Morreu aos 81 anos o irlandês Peter O’Toole, um ator para sempre ligado ao seu papel em Lawrence da Arábia (1962), filme que este ano regressou às nossas salas, inserido num conjunto de clássicos que ganharam uma nova vida nos cinemas portugueses.
Nascido a 2 de agosto de 1932 em Connemara, no oeste da Irlanda, Peter Seamus O’Toole Lorcan teve uma educação católica e aos 20 anos começou a trabalhar como jornalista e fotógrafo. Em 1952 conseguiu uma bolsa de estudos na Royal Academy of Dramatic Art (RADA), onde tinha na mesma turma nomes como os de Albert Finney, Alan Bates e Brian Bedford. O’Toole começou a trabalhar no teatro, antes de fazer a sua estreia na televisão em 1954, tendo a sua primeira experiência num telefilme em 1959, com The Long and the Short and the Tall.
Em 1960 participa ao lado de Anthony Quinn em Sombras Brancas e é em 1962, com o já referido Lawrence da Arábia, que ganha protagonismo, sendo nomeado aos Óscares e aos Globos de Ouro pelo seu papel como T.E. Lawrence.
Em 1965 viria a ter nova nomeação aos Óscares pela sua participação em Becket (1964), de Peter Glenville. No mesmo ano participa em Lord Jim e What’s New Pussycat, um filme onde era cabeça de cartaz juntamente com Peter Sellers e que contou com o argumento de um tal de Woody Allen.
Em 1966 fez duo com Audrey Hepburn em Como Roubar um Milhão e um ano depois reencontra Omar Shariff em A Noite dos Generais (1967). Em 1968 trabalha com Katharine Hepburn e Anthony Hopkins em O Leão no Inverno (1968), sendo nomeado aos Óscares e vencendo o Globo de Ouro.
Seguiram-se Adeus, Mr. Chips (1969) [mais uma nomeação aos Óscares e mais um Globo de Ouro conquistado], Jogo na Escuridão (1970), Duelo à Beira do Rio (1971) e Under Milk Wood (1972) – filme onde dividia o ecrã com Richard Burton e Elizabeth Taylor.
Com Peter Medak filma em 1972 The Ruling Class, mas nesse ano ainda dá nas vistas ao lado de Sophia Loren em Man of La Mancha [sendo mais uma vez nomeado aos Globos de Ouro].
James Coco, Peter O’Toole e Sophia Loren
Nos anos que se seguem, filma como Otto Preminger O Caso Rosebud (1975) e dá nas vista em Cannes no nomeado à Palma de Ouro O Meu Criado Sexta-Feira (1975). Em 1976 surge nas salas juntamente com Charlotte Rampling e Max von Sydow em Foxtrot, um filme de Arturo Ripstein. Dois anos depois é um coronel em Golpe de Estado (1978). Ainda antes de participar no polémico Caligula (1979), O’Toole trabalha com o cineasta britânico Douglas Hickox em Alvorada Zulu (1979).
Estes últimos anos da década de 70 foram particularmente conturbados, não só porque foi obrigado a retirar parte do pâncreas e grande parte do estômago, ficando dependente da insulina e sofrendo posteriormente uma doença no sangue, como também foi um período (1979) em que se divorciou da atriz Siân Phillips, sob acusações de alcoolismo, ciúmes e «crueldade psicológica».
Os anos 80 mostram que o ator começara a perder espaço na 7ª arte e a ganhar mais tempo de antena na TV. Ainda assim, as suas participações em Supergirl (1984), Clube Paraíso (1986), Malucos e Libertinos (1988) e especialmente em O Último Imperador (1987) mostram O’Toole em grande forma, mas já longe daquilo que “vende” em Hollywood.
Nos anos que se seguiram manteve-se sempre ativo, entre o cinema e a TV, destacando-se a sua presença em filmes como Venus (2006), de Roger Michell [que lhe valeu a oitava nomeação aos Óscars], e Ratatui (2007), onde dava a voz a Anton Ego, o famoso crítico gastronómico cujas opiniões podem ditar o fim ou o sucesso dos restaurantes.
No pequeno ecrã, teve sucesso em 1999 com Joana d’Arc – A Donzela da Lorena [ganhou um Emmy] e mais recentemente na série Os Tudors (2008), no papel do Papa Paulo III.
Apesar das 8 nomeações aos Óscares, apenas seria premiado em 2003 e com o Oscar Honorário, o qual recebeu das mãos de Meryl Streep. Na altura brincou com o facto de ter perdido 7 Óscares até então e que finalmente tinha «deixado de ser uma dama de honor para finalmente ser a noiva» [e recebia finalmente o prémio].
Em 2009, e após muita ponderação, informou por comunicado que iria reformar-se e que não voltaria ao cinema e ao teatro, até porque: «A paixão para isso já não existe: eu não vou voltar (…) A minha vida profissional como ator, nos palcos e nos ecrãs, trouxe-me o apoio do público, a satisfação emocional e o conforto material. Apresentou-me a boas pessoas, boas companhias (…) No entanto, creio que uma pessoa deve decidir quando é a hora de terminar. Assim, olho para a minha profissão com os olhos secos e gratidão pela despedida».
Peter O’Toole deixa duas filhas, Kate e Patricia, fruto do casamento com Siân Phillips, e um filho, Lorcan O’Toole, de outra relação no início dos anos 80 com a modelo Karen Brown.

