Rocketman: um ensaio sobre os poderes regenerativos desse tal de rock’n’roll

(Fotos: Divulgação)

Elton John chegou a Cannes e foi aplaudido de pé na projeção de Rocketman 

Cannes tem os seus ditados populares, jargões e bordões: “O rock’n’roll salvou a minha vida” é um deles, dito múltiplas vezes neste solo sagrado da imagem por um adorador de música: Wim Wenders. Na quinta-feira à noite, um desses salvamentos executados pelo tal de rock’n’roll pediu passagem para o grande ecrã do Palais des Festivals, com plumas, lantejoulas, purpurinas, dor e quilos de afeto: Rocketman, um monumental ensaio sobre sabotagens emotivas na estrada de tijolos amarelos que pavimenta o caminho para o sucesso na cultura pop.

Fez pensar em Wenders. E em Freddie Mercury. Que mistura!

Trabalhando com o guitarrista Ry Cooder em Paris, Texas (1984), Wenders, o diretor de jóias como Buena Vista Social Club (1999), aprendeu uma lição que virou lema: “O rock’n’roll salva vidas, pois mostra o limite entre o tédio e o vazio existencial“. Poucos longas-metragens traduzem melhor esse ideal analgésico do rock do que Bohemian Rhapsody, um “filme de autor” com “A”, feito por um realizador sem qualquer laço com o existencialismo de Wenders, mas que, assim como o mestre alemão, vê a relação essencial da imagem com outros vectores da arte, como a canção pop. Bryan Singer é o seu nome e você conhece-o da franquia X-Men. Mas ao ser afastado dos sets desta releitura pessoal dos feitos do grupo Queen, sob acusações e reclamações de Rami Malek, Singer ganhou o auxílio de um ator-realizador de evolução notável: Dexter Fletcher.

Ele finalizou a sumptuosa saga dos Queen, que custou 54 milhões de dólares (€49M) e faturou cerca de 900 milhões (€805M). O resultado do seu toque de Midas faz-se notar em Rocketman. Um toque autoral. Ambos os filmes abordam a questão da autorregeneração. Freddie e Elton são Wolverines da cena roqueira: mutantes com o poder de se regenerarem das suas próprias cicatrizes, dos seus próprios boicotes.

Regada a lágrimas, salvas de aplausos durante a projeção e o coro da plateia nas suas canções mais famosas, a sessão de Rocketman candidata-se ao posto de exibição mais comovente do evento, em 2019. Elton foi à Croisette ver o que Fletcher fez a partir das memórias da sua vida, da infância ao recomeço, nos anos 1990, após uma guerra contra o alcoolismo. O músico foi saudado, no fim da projeção, com dez minutos de palmas inflamadas, de pé. E estavam umas 2 mil pessoas no Grand Théâtre Lumière, a maior das salas do Palais des Festivals, a sede das atividades cinéfilas de Cannes.

Envolvido desde setembro numa turnée de despedida nos palcos, com a previsão de visitar 300 cidades do mundo na sua trajetória, o cantor e compositor inglês de 72 anos vai conversar com a imprensa sobre Rocketman esta sexta. Ele vai comentar as licenças poéticas da realização, que aposta num tom não realista de musical, com direito a cenas de Elton levitando e até sendo catapultado para o espaço, como se fosse um foguete.

Assinado por Dexter Fletcher, a longa-metragem, que estreia no final deste mês, é uma cinebiografia centrada na habilidade de Elton para se sabotar. Fletcher seguiu uma linha dramatúrgica de conflitos nos moldes do fenómeno popular Bohemian Rhapsody, vencedor de quatro Oscars. Há uma torcida por um destino similar para a produção de 40 milhões de dólares que põe o jovem ator britânico Taron Egerton (herói da franquia Kingsman) na pele de Reginald Kenneth Dwight, o nome verdadeiro de Elton. E ele está inspiradíssimo em cena, em estado de graça. A sua dinâmica começa numa sessão de terapia para Alcoólicos Anónimos. Ali, ele, fantasiado, senta-se e desfia o seu rosário de mágoas.

Eu sou muito feliz com a minha arte, não consigo me imaginar sem fazer música, mas tenho dois filhos para criar, o que me dá a sensação de que chegou a hora de parar com os shows pelo mundo e ficar com eles. Esta turnée agora é a minha chance para agradecer aos fãs por todo o carinho desses anos todos“, disse o cantor em entrevista à imprensa americana quando a sua biopic começou a ser filmada.

Um dos destaques do elenco é Jamie Bell, estrela de Billy Elliot (2000), hoje já adulto, no papel do compositor Bernie Taupin, o maior letrista de Elton. As lutas entre eles servem de motor ao filme, que revela os excessos do cantor a partir do fantasma dos seus pais.

http://www.youtube.com/watch?v=S3vO8E2e6G0

Aos 29 anos, Egerton, que contracenou com Elton em Kingsman: O Círculo Dourado, de 2017, afirmou à imprensa europeia que não quer alimentar grandes ambições comercias acerca do filme, para que a expetativa não se vire contra o projeto. “Estarei em paz com as receitas que ele fizer, mas torço para que vá muito bem“. A julgar pela apaixonada reação do público, e pelo abraço que ganhou de Elton, ele foi aprovado.

Filmado pelo ator e documentarista francês Ladj Ly, cuja família vem do Mali, Les Misérables, uma releitura dos motes sociais do romance homónimo de Victor Hugo, transportado para os subúrbios da Paris dos dias de hoje, é o melhor (e mais festejado) filme na luta pela Palma de Ouro em 2019. Na trama, um trio de policias liderados pelo abusivo Chris (Alexis Maneti) gera uma onda de brutalidade entre jovens de um bairro maioritariamente negro, povoado por muçulmanos e ciganos, ao agredir um miúdo que, numa brincadeira, roubou um filhote de leão de um circo. Um drone é testemunha dos atos agressivos de Chris e traduz a visão de Ladj em buscar uma visão fluída, com múltiplos pontos de vista, dos desajustes urbanos da França pobre. Depois dele, vem o brasileiro Bacurau, cujo guião esbanja criatividade, potencializada pela maldade de Udo Kier no papel do líder de uma falange de assassinos.

Francesa de origem senegalesa, Mati Diop – a primeira cineasta negra a concorrer à Palma de Ouro por uma longa-metragem – também angariou fãs em prol do seu lúdico Atlantique, cuja fotografia das paisagens urbanas de Dakar é um deslumbre. No enredo, uma adolescente às voltas com um casamento arranjado sonha em rever o seu grande amor, um operário que cruzou o Atlântico em busca de novas chances, mas que pode voltar no meio de um tumulto na vida da jovem. O argumento é digno de distinções.

Mas, esta sexta-feira, Almodóvar pode mudar tudo.

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