IndieLisboa 2019: a procura de novas formas alternativas ao “storytelling” clássico

(Fotos: Divulgação)

Não deixa de ser curioso que seja um ano de homenagem a Anna Karina e consequentemente Jean-Luc Godard, fica no espectador a sensação de se estar a querer criar uma nova vaga globalizada que mostre uma nova forma de contar histórias, ao mesmo tempo que aparenta existir aqui um conflito geracional entre o “novo” e o “velho”. 

O próprio vencedor da competição internacional, De los nombres de las cabras, não deixando de ser uma lição de história com herança do género documental, com o tempo de duração de uma aula (62 minutos), acaba por ser também bastante alheio ao mecanismo tradicional de contar uma história. Outro título em competição, Bait, é semelhante, privilegiando a história do formato “clássico” do cinema ao próprio storytelling que se resume facilmente numa sinopse, num saudosismo que entra em conflito com uma outra vertente aqui presente também.

Nos antípodas formais, Jessica Forever soube arriscar um modo fresco, digital, sujo até na sua formatação, referenciando a cultura de videojogo, e efeitos visuais propositadamente manhosos para “contar” algo, mas tudo isto é ainda assim alienígena à estrutura de três atos. So Pretty reaproveitou também a estética de docudrama pessoal e não processado para fazer dele uma espécie de adaptação literária, só que com um aspeto meta de pôr as suas personagens poliamorosas a ensaiar trechos e a serem elas próprias as personagens do romance, e ficar-se por aí, no que toca ao processo narrativo. 

Os melhores filmes para mim, ainda assim, i.e., aqueles que marcaram no imediato, foram os mais tradicionalmente narrativos. Na competição Silvestre houve Amanda de Mikhael Hers, uma bomba silenciosa que merecia ter tido mais destaque por parte da calendarização do festival, e não ser atirado para duas sessões da tarde (pelo menos teve direito a segunda sessão). Na secção “Herói Independente” houve espaço para a exibição de Divino Amor, magnífico salto de fé de Gabriel Mascaro, ficção distópica humanista, pegando num alvo fácil – uma mulher evangélica – e indo ao foco do seu desejo. E na competição nacional tivemos o enternecedor A Tristeza e a Alegria na Vida das Girafas. Há, para além da atenção à estrutura das palavras, e da tradução destas em imagens, uma carga política forte a unir estas três obras – sim, incluindo a comédia de Tiago Guedes! Não é só o Brasil que está em transe, mas sim o mundo, afinal. Os fenómenos recentes, como a crise económica, o terrorismo e a ascensão consequente de novos fanatismos populistas (religiosos e políticos, sendo que o evangelismo ganha crescentemente maior território em muitos estados) empurraram-nos também a nós para lugar incerto, inseguro. 

Para além do Brasil profundo (que teve mais duas obras nas competições de longas-metragens: Temporada e Querência), houve espaço proeminente em secções competitivas para a nova vaga do cinema romeno, mais narrativa que outras, ainda em trânsito há mais de uma década, ainda a pôr o dedo na ferida nos problemas sociais como a gravidez na adolescência (Alice T.) ou a negligência hospitalar (Sa Nu Ucizi). Também ainda com uma estrutura narrativa, o americano Lost Holiday ofereceu uma lufada de ar fresco para quem pretendesse algo mais consistente e que soubesse agarrar sempre o espectador. 

Perante esta oferta, algum do cinema mais tradicional, se igualmente contemplativo na hora de montar uma história, saiu daqui com um aspecto de não-evento. Penso em Dominga Sotomayor, aqui presente na competição Silvestre com Tarde Para Morir Joven, e dando a sensação de obra atrás do seu tempo, sendo ironicamente uma obra que joga precisamente com a nostalgia de outros tempos. Outra obra latina, Entre Dos Aguas, decidiu arrastar um estudo de personagem (sobre a crise, novamente) para lá das duas horas, mas tinha pelo menos o dom de vincar melhor a sua relação com os corpos tatuados que apresentava.

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