político, hoje coroado com o Leão de Ouro de Veneza.

A vitória de Joker (Coringa br), no gosto e nas reflexões do júri chefiado pela cineasta Lucrecia Martel, da Argentina (Zama, O Pântano), coroa um tipo de cinema pautado por uma artesania no limite da excelência. E galardoa também o dito “cinema de género”, instância do diálogo direto com as plateias que troca o conceito pelo pragmatismo. Venceu um filão – o filme de BD – que hoje põe a comida na mesa do cinema. Mas que também traduz todas as formas de relacionamento afetivo de uma contemporaneidade viciada em redes sociais, entorpecida na alteridade digital. O Joker é o produto da desatenção.

Num gesto de coragem e argúcia, Lucrecia Martel e os seu júri- formado pelos realizadores Paolo Virzì, Shinya Tsukamoto  e Mary Harron; o historiador e crítico Piers Handling; o diretor de fotografia Rodrigo Prieto; e a atriz Stacy Martin – deram um olé no Grande Irmão das patrulhas moralizantes e coroaram uma narrativa que atravessa a fábula para construir uma caricatura sobre a nossa falência ética.

Igualmente corajosa foi a decisão de laurear o melhor filme de Roman Polanski desde a Palma de Ouro de 2002, dada a O Pianista. Num filme ainda mais elegante e urgente, o realizador franco-polaco faz um exorcismo do antissemitismo europeu, usando um Louis Garrel e um Jean Dujardin em estado de graça, a fim de, com eles, expor as chagas do nariz torcido aos judeus. É uma forma de narrar clássica, como os titãs dos anos 1930, 40 e 50 fizeram (lembra Jean Renoir, muito), mas trazida para as incongruências de nosso momento atual. Foi um Grande Prémio do Júri que fica ombro a ombro com o Leão.

J’Accuse

Passando pela picardia, La mafia non è più quella di una volta, documentário de Franco Maresco, vencedor do Prémio Especial do Júri de 2019, retira as cascas das feridas do submundo, mostrando toda a conivência da Itália com a criminalidade. Conivência é também a palavra de ordem do belíssimo Martin Eden, adaptação de Jack London que fareja as sujeiras da exploração marxista na peleja de um marinheiro e aspirante a escritor (Luca Marinelli, magnífico) para ser alguém.

Da tradição, do passado do Velho Mundo, enfim se fez justiça ao trabalho do casal Robert Guédiguian e Ariane Ascaride. Ele é o Ken Loach da França e, com Gloria Mundi, injeta nas veias abertas de seu marxismo doses doces de inquietação existencial. A vitória de sua mulher e musa, Ariane, coroa toda a trajetória deles e de sua trupe.

Faltaram distinções para a Netflix, que chegou poderosa com The Laundromat e Marriage Story. Mas o compito geral de acertos de Lucrecia & CIA. foi perfeito, a começar pelo efeito Fénix no brio dos thrillers decalcados de BDs. Estamos diante de um momento do cinema no qual as narrativas são idealizadas como grandes sagas. E a saga da DC é sombria, trevosa. Apesar de ter trocado a sua carreira como bestseller das BDs por falácias do tipo “Gasto mais com drogas do que com a educação dos meus miúdos“, o inglês Alan Moore deu à indústria pop alguns legados insofismáveis, como as minisséries Watchmen, V de Vingança, From Hell e um dos melhores diálogos da cultura nerd, evocado neste monumental Joker.

Em The Killing Joke, graphic novel da sua lavra, desenhada por Brian Bolland, Moore escreve uma cena em que o Joker é espancado por Batman, na paga pelo crime de aleijar a Batgirl Barbara Gordon e torturar o comissário de Gotham City. Na pancadaria, o Palhaço do Crime solta uma gargalhada de Arlequim que atiça a curiosidade do Morcego. Ele interrompe a tareia e pergunta: “Está rindo de quê?“. E o Joker: “Lembrei-me de uma piada. Dois malucos fogem de um hospício. Um pula o muro. O outro fica parado, por medo de altura. O que pulou propõe: “Eu tenho uma lanterna. Vou acendê-la. Aí basta tu atravessares o facho de luz para chegar até aqui”. O louco medroso nega: “Não vou. Vai que você apaga a lanterna no meio da travessia“. Gargalham os dois. Eles e, hoje, Veneza, que viveu uma premiação antológica.

