A nova série da Netflix é uma verdadeira cleptomaníaca

Baseada no livro homónimo escrito pela criadora e argumentista da série, Kirsten Smith, Trinkets é mais um exercício descartável, redundante e recheado de clichés e lugares comuns que não acrescentam nada ao género nem se revelam minimamente interessantes nas várias camadas temáticas adolescentes abordadas.
A começar pelo trio de atrizes, Brianna Hildebrand, Kiana Madeira e a novata Quintessa Swindell. As duas primeiras e as suas personagens parecem formatadas a serem vendidas no ecrã como versões “reprogramadas” de Shannyn Sossamon e Eliza Dushku, enquanto Swindell, assumida não binária, é aqui uma cisgénero popular que desce na “hierarquia” social da escola como quase todas as personagens semelhantes desde a Febre de Beverly Hills. Só que a habitual loura, sádica e burra deu lugar a uma mulata, sensível e esperta, enquanto que a jovem tímida e virgem do elenco (uma personagem descendente do antigo nerd heterosexual) é lésbica. A terceira, Madeira, é a “misfit” do grupo, a rebelde sem uma causa que se recusa a “amar” (como se fosse uma veterana).
Na verdade, Hollywood – esse termo que se estende para lá do cinema e de uma localização física – vende as mesmas histórias há décadas e encontrou na não normatividade, na inclusão e na diversidade cultural uma desculpa para reciclar tudo o que tem em termos narrativos dando um falso ar de inovação. É que estamos perante um conservadorismo narrativo que toca em todos os pontos possíveis e imaginários de uma história já batida, a começar no que une as três personagens principais, a cleptomania. O trauma do luto, a violência numa relação amorosa, a disfunção familiar resultante da detenção do pai de uma das miúdas, a infidelidade, e até um jovem destroçado, sensível e atraente que se mantém como o outsider sexy revelam-se esquematismos sem qualquer variação.

E não faltam também as performances musicais plásticas, ao melhor estilo product placement que enquadram bandas e cantores famosos no enredo para atrair um público específico. É que não falta nada, até um crime omitido que coloca as três em xeque e dá abertura a uma eventual segunda temporada. Personagens secundárias muito pouco trabalhadas e desenvolvidas, entregues a dimensões boas-más/preto-branco sem qualquer profundidade, tornam ainda todo o exercício mais frustrante.
No seu melhor, temos o facto de Trinkets ser uma série de curta duração: 10 episódios de 20 e poucos minutos cada. Mas isso é como a velha história quando somos assaltados e pensamos: “ainda bem que tínhamos pouco dinheiro na carteira“.

