«Manta Ray»: a triste alegoria ao povo sem voz

(Fotos: Divulgação)

Manta Ray é hoje exibido no FEST: New Directors l New Films

Aos Rohingya“. Assim começa Manta Ray, uma impressionante estreia nas longas-metragens do realizador tailandês Phuttiphong Aroonpheng, mais conhecido localmente pelo seu trabalho como diretor de fotografia.

A dedicatória é explícita, o filme não o é nas suas imensas camadas trabalhadas por um poeta que prefere as imagens e o som aos diálogos para contar a história de um homem – igual a tantos outros – que serve como símbolo de um povo que desde sempre foi perseguido e que aparentemente só chamou a atenção do grande público pela limpeza étnica que estava a sofrer nas mãos do governo birmanês comandado pela Prémio Nobel da Paz (veja-se a ironia) Aung San Suu Kyi.

Em 2015, numa colina em Padang Besar, uma cidade fronteiriça do sul da Tailândia, bem perto da Malásia, um enorme túmulo com Rohingyas foi descoberto. A causa dessas mortes é um mistério e como os cadáveres não falam, o tema foi esquecido. Há muito que os Rohingya, desprezados por vários países asiáticos, procuram a Tailândia como refúgio, mas aí também encontram o ódio, a perseguição, e em muitos casos a morte cruel em florestas carregadas de fantasmas dessas vítimas que aqui recuperam a voz através de dispositivos que carregam o filme de mística e surrealismo.

Não é à toa que o cineasta escolheu como protagonista deste seu Manta Ray um homem mudo (Aphisit Hama), sem papéis, sem identidade. Sem nada. Ele é um reflexo dos Rohingya, um povo vivente num eterno limbo de invisibilidade. Só que ao invés de morrer nessas florestas ou pântanos como tantos dos seus, esta alma desprovida de identidade é salva por um pescador tailandês (Wanlop Rungkumjad).

Sem conseguir contactar com ele, devido à sua mudez, o pescador dá-lhe o nome de Thongchai, uma referência a um grande nome da música pop no país, ensinando-o aos poucos o seu modo de vida, como cozinhar, mergulhar, andar de moto, encontrar pedras preciosas e pescar.

Lentamente, este homem sem voz, sem nação, sem identidade, vai entrar no modo de vida tailandês, personificado pela vivência com o seu tutor, também com problemas locais que vão potencializar o seu desaparecimento.

Quando inexplicavelmente a antiga companheira deste pescador surge na habitação que ele partilhava com Thongchai, este último começa aos poucos a entrar na pele do seu amigo, a assumir a sua aparência física (o choque do cabelo louro é uma marca impressionante) e até a “retomar” o relacionamento com a antiga namorada do amigo.

È aqui que Manta Ray revela o seu magnetismo, o seu estatuto enigmático, místico e aparentemente surreal, mas que na verdade o leva a uma das melhores alegorias do cinema tailandês, e consequentemente o torna num dos filmes mais interessantes do cinema local da última década.

Phuttiphong Aroonpheng, um poeta visual

Tendo principalmente como formação em Fotografia para Cinema, Aroonpheng não se sentia confiante para contar uma história através de palavras, diálogos ou outros dispositivos além da cinematografia. Em entrevista, ele afirma que Manta Ray é “conduzido quase totalmente pela imagem e som, funcionando como uma peça abstrata ou uma música instrumental“, bem longe do storytelling habitual do cinema para massas.

Últimas