Sessões na Cinemateca – Escolhas de setembro

(Fotos: Divulgação)

Nesta rubrica do C7nema encontram-se as nossas recomendações mensais sobre a programação da Cinemateca Portuguesa

Voltámos de férias cheios de sede por bom cinema e eis que as águas da fonte da Cinemateca refrescam e saciam a nossa sofreguidão. Com mais de uma centena de títulos a exibir, a despedida do verão torna-se bem mais fácil com tanto cinema e com as habituais sessões na esplanada às sextas e sábados (assinaladas com *). Aqui destacamos as sessões mais promissoras deste mês.

Jorge de Sena, Cendrada Luz

A propósito da celebração do centenário do nascimento de dois gigantes da poesia portuguesa, a Cinemateca recorda a atenção que Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen dedicaram à sétima arte, propondo dois ciclos que assinalam a relação por eles mantida com o cinema internacional. A primeira metade desta secção (intitulada Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen em Correspondência) dedica-se ao lado cinéfilo de Sena e centra-se essencialmente nos títulos que o poeta, em 1968, escolheu para levar consigo para uma ilha deserta. Recomendamos:

Miracolo a Milano (O Milagre de Milão, 1951) – “No futuro não precisaremos da história para compreender obras destas, a história é que precisará de se referir a elas para compreender a época em que surgiram.” (Sena, 1952). Sessões: Sexta-feira, 6 de setembro, 19h00 // Terça-feira, 10 de setembro, 15h30

La Belle et la Bête (A Bela e o Monstro, 1945) – “Que dizer do final” – escreve Sena numa críti­ca ao filme – “quando o príncipe e a bela vão abraçados, por ares e ventos, senão que é a dinamização cinematográfica dos sonhos de figuras, nuvens e roupagens, que a pintura barroca tentou fixar?Sessões: Segunda-feira, 9 de setembro, 19h00 // Quinta-feira, 12 de setembro, 15h30

Sunset Boulevard (O Crepúsculo dos Deuses, 1950) – Sobre a “interpretação magistral inultrapassável” de Gloria Swanson, diz Sena: “A inte­ligência certeira com que representou a aflitiva deshumanização final de toda uma teoria mistificada da vida ficará na história do cinema como um dos mais corajosos gestos que uma celebrida­de terá executado… Só a loucura de uma derradeira aparição an­gustiadamente nimba, é uma despedida de beleza…“. Sessões: Terça-feira, 10 de setembro, 18h30 // Quarta-feira, 11 de setembro, 15h30

Pasazerka (A Passageira, 1961) – Um filme sobre Auschwitz que, segundo Sena, tem “uma naturalidade em exibir o horror e a sordidez como simples acontecimentos quotidianos (e eram-no lá), que nos faz sentir por dentro e dentro de um pavor que, nos documentários, é só choque cheio de piedade…“. Sessão: Quarta-feira, 11 de setembro, 19h00

M (Matou!, 1931) – Poderosa obra-prima, com Peter Lorre no papel da sua vida, sobre quem Sena afirmou: “Foi esta película que celebrizou, para fins de arrepio, os seus olhos de goraz.” Sessões: Sábado, 14 de setembro, 21h30 // Sexta-feira, 20 de setembro, 22h30 *

Sophia de Mello Breyner Andresen: Sirvo Para Que As Coisas Se Vejam

A segunda parte da programação da secção Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen em Correspondência celebra a mais consagrada poetisa do nosso país, ao tentar estabelecer uma aproximação entre a imagem poética dos seus versos e a imagem cinematográfica. A não perder as seguintes obras:

Stromboli, Terra di Dio (Stromboli, 1949) – Para escapar a um campo de internamento, Karin casa com Antonio, um pescador italiano que a leva para a sua terra natal, uma ilha que está sob ameaça de erupção vulcânica. Interpretada pela grande Ingrid Bergman, Karin vê-se assim a sair de uma prisão somente para entrar noutra. Sessões: Quarta-feira, 18 de setembro, 15h30 // Sexta-feira, 20 de setembro, 21h30