O reconhecimento dado ao trabalho da Warner/DC amplia a relação dos grandes festivais do mundo com o varejão das plateias, num ano em que os grandes eventos competitivos do cinema coroaram um enredo de género.

Parasite, de Bong Joon-Ho, a Palma de Ouro de 2019, é uma comédia azeda que põe em vísceras as podridões do social. E Grâce à Dieu, o Urso de Prata de Grande Prémio do Júri de Berlim, nada mais é do que um thriller político nos moldes Costa-Gavras, só que de batina. O que acontece é que Joker usa tudo que seu género lhe dá numa diapasão do excesso, mas um excesso que procede e se faz necessário.

Há um momento crucial, banhado a elipse, em Joker (dia 3 de outubro em cartaz), na qual um dialogo do vilão com uma suposta psicóloga ensaia um diálogo parecido com esse de Alan Moore. Mas fica nas intenções. Não é um filme-decalque de uma BD específica. É mais do que isso: Todd Phillips deu uma investigação sobre a desmesura da falta de empatia. Algo bem perto do que seu produtor, Martin Scorsese, alcançou, nos anos 1990, com Cabo do Medo (1991). Só que este, o brilhante Cape Fear, guardava ainda ritos católicos que Scorsese trazia de Taxi Driver, encarnado na figura do Barrabás Max Cady. No evangélico quadrinístico de Phillips, não existem cordeiros a serem imolados a Deus. Existe gente a pagar o preço pela desatenção nossa de cada dia. E quem derrama esses coágulos é o verdugo do riso desdentado vivido por um devastador Joaquin Phoenix. Veneza foi à loucura em suas sequências de dança, uma celebração do descontrole que dá lugar ao Mal. É um filme sobre uma substituição à força (do ódio) da doença pela maldade. E Phoenix está soberbo ao operar essa substituição. Soberbo e cirúrgico.

Criado em 1940, pelo cartoonista Jerry Robinson (1922-2011), o Joker já contou com o talento de Cesar Romero (na série do Homem-Morcego dos anos 1960), de Jack Nicholson (em 1989) e de Heath Legder (em 2008, em atuação oscarizada postumamente). Robinson dizia que sua criação era um “génio do crime que gostava de se vestir de circense“, era um resquício de um humor torto, de uma piada que entra, sarta e arde. Só que o tempo foi engrossando a doideira desse génio criminal, arrancando-lhe a mesura.

A leitura de Phillips (Ressaca) passa-se em 1981. Nela, Bruce Wayne é um garoto e Arthur Fleck, o papel de Joaquin, é um comediante que trabalha como palhaço nas ruas e em hospitais de crianças. Mas ele tem distúrbios mentais (expressos na forma de uma risada descontrolada) que se agravam conforme sua carreira naufraga, sua mãe adoece e um apresentador de TV (Robert De Niro, numa participação genial) faz troça de sua imagem. Conforme se afoga na loucura, mudando seu visual para os cabelos esverdeados do Joker, Fleck vai contabilizando agressões, com direito a cabeças esmagadas e pessoas baleadas. Cada cabeça cortada, nesse País das Maravilhas gótico que é Gotham, o Joker mais se emancipa, vingando todos os arlequins do mundo, ao emprestar o choro de pierrô a toda a Gotham e ao pequeno Bruce.

Na fotografia de Lawrence Sher, Gotham é âmbar e suada, como um filme de Sidney Lumet, pois todo dia é Um Dia de Cão nessa metrópole que ainda não encontrou seu cruzado de capa, mas já tem um Palhaço do Crime para chamar de seu. É a Nova Hollywood traduzida na língua das BDs, no “Apocalypse Now das adaptações de banda desenhada“, como definiu-se no Lido. Um filme gigante, com um ator de talento XX.

A conquista do Leão serve, ao mesmo tempo, como motivo de comemoração pela grande indústria, que teve os seus méritos adultos reconhecidos, e como motivo de alarme diante do desgoverno institucional em que vivemos hoje. Rafael Sabatini (1875-1950), o autor de “Sacaramouche”, dizia “nos tempos em o mundo se mostra louco, herói é aquele que mantém o senso de humor“. Mas o humor do Joker não é do tipo que pavimenta arejamentos e discussões… é do tipo pontiagudo, que passa tétano.

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