De cara para o golo com o maior mito do thriller político do cinema europeu – o cineasta franco-grego Konstatinos Gavras, ou Costa-Gavras, de 86 anos -, no Festival de Veneza, o C7nema, em sua porção brasileira, inspirou-se na versão crítica do G7 feita por ele em Adults in the Room, e cravou um pedido: “o senhor poderia considerar a hipótese de fazer um filme sobre Jair Bolsonaro“. A resposta: “Bolsonaro virou o Charlie Chaplin“.

“Sei que existem cineastas de muita qualidade no Brasil, que podem retratar bem as situações pelas quais vocês estão a passar. E as dificuldades do seu país podem tornar esse empenho em fazer um filme sobre Bolsonaro ainda mais forte. Ele não vai desmobilizar o cinema brasileiro“, disse o realizador, que trouxe a Veneza o drama de tintas cómicas sobre a crise da Grécia nos anos 2010. “A esquerda europeia fraquejou“, disse ele ao Lido.
Celebrizados por sucessos como Z (Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 1970) e Missing (Palma de Ouro de 1982), ele foi escolhido pela organização do evento veneziano para ser o detentor do Prémio Honorário Jaeger-LeCoultre Glory to the Filmmaker de 2019, o que coroa a sua (sempre polémica) trajetória pelos ecrãs. Trajetória essa, que espelha as suas reflexões e declarações explosivas, do género: “Com o descrédito das lutas de classes, a religião mais poderosa que existe neste mundo se chama Dinheiro, uma força amoral que não guarda respeito por nada, sobretudo por fronteiras. Não existe fundamentalismo que seja mais terrorista do que o liberalismo selvagem. O dinheiro tem uma ideologia: comprar o silêncio de todos em nome do lucro“.
Foi esse o depoimento que o cineasta deu à longa-metragem documental brasileira Dedo na Ferida, do carioca Silvio Tendler, no qual o realizador de A Confissão (1970) faz uma análise das falências morais da economia do Velho Mundo, refletindo sobre os efeitos das políticas liberais sobre as Américas. E o cinema também pode ser afetado pelo arroxo do capital, como ele demonstra na trama de Adults in the Room, adaptação do livro homónimo de Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia, sobre a falência da sua nação. Christos Loulis vive o próprio Varoufakis na obra, que se concentra em tramitações políticas e judiciais de 2015 para travar a bancarrota das finanças gregas. Valeria Golino e Ulrich Tukur completam o elenco da produção.

Adults in the Room
“Comecei esta história em 2007, quando percebi que a Grécia ia quebrar e que a esquerda ia se colocar mais à direita diante do quadro económico do país. Espero que a nova presente da Comissão Europeia ajuste essa situação“, disse o cineasta, que relembrou fatos marcantes da sua vida nas telas na autobiografia Va où il est impossible d’aller, lançado em 2018, em meio do Festival de Cannes.
Nas páginas do livro, ainda inédito aqui, Costa-Gavras relembra os primeiros passos de sua carreira a partir do seu filme de estreia, 6ª. Testemunha, em 1965.
As suas recordações passam ainda pelas suas incursões por Hollywood com Atraiçoados (1988) e Cidade Louca (1997), e pela sua experiência em fazer uma love story em A Luz da Paixão (1979), que ficou dois anos em cartaz em São Paulo, com sessões lotadas. “Eu já começo a edição dos meus filmes no argumento, quando elimino cenas. Mas gosto de criar o filme ao lado do montador“, disse o realizador, que põe coreografias em Adults in the Room dando aos representantes da União Europeia um tom de coro de tragédia grega, sempre acossando Varoufakis.
Nas sessões paralelas à briga pelo Leão, a maior atração até agora veio de terras espanholas. Vivendo uma fase de apogeu no streaming e na TV, o novo audiovisual da Espanha fincou a bandeira da excelência aqui, na mostra Orizzonti, com o folhetim Madre, de Rodrigo Sorogoyen. É Douglas Sirk em versão La Casa de Papel. Um exercício rigoroso de estudo sobre fraturas afetivas. O seu enredo: uma mulher que passa anos atrás do filho desaparecido [numa praia] monta um restaurante no local onde o miúdo foi visto pela última vez e, lá, trava amizade com um adolescente pimpão muito parecido com o seu rebento.
O festival segue até o dia 7, sendo Joker, de Todd Phillips; Marriage story, de Noah Baumbach; e J’accuse, de Roman Polanski, as principais pedidas para os prémios.

