
Embora seja mais lembrado por seu impecável desempenho como apresentador da festa dos Óscares, nas nove vezes em que foi mestre de cerimónias da festa da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, Billy Crystal é um ator de fartos recursos para o riso e para o drama, que chegou aos 71 anos buscando se reinventar. Tribeca foi a montra escolhida para a sua reinvenção, com uma projeção de Standing up, falling down. Exibido na abertura do festival nova-iorquino, esta comédia dramática de Matt Ratner é um dos títulos de maior boca em boca no evento, já cotado para as principais premiações dos EUA.
Na trama, Crystal é Marty, um dermatologista que afogou a sua carreira e o seu sucesso em álcool. Ao travar amizade com um jovem humorista fracassado, Scott (Bem Schwartz), Marty encontra um estímulo para enfrentar os demónios que o levaram ao fundo do poço. Dada a procura por bilhetes, Tribeca agendou novas sessões para a longa-metragem nesta terça e no sábado.
Crystal ainda vai participar da projeção comemorativa de 35 anos de This is Spinal Tap, a fim de relembrar como o filme de culto de Rob Reiner sobre uma fictícia banda de rock virou um marco do mockumentary. Lançado em 1984, a longa-metragem traz Christopher Guest e Michael McKean em desempenhos hilários.

Standing up, falling down está sendo exibido em Tribeca na seleção Spotlight Narrative, um panorama de novas tendências dramatúrgicas dos EUA, que vibrou neste domingo com um híbrido de filme de guerra com thriller de suspense: The Kill Team, de Dan Krauss. Alexander Skarsgaärd tem um desempenho memorável (e amedrontador) como vilão nesta produção derivada do documentário homónimo do mesmo diretor, lançado em 2013. A trama da ficção se baseia nas pesquisas de Krauss acerca de oficiais que cometeram crimes de abuso de poder na frente de combate, atribuindo a culpa aos seus recrutas.
Lembra duas obras de Brian De Palma, Corações de aço (1989) e Censurado (2007), ambos sobre infrações militares. Kraus confiou ao ótimo Nat Wolff o papel do recruta Andrew, um soldado ambicioso cuja voracidade por promoções faz dele um alvo das maquinações políticas do crudelíssimo sargento Deeks, interpretado por Skarsgaärd. Durante uma campanha no Afeganistão, Deeks vai enlouquecer Andrew, fazendo dele um bode expiatório para encobrir seus crimes. A montagem eleva a tensão.

Nesta quarta, Tribeca assiste a um dos melhores achados do Festival de Berlim: Skin. Nele é possível conferir toda a extensão da dimensão dramática do inglês de 32 anos Jamie Bell, que mesmo os seus mais inspirados saltos em Billy Elliot (2000) não eram capazes de alcançar. Revelado como o aspirante a bailarino confrontado pelo preconceito de um Reino Unido homofóbico, Bell levou a Berlinale por uma jornada de purgação em Skin. Embora não seja uma descoberta alemã, pois veio do Festival de Toronto, com uma esperança (não alcançada) de vaga na luta pelo Oscar, este drama baseado em fatos reais, dirigido pelo israelita Guy Nattiv (de Mabul), é o que se viu de mais possante, em critérios estéticos e éticos, em toda o festival, até agora. O seu protagonista é um supremacista branco, tatuado dos pés à cabeça, que se fartou do ódio.
“A questão não era ser assustador e sim construir uma figura sonâmbula, na letargia de uma intolerância que nos deixa sonolentos“, disse Bell ao C7nema.

O seu trabalho foi inspirado por um documentário sobre Bryon Widner, um ex-presidiário, hoje um pesquisador universitário, que ajudou o FBI a acabar com células neonazis. Na ficção, Nattiv surpreende, à direção, pelo modo no qual a sua montagem, avessa a clichés, embaralha tempos narrativos distintos. É nítida, nas várias etapas da trajetória de redenção de Widner (Bell, luminoso), a sua aversão aos crimes da família de racistas que o criou. Há um desejo de reintegração latente nele, que se amplia depois de seu encontro (apaixonado) com uma mãe solteira (a excepcional Danielle Macdonald, de Patty Cake).
Tribeca segue até domingo, quando serão conhecidos os premiados das seleções competitivas e os eleitos da votação popular. Até agora, Gully, espécie de Boyz n the hood versão 2010, centrado na violência de Los Angeles, é o favorito, seguido por Swallow, thriller psicológico sobre uma grávida que engole objetos variados. Para o público, o título mais badalado até aqui é Dreamland, no qual Margot Robbie vive uma ladra de bancos na América da Depressão.