The Red Shoes (Os Sapatos Vermelhos, 1948) – Uma das obras-primas do cinema britânico da década de 1940, que tem por tema a relação entre a vida e a arte: uma jovem bailarina torna-se uma estrela, mas tem de enfrentar o dilema entre entregar-se inteiramente à carreira ou sacrificar o amor. A fotografia em Technicolor de Jack Cardiff, a fabulosa direção artística de Hein Heckroth e a música de Brian Easdale construíram um dos mais belos musicais de sempre. Sessões: Quinta-feira, 19 de setembro, 15h30 // Segunda-feira, 23 de setembro, 19h00

Saraband (2003) – Bergman regressa ao tema do fracasso das relações amorosas, reencontrando, 30 anos depois, as personagens de Cenas da Vida Conjugal (1973), numa obra que vai ainda mais longe na exposição desse fracasso e da crueldade e ternura entre o casal. “Um concerto grosso para quatro instrumentos”, chamou Bergman ao seu último filme. Sessão: Quinta-feira, 19 de setembro, 21h30

I Know Where I’m Going (Sei Para Onde Vou, 1945) – Um dos mais belos filmes da história do cinema, esta é a delirante história de uma jovem ambiciosa que procura pôr a razão acima do coração, mas não conta com as forças da natureza. Querendo deslocar-se para uma ilha do norte da Escócia, onde se encontra o futuro marido, é impedida de fazer a travessia por uma tempestade, exterior e interior. Sessões: Quarta-feira, 25 de setembro, 15h30 // Sábado, 28 de setembro, 21h30

Luz e Espectros – Cinema de Weimar 1919-1933

O cinema alemão compreendido entre os anos de 1919 e 1933 da República de Weimar, entre as duas Guerras Mundiais e no período que contemplou a passagem do mudo ao sonoro, é historicamente reconhecido pela sua fertilidade experimental, energia artística e influência duradoura. Este programa dá visibilidade à projeção das sombras “expressionistas” desta época, com as suas criaturas tremendas, sonâmbulas, possuídas… De destacar estas sete obras-primas:

Das Kabinett des Dr. Caligari (O Gabinete do Doutor Caligari, 1919) – O filme que deu início ao que os historiadores do cinema denominaram Expressionismo Alemão, que se destacou pelos seus cenários e perspetivas deformadas, tortuosas, sombrias, oblíquas para representar as visões de um louco. O exemplo máximo da originalidade que marcou esta época. Sessão: Terça-feira, 3 de setembro, 21h30, acompanhado ao piano por Filipe Raposo

Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens (Nosferatu, o Vampiro, 1922) – A primeira e mais célebre adaptação do romance de Bram Stoker, Drácula, em que Nosferatu é o “não morto” que espalha a peste e a morte, por entre os cenários e guarda-roupa concebidos pelo pintor Albin Grau, que Murnau filma em exteriores naturais com uma luz, sombras e paleta cromática de inigualável fulgor. Sessão: Sexta-feira, 6 de setembro, 21h30, acompanhado ao piano por Filipe Raposo

Das Testament des Dr. Mabuse (O Testamento do Doutor Mabuse, 1933) – Segundo filme sonoro de Fritz Lang e a sua última obra na Alemanha, antes da ascensão dos nazis ao poder, esta é uma verdadeira alegoria sobre o novo regime, que seria proibida por Goebbels logo após a tomada do poder pelos partidários de Hitler. Uma arrepiante parábola sobre o Mal. Sessão: Terça-feira, 10 de setembro, 19h00

Der Letzte Mann (O Último dos Homens, 1924) – Referência incontornável do Kammerspiel, a corrente “realista” do cinema mudo alemão, este filme de Murnau é uma obra-prima absoluta, na qual confluem registos de carácter distinto. Construído à volta do acontecimento banal da substituição do velho porteiro de um grande hotel remetido a responsável pelos lavabos, o filme transcende maravilhosamente a dimensão realista da questão económico-social em causa. Sessão: Quinta-feira, 12 de setembro, 21h30, acompanhado ao piano por Filipe Raposo

Der Blaue Engel (O Anjo Azul, 1930) – Obra com uma banda sonora e canções de capital importância dramatúrgica, que revelou Marlene Dietrich no primeiro dos sete filmes da sua lendária colaboração de cinco anos com Josef von Sternberg. Com uma imagem mais crua do que a que viria a assumir em Hollywood, a sua Lola-Lola entrou para a galeria dos mitos criados pelo cinema. O filme segue a história da vil desgraça de um professor apaixonado por uma cantora de cabaret, mas também a escuridão que a esta está reservada. Sessões: Sexta-feira, 20 de setembro, 15h30 // Sexta-feira, 27 de setembro, 22h30 *

Metropolis (1927) – Dos filmes mais célebres de sempre, Metropolis é uma parábola sobre as relações sociais numa cidade do futuro. Os privilegiados vivem nas alturas, enquanto a massa de trabalhadores oprimidos vive nos subterrâneos, trazendo o desfecho uma reconciliação ar­tificial entre as classes. O que faz do filme uma obra-prima é a realização de Fritz Lang, os impressionantes e excecionais ce­nários futuristas, o domínio absoluto das massas de figurantes, e a tão moderna oposição entre homens e máquinas. Sessão: Sexta-feira, 20 de setembro, 19h00

Die Büchse der Pandora (A Boceta de Pandora, 1929) – Um filme mítico da história do cinema, aquele que esteve na origem de outro dos grandes mitos dessa história: Louise Brooks, no papel de Lulu. Com os seus temas e alusões explícitas, é um dos apogeus do erotismo no cinema e um dos pontos altos da “arte muda”, tematicamente enredado no sexo, no poder e no dinheiro. Sessão: Quinta-feira, 26 de setembro, 21h30

Centenário de Jennifer Jones & Double Bill

Em março deste ano cumpriram-se cem anos sobre o nascimento de Jennifer Jones, uma das mais len­dárias e carismáticas estrelas da Hollywood dos anos de 1940-50. Fogosa e insolente, imagem de marca erguida à condição de sex symbol, Jennifer Jones era uma atriz versátil e plena de recursos, tão à vontade no melodrama ou no romanesco histórico como na comédia. A Cinemateca irá exibir meia dúzia de filmes que ilustram as várias facetas da atriz, e dedica-lhe ainda uma sessão dupla que é o ponto alto da secção Double Bill. Eis as nossas sugestões:

Cluny Brown (O Pecado de Cluny Bornw, 1946) – A protagonizar o último filme de Ernst Lubitsch, esta é possivelmente uma das interpretações mais inesquecíveis de Jones. A obra, sobre uma jovem canalizadora que, por via da profissão, conhece um escritor polaco por quem se apaixona, é corrosiva no seu jogo entre o prazer e a classe. Sessões: Segunda-feira, 2 de setembro, 15h30 // Sexta-feira, 6 de setembro, 22h30 *

Portrait of Jennie (O Retrato de Jennie, 1948) & The Man in the Gray Flannel Suit (O Homem do Fato Cinzento, 1956) – Justamente considerado como uma das obras-primas de um cine­ma de inspiração onírica e surrealista, Portrait of Jennie é a his­tória de um amor intemporal (e da obsessão de um homem por uma mulher), para lá de todas as barreiras físicas e racionais. Jenni­fer Jones e Joseph Cotten são assombrosos, num filme celebrado e louvado pelos surrealistas. Produzido por David O. Selznick, atraído pelo romance de Robert Nathan (1940) que o argumento adapta, para assentar como uma luva a Jennifer Jones, foi rodado em exte­riores a preto e branco e termina com a sequência em technicolor do “retrato de Jennie”. Por sua vez, The Man in the Gray Flannel Suit (filmado em Cine­maScope), aborda os problemas de um ex-soldado (Gregory Peck) na sua reintegração na sociedade e vida familiar, com Jennifer Jo­nes no papel da sua mulher. Tal como o livro que adapta, o filme tornar-se-ia num fenómeno popular do seu tempo. Sessão: Sábado, 21 de setembro, 15h30

