Uma Família Respeitável: Irão, o país das três mil guerras

(Fotos: Divulgação)

Como todos os filmes com conteúdo, Uma Família Respeitável ataca em várias frentes. De um lado está o pano de fundo histórico mostrando, ainda que de maneira fragmentada, o conflito Irão x Iraque e uma política interna marcada pelo autoritarismo das eras de Khomeini e Khamenei. E de outro está o retrato social e moral da alta burguesia iraniana, às voltas com a falta de escrúpulos e a corrupção endémica.

Tudo isso é abrangido através da história do professor universitário Arash (Babak Hamidian), que volta ao seu país depois de 22 anos. Para além do contexto político não ser nada animador, ele será confrontado com as suas memórias e uma “família respeitável” que tentou esquecer no exílio. Tudo se passa às vésperas do chamado Movimento Verde, série de protestos iniciados em 2009 que levou milhares de iranianos às ruas para exigir alterações no comando dos destinos do país.

Irão x Iraque

Uma Família Respeitável tem dois panos de fundo históricos. De um lado está o terrível conflito de oito anos (1980-1988) mantido pelos países vizinhos. Com líderes como Saddam Hussein e o ayatollah Khomeini, a longevidade da guerra também deveu-se à pressão de países interessados em fomentá-la por razões políticas (controlo de regiões estratégicas e, no caso dos Estados Unidos, também desestabilizar o governo de Khomeini, que lhes era hostil) ou económicas (o petróleo e a venda de armas). “Eu fui fortemente influenciado pelas memórias de infância da guerra, que foi imposta ao Irão pelo Iraque com o apoio dos norte-americanos“, disse Massoud Bakhