
É dia de Almodóvar na Croisette, e não de um Almodóvar qualquer: a Cahiers du Cinéma dá um espaço apaixonado ao devastador Dolor y Gloria na sua edição deste mês, acreditando que o cineasta espanhol enfim possa ser reconhecido com a Palma de Ouro que tanto merece com a história do ocaso (e posterior redenção) de um cineasta (Antonio Banderas) cansado da vida, agrilhoado à solidão. Na luta por prémios, na competição oficial, este “almodrama” vem com força para ganhar, tendo que fintar o “queridinho da crítica” até agora, Os Miseráveis, de Ladj Ly. Ele e Mati Diop, realizadora do belíssimo Atlatique (na imagem acima), são os únicos cineastas negros na disputa e ambos trouxeram longas-metragens requintadíssimas para o certame. Mas como há já uma considerável quilometragem de filmes provocantes acumulados nas seções paralelas nos quatro dias que o festival já contabiliza, pode ser curioso deixar a equipa de tramas em concurso de lado por um tempo e nos concentrarmos no que vem de outras latitudes. Eis o cardápio:
Canción sin nombre, de Melina León (Perú)

Baseado em factos reais, esta trama em P&B aborda a luta de uma jovem peruana dos anos 1980 para reaver sua bebé recém-nascida com a ajuda de um jornalista. O seu principal apelo: a fotografia de Inti Briones, que diluiu todas as referências banais da representação do seu país no grande ecrã. | Onde? Quinzena dos Realizadores.
Zombie Child, de Bertrand Bonello (França)

Espécie de Carrie misturado com docs do Arte sobre macumba, o novo filme do realizador de Nocturama (2017) traça dois tempos (os anos 1960 e a atualidade) e dois espaços (o Haiti e a classe média francesa) a partir de um grupo de adolescentes que montam uma sororidade de estudos literários e têm contato com os mistérios ocultos de um ritual de zombificação usado em trabalhos servis na América Central. Uma das estudantes pede a uma imigrante haitiana que exorcize os seus males de amor por um namorado, o que deflagra um processo de assombro. A filmagem dos rituais de sincretismo afro ultrapassam os males da alteridade. | Onde? Quinzena dos Realizadores.
The orphanage, de Shahrbanoo Sadat (Afeganistão)

A realizadora do ótimo Wolf and sheep (2016) volta ao grande ecrã para narrar a luta de um órfão, fã de musicais de Bollywood, na Cabul dos anos 1980. A ida dele para um abrigo soviético é cercada de dor. | Onde? Quinzena dos Realizadores.
J’ai perdu mon corps, de Jérémy Clapin (França)

A protagonista desta animação é uma… mão. Uma mãozinha que corre pelas ruas de Paris à cata do rapaz cujo corpo ela integrava. | Onde? Semana da Crítica.
Beanpole, de Kantemir Balagov (Rússia)

Nos escombros da II Guerra Mundial, em solo soviético, duas mulheres procuram reinventar as suas vidas e buscar um sentido para explicar a tragédia que se abateu sobre elas. Montagem impecável. | Onde? Un Certain Regard (Um Certo Olhar).
Litigante, de Franco Lolli (Colômbia)

Em fase de ascensão na Pangeia latina, o cinema colombiano marcou um golaço em Cannes com este belo tratado acerca da emancipação feminina, centrada nas múltiplas tarefas de uma advogada numa rotina de mil cansaços cotidianos. | Onde? Semana da Crítica.
Rocketman, de Dexter Fletcher (Reino Unido/ EUA)

E, embora pareça uma opção manjada, diante do investimento milionário da Paramount, vale destacar Rocketman, de Dexter Fletcher. Na quinta-feira, sir Elton John foi à Croisette para assistir a antestreia mundial de Rocketman. Filmado por Dexter Fletcher, a longa-metragem, que estreia no final do mês, é uma cinebiografia do músico, nos moldes do fenómeno popular Bohemian Rhapsody, sobre Freddie Mercury, que custou 54 milhões de dólares (€49M) e faturou cerca de 900 milhões (€805M), além de conquistar quatro Oscars. Há um desejo por um destino similar para a produção de 40 milhões de dólares que põe o britânico Taron Egerton (herói da franquia Kingsman) num desempenho luminoso na pele de Reginald Kenneth Dwight, o nome verdadeiro de Elton. | Onde? Hors-Concours (Fora de Competição).

