Black Mirror – o que fazer quando a realidade começa a superar a ficção?

(Fotos: Divulgação)

Ao longo de quatro temporadas, o futuro tecnológico foi-nos apresentado e avisado por aquele que será o segundo maior fenómeno da televisão recente – após, claro está Guerra dos Tronos: Black Mirror

 

———-(Ligeiros Spoilers)———-

Era um futuro praticamente sempre distópico, mesmo quando as histórias acabavam bem. Comparações com The Twilight Zone (A Quinta Dimensão), outra antologia de género da geração dos nossos pais e avós não tardaram, pela maneira como Charlie Brooker, o criador central, conseguia até levar estas premissas a uma reviravolta, quer feliz ou infeliz. 

Originalmente transmitida pelo Channel 4 nas primeiras duas temporadas, foi em 2015, e com a compra Netflix, que a série atinge em crescendo o pico da popularidade que agora goza. À quinta toma, no entanto, parece que os tempos estão a acompanhar esta coleção demasiado bem; em vez de encararem o aviso como negativo, a oportunidade de negócio fruto da ambição tipicamente humana falará sempre mais alto. Voltamos aqui à estrutura limitada das primeiras duas temporadas: apenas 3 episódios, algo que gerou logo indignação para quem estava a ser mal habituado com as “temporadas Netflix”. A opção revela-se acertada, pois parece que há de facto aqui um problema-chave de tudo o que estarmos a ver nos lembrar agora do passado em vez de nos espantar com o futuro: bonecas de inteligência artificial que caçam literalmente a alma de uma artista pop, redes sociais enquanto distração constante, e realidade virtual.

 

Striking Vipers

Destes três novos episódios, há que dar um destaque merecidíssimo ao brilhante Striking Vipers, uma hora que ainda assim conseguiu acumular amores e ódios durante esta semana, mesmo que sejam poucos os que possam argumentar que este é o episódio mais ambicioso e original. Dois amigos de longa data (interpretados por Anthony Mackie de The Hurt Locker e Yahya Abdul-Mateen II de Us) adoram jogar um jogo que lembra jogos de luta clássicos tipo Street Fighter ou Tekken. Anos mais tarde, com um deles casado e a tecnologia melhorada, é possível entrar no jogo no papel dos avatares. Até aqui tudo bem, até a história dar uma guinada, daquelas que é preciso ser vista para ser acreditada, e começar a tocar em temas ainda hoje tabu, e sim, ainda não propriamente tocados em obras anteriores: questionar-nos sobre role play no uso de avatares e como o jogo, a fantasia e a empatia de se colocar noutros sapatos de origens tão diferentes às nossas (culturais, masculino vs feminino) pode afetar a nossa sexualidade e a nossa identidade no geral. No fundo, há aqui a exposição, de toda a gama de cinzentos que ocupa o nosso cérebro e será sempre mais misteriosa que qualquer gadget exposto para se ver como se Black Mirror se tivesse tornado uma feira internacional de novas tecnologias. Este é o episódio mais exemplificativo da tese descrita no início deste parágrafo. 

Rachel, Jack and Ashley Too

O episódio mais mediático recairá inevitavalmente para o de Miley Cyrus, que, à imagem de todos os intervenientes principais desta temporada, entrega uma performance altamente competente, embora possa estar a fazer um pouco dela própria – uma estrela pop com ganas de ser mais autêntica. Rachel, Jack and Ashley Too oscila entre a estrela e a fã que compra uma boneca capaz de responder às suas questões. Estas duas transições são até bem desenvolvidas para uma hora, e a série adquire ultimamente uma visão de obra de aventura juvenil, quando uma reviravolta a meio junta os dois mundos, sendo os preconceitos do espectador com esse “género” postos à prova. A crítica em si está ao nível da última versão de A Star is Born – na dicotomia de que a pop manufacturada é toda má e “comatosa”, e o que é bom é ser punk e fazer uma versão de Nine Inch Nails. Calma. Mas o que é certo é que o episódio funciona para lá da tecnologia, e pelo menos o sermão é até subtil comparado com o terceiro episódio que falta falar.  

Smithereens

Destoando dos dois episódios acima mencionados, até pelo seu final menos esperançoso, e portanto até mais previsível para quem acompanha o projeto desde início, Smithereens comete dois pecados capitais da ficção (científica): aborrecimento perante o que está a ser contado, e pior ainda, a condescendência como conta, nesta atualização placebo ao clássico: “não fale ao telemóvel se conduzir”. O vício das redes sociais encontra numa figura traumatizada (Andrew Scott, o padre de Fleabag, em mais uma performance irrepreensível, mas incapaz de salvar o texto que tem que debitar) o seu porta-voz para a audiência. 

Feitas as contas, o saldo é positivo. Entende-se por um lado quem agora espera uma ida a outra galáxia quando foi vislumbrada uma viagem ao planeta mais próximo. Sim, os tempos parecem estar a apanhar de forma perigosa esta ficção, mas o que se pode dizer, em defesa de Brooker, é que esta aproximação perigosa da ficção para a realidade, faz com que haja também uma maior empatia com o mundo desenhado, isto quando não nos está a ser posto em modo sermão.

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