Depois de Sitiados (2007), Solo (2012) e First Light (2014), Mariana Gaivão regressou ao Curtas com as memórias de infância implantadas num coming-of-age sobre uma comunidade “hippie” onde uma jovem rapariga de origem inglesa, Ruby (Ruby Taylor), prepara-se para se separar da sua melhor amiga, Millie, que vai voltar para o Reino Unido.

Começa então uma jornada de procura – com cheiro a terra queimada no percurso – por parte da nossa personagem, primeiro de Will – que lhe explica como a casa sobreviveu a um incêndio – depois de Millie e finalmente do seu cão, Frank, também ele desaparecido na região. Numa viagem que se inicia de forma naturalista [quase documental onde o nome dos atores é igual às personagens] mas que termina numa gruta a ecoar música eletrónica num quadro pictórico totalmente diferenciado, Mariana Gaivão aborda a perda, o enraizamento e desenraizamento, as formas alternativas de vida longe das cidades, e as decisões de vida de uma geração que afetam outra geração, neste caso, a de Ruby.
“Eu cresci nos meus verões nesta terra, em Góis, e o filme nasce de três vontades ou desejos“, explicou a cineasta no Q&A que sucedeu a visualização do filme no Curtas Vila do Conde, onde acabaria distinguido com o Prémio Kino Sound Studio – Melhor Realizador.
“O primeiro [desejo] é essa minha memória de uma comunidade que sempre existiu a partir dos anos 80 nessa zona de Coimbra com ingleses, holandeses, etc, aos quais eu não tinha acesso, mas que tinham uma espécie de aura mágica: eu de um lado do rio, eles do outro.“, prosseguiu Gaivão, brincando que provavelmente eles seriam demasiado “cool” para ela.

Já sobre a segunda razão, fonte de inspiração, desejo para concretizar a obra, a cineasta afirma que está relacionada com a sua maneira de ver o Cinema: “O cinema para mim, mais que tudo o resto, é um encontro, ou dizendo de uma forma menos poética, um pretexto para me aproximar de coisas que desejo. Se eu estou a fazer um filme é uma forma de chegar a coisas que quero. O segundo passo tem a ver com isso. Para mim é um bocado pesadelo pensar que um filme é o meu processo de estar numa sala escura a escrever, a dizer às pessoas o que quero filmar, de eu filmar o que quero. Isso para mim é um pesadelo sem fim. Portanto, o que eu quero é abrir o máximo de espaço nesse processo para tudo o que não é meu, que desejo. mantendo uma espécie de rede de atrações, um íman, que permita trazer o que pretendo.“
Outra inspiração, nomeadamente para a construção da sua Ruby, foi uma uma rapariga que viu em Lisboa e que permaneceu na sua mente: “Uma figura loira platinada que parecia deslizar sobre a cidade“. Finalmente, o terceiro momento que fomentou a criação desta curta estava na sua experiência pessoal mais recente: “Tenho uma filha, ela tem seis anos, é meia alemã e meio portuguesa. Houve um momento da minha vida em que pensei: não consigo pagar a renda, não sei o que vou fazer, vamos viver para Góis. Vamos para o campo. A minha primeira questão foi o que é que ela iria achar da minha decisão quando tiver quinze anos. Porque essa era a minha decisão. Comecei a fascinar-me com essa pergunta e a interessar-me por uma segunda geração. Na primeira geração, eles acham desta coisa ainda meio idealizada de ir viver uma [forma de vida] alternativa à cidade. No meio desta sopa de coisas começou a formar-se um desejo enorme de fazer o filme. Escrevi o argumento, que tinha a ver com o cão, com a perda, mas assim que consegui um apoio, o que fiz foi ir para lá e começar a trabalhar a procurá-los (a comunidade).”
A escolha de Ruby

“Entrei por uma escola a dentro e estava esta miúda toda punk, de cabelo azul, a falar inglês. Eu disse que ia fazer um filme e ela ficou a olhar para mim com cara de: ‘quero lá saber do teu filme’. Esta resistência é o filme. A partir daí foi um processo muito, muito longo. Ia a Lisboa o mínimo possível e estava em Góis a viver e chateava muito aquelas famílias“.

