Num país com tantos incêndios, Márcio Laranjeira e Sérgio Braz d’Almeida levaram a Vila do Conde a história particular de um incendiário

Ao centro, Márcio Laranjeira e Sérgio Braz d’Almeida, no Curtas Vila do Conde
Já em Uma Rapariga da Sua Idade, Márcio Laranjeira acompanhava – num registo diferente mas de certa maneira próximo – as dificuldades da juventude, em particular a das pessoas saídas do “estado de graça” da infância e que são apanhadas nas exigências da vida adulta. Neste Colmeal, um retrato de um incendiário (interpretado por João Pedro Mamede) assinado a meias entre Laranjeira e Sérgio Braz d’Almeida, assistimos a um homem à procura de se identificar e se definir nos vários níveis da sua existência, seja sexualmente, emocionalmente ou socialmente. Tudo se passa numa pequena aldeia situada em Riba-Côa, também conhecida como aldeia fantasma, devido ao êxodo rural e a desertificação do interior.
“Incendiário é o crime menos glamouroso para se fazer um filme“. Estas foram as palavras da investigadora Cristina Soeiro, uma profiler da Polícia Judiciária, aos realizadores. No seu estudo, um dos maiores do mundo, orientado para a Península Ibérica, Soeiro identifica que a maioria destes crimes vêm de pessoas “com problemas de ligação com a sociedade, de encontrarem o seu lugar no mundo“.

João Pedro Mamede
Ainda assim, o nosso protagonista – um inadaptado – que fica obcecado com a chegada de uma mulher da cidade à aldeia, foi construído em termos narrativos para além do que os cineastas e argumentistas descobriram no estudo. Quando questionados pelo c7nema no Q&A, logo após a exibição da obra, Laranjeira respondeu: “Existiram [outras fontes de inspiração além do estudo da Cristina Soeiro]. A nossa ideia não era documentar, mas como fazer um filme com isto [estudo]. Como o Sérgio explicou, a Cristina Soeiro disse-nos que não havia esse glamour, nem a identificação dos incendiários com os outros [sociedade]. Não havendo essa identificação, decidimos não criar essa identificação com o público. Os outros filmes que fiz gostamos sempre da personagem. Aqui sabíamos que isso não ia acontecer, mas também não podiamos documentar aquilo que são todos os incendiários. Isso é o que o estudo dela faz. Nós queríamos fazer um filme com isso [tema] e por isso criamos esta personagem e esta história. Por exemplo, uma coisa curiosa em relação à maior parte das mulheres incendiárias que quase sempre são crimes passionais. Em relação a homens, dentro de uma determinada faixa etária existem muitas vezes os problemas da masculinidade. Decidimos assim pegar nisso. (…) Criamos esta personagem para ele, que bem podia ser um psicopata. Aliás, ele podia não incendiar mas matar. Há a cena da arma. Há um momento em que ele mergulha num sonho com água e a seguir decide pegar fogo. Esta personagem podia ir para outros lados, mas não consegue.“

“Essa cena com a arma, ele não é uma pessoa que consiga ter um ato direto“, acrescentou Sérgio Braz: “Tal como todos os incendiários, ele acaba por dissimular, direcionar a sua vingança para outra coisa. Isso também é muito típico segundo o estudo. Estas pessoas têm graves problemas de sociabilização“.
Incendiários e pirómanos
“Interessava-nos o lado patológico da questão. Aliás, quando começamos a procurar interessava-nos um pirómano. A Cristina Soeiro desde os anos 70 entrevistou todas as pessoas que foram detidas por pegarem incêndios na península Ibérica. E ela procurava um pirómano. Estava a fazer toda uma tese sobre isso. Ela não encontrou nenhum. Ou seja, dentro da definição desse problema mental, que é ser pirómano, é preciso excluir uma série de características que na verdade todos têm. (…) O que ela conseguiu fazer no seu estudo foi recolher dados estatísticos sobre aquilo que era comum dentro de determinadas faixas etárias, o sexo, a idade, onde eles viviam“, explicou Marco Laranjeira.

