‘Douze Mille’ e a mitologia do proletariado em Locarno

(Fotos: Divulgação)

Seis dos 17 filmes em disputa pelo Leopardo de Ouro de 2019 já foram exibidos e destrinchados pela imprensa internacional em Locarno, mas só um desses títulos é uma narrativa na contramão do existencialismo, de braços dados à sociologia: a ‘love story’ com feridas económicas Douze Mille, de França.

A sua atriz principal, a contagiante Nadège Trebal, é também a realizadora. Ela vem lá do cinema documental (Bleu Pétrole) e de uma parceria como argumentista com a cineasta Claire Simon. Na ficção agora, como realizadora, ela esbanja vigor, falando de um amor alquebrado por bolsos vazios.

Diante de um capitalismo que destrói os laços de afeto, o maior desafio hoje da Humanidade é proteger o desejo“, disse Nadège ao C7nema. “Não me atraem as figuras armadas, bem-sucedidas, endinheiradas. Gosto de quem só tem o próprio corpo para usar como arma de resistência“.

De uma calorosa sensualidade nos seus minutos iniciais, Douze mille aborda a atomização de um casal pelo sexismo inerente à afirmação que o dinheiro traz. Após perder o seu trabalho ilegal, Frank (Arieh Worthalter) sai à cata de um trabalho que lhe garanta uma quantia de 15 mil de uma moeda não especificada, pelo desejo de ganhar o mesmo que a sua mulher, a perseverante Maroussia (papel de Nadège). Mas esta é a primeira a dizer que esse esforço é tolo, e que os soldos dela não passam de 12 mil – daí o título do filme.


Nadège Trebal| © Locarno Film Festival /Ottavia Bosello

Hoje, uma vida de casal tem a complexidade financeira de uma microempresa. Alcançar algum balanço, nos dividendos e nos déficits, de dinheiro e de afeto, é a receita para o equilíbrio de um amor. É a ‘merchandisação’ do amor. Só que Frank deixa-se levar por uma mirada materialista da paixão“, diz a cineasta, que investe em cores quentes na fotografia de Jean-Christophe Beauvallet. “Há uma mitologia do proletariado, na qual sobreviver é quase um gesto heróico“.

Uma das mais esperadas atrações da seleção oficial, em concurso, vai ser exibida neste domingo nos écrãs suíços: o filme-coral de DNA islandês Echo (Bergmál), de Rúnar Rúnarsson. Realizador do ótimo Sparrows, de 2015, o islandês brinca de Dziga Vertov, mas no campo da ficção, fazendo um painel de diferentes situações da Islândia, entre a véspera de Natal e o Ano Novo. A narrativa é toda fragmentada em microcontos, indo de um desabafo num csolário a uma imersão de uma idosa na realidade virtual.


Bergmál

Ainda amanhã, Locarno recebe uma experiência narrativa sem palavras… sem diálogo do habitualmente “falastrão” cineasta canadiano Denis Côté (de ‘Vic + Flo viram um urso’): a longa metragem de 66 minutos, Wilcox. Guillaume Tremblay vive a personagem central, um sujeito taciturno que aposta na liberdade acima de tudo. 

Locarno termina no dia 17, com a entrega do Leopardo dourado e dos demais prémios e a projeção do drama japonês To the ends of the Earth, de Kiyoshi Kurosawa.

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