Queer Lisboa 23

Na sua 23ª edição, o Queer Lisboa – Festival Internacional de Cinema Queer 2019 homenageia a secção “Panorama” do Festival Internacional de Cinema de Berlim, com uma série de filmes que ali foram apresentados ou que refletem o espírito de abertura estética e política da secção da Berlinale. Com a colaboração da Cinemateca, poderemos ver:

Mitt Liv Som Hund (Vida de Cão, 1985) – Numa pequena cidade sueca em 1959, Ingemar, de 12 anos, vive com o cão, o irmão e a mãe, que sofre de tuberculose. Quando a saú­de dela se deteriora, vai morar com o tio no campo. Cheio de saudades, regressa às lembranças da sua família, oscilando entre a tristeza e as memórias felizes, até que conhece Saga, uma maria-ra­paz entusiasta do boxe com quem cria uma amizade inesperada. Sessão: Quinta-feira, 26 de setembro, 19h00

Rebels of a Neon God (Os Rebeldes do Deus Neon, 1992) – Apenas o segundo filme de Tsai Ming-Liang, um dos cineastas malaios mais conceituados da sua geração, esta atmosférica obra segue um rapaz introvertido, que abandonou os estudos e que passa o dia a vaguear, acabando por seguir um delinquente que o atrai para o mundo dos escuros motéis de Taipé. Sessão: Sexta-feira, 27 de setembro, 19h00

Mister Lonely (2007) – Nesta sessão especial poderemos ver um dos filmes do “bad boy” do ci­nema independente americano, Harmony Korine, acerca de um músico parisiense que acaba numa comuna na Es­cócia, habitada por pessoas que personificam celebridades, como Charles Chaplin, Abraham Lincoln, Madonna e James Dean. Em conjunto, todos sonham organizar um espetáculo de gala. Sessão: Sábado, 28 de setembro, 19h00

Outras Secções

Finalmente, destacamos duas obras-primas que pertencem, respetivamente, às programações da Cinemateca Júnior e da secção Inadjetivável, bem como saudamos a escolha do mês dos espetadores para a sessão d’O Que Quero Ver.

Safety Last! (O Homem Mosca, 1923) – Um dos mais emblemáticos filmes cómicos do período mudo norte-americano, esta é também uma das mais conhecidas aventuras de Harold Lloyd, mítico ator cómico lembrado pelos seus óculos de aros redondos e pelas proezas físicas que, no pico da sua popularidade, o equipararam a Buster Keaton e Charlie Chaplin. Sessão: Sábado, 28 de setembro, 15h00

Casablanca (1943) – Talvez o mais famoso filme de sempre, e sem dúvida uma obra mítica, lendária, que, embora produzida numa conjuntura histórica muito específica, conseguiu tornar-se uma narrativa universal e intemporal sobre o espírito humano. Sessão: Sexta-feira, 13 de setembro, 21h30

I Was a Male War Bride (Fizeram-me Passar por Mulher, 1949) – Hawks nunca foi tão longe no jogo da guerra dos sexos e nas inversões de papéis das personagens como nesta comédia em que Cary Grant é o mais irresistível travesti do cinema clássico. Na Alemanha derrotada depois da Segunda Guerra Mundial, um oficial do exército francês, casado com uma oficial americana, tenta sair com ela para os EUA – mas para isso é obrigado a disfarçar-se de mulher. Sessão: Terça-feira, 17 de setembro, 19h00

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