
Selecionar 5 filmes marcantes da Festa do Cinema Italiano é uma tarefa complicada, tal a melhoria da sua programação em relação a 2018. Se poderíamos falar no vencedor do prémio do júri (Figlia Mia) ou no preferido do público (Bangla), ou ainda em qualquer obra antiga do icónico Nanni Moretti, optamos antes por selecionar 5 filmes recentes – fora de competição – que demonstram a diversidade e variedade do cinema italiano. Do realismo social ao documentário histórico, de obras mais pessoais a trabalhos ambiciosos para o grande público, aqui ficam as nossas escolhas.
Santiago, Itália

Em ano de retrospetiva ao seu trabalho, o último documentário de Nanni Moretti, Santiago, Itália, revelou ser um peso pesado, ao viajar pelo golpe militar de Augusto Pinochet e trazer os testemunhos de muitos dos homens e mulheres que se refugiaram na embaixada italiana no país durante esse período. É um trabalho notável, que viaja não só às pequenas tragédias pessoais, mas como à queda dos sonhos de todos os intervenientes, onde inclui o próprio Moretti, que admite a impossibilidade de ser imparcial no seu relato doloroso. (ler artigo)
L’ordine delle cose

O regresso de Andrea Segre à Festa do Cinema Italiano, anos depois do seu Io Sonno Li, é através de um objeto marcante que mais uma vez acompanha a questão dos imigrantes e refugiados. Mas ao contrário do filme mencionado, L’ordine delle cose é muito mais duro e visceral na forma como apresenta a postura oficial da Itália na questão dos migrantes, os negócios obscuros com a Líbia com o apoio da União Europeia, e o sofrimento cruel que estes homens atravessam na travessia para a Europa.
Simultaneamente, o realizador – mais maturo – aplica na sua personagem principal, um alto funcionário do Ministério do Interior Italiano, especializado em missões internacionais contra a imigração ilegal, camadas e camadas de pragmatismo e cinismo, refletindo uma nova Europa presa entre o humanismo e a xenofobia.
Il Primo Re

Blockbuster a italiana, filme de época à Hollywood mas com sensibilidade autoral europeia, Il Primo Re viaja à mítica história de Rómulo e Remo na fundação da cidade de Roma, aplicando uma camada de forte realismo sem nunca esquecer o misticismo e centrando o seu tema na relação do Homem com Deus, questão que definiria posteriormente todo o Império Romano.
Matteo Rovere faz nesta grande produção um bom balanço entre os elementos, conseguindo entregar uma obra que mistura ação musculada, drama e questões filosóficas e metafísicas sem cair na plasticidade e super-heroísmos ou mártires à la Hollywood. (ler entrevista ao realizador)
Piranhas – Os Meninos da Camorra
A história de Nicola e do seu grupo de amigos, que vivem num bairro tipicamente napolitano, e começam a trabalhar para a Camorra, já tinha conquistado o Festival de Berlim e também marcou na sua passagem por Lisboa.
Esta história da perda da inocência de um jovem e a sua ascensão ao poder no seu bairro chega brevemente aos cinemas nacionais (em princípio em junho) num filme dominado pelo realismo social e onde é estabelecido o sentido trágico que quando se entra neste mundo, ou “nesta carreira”, como nos explicou o realizador Cláudio Genovesi, não se sai mais. Duro e imprescindível para qualquer fã de obras como Cidade de Deus, Scarface, Um Profeta e Gomorra.
Sulla Mia Pelle

Já está na Netflix há vários meses, mas assisti-lo em sala tem outro encanto. A história verídica de um jovem italiano, Stefano Cucchi, que é detido pela polícia e no espaço de dias morre ao cuidado dos agentes da lei, deu que falar em Itália, não só por tocar na violência policial, mas principalmente fazer um quadro muito negro da burocrática máquina judicial do país.
Alessandro Borghi canaliza um pouco da personagem de Michael Fassbender em Fome e existe um travo tragicómico da Morte do Senhor Lazaresco neste drama bem ensaiado – sem manipulações nem mártires – de Alessio Cremonini. (ler crítica)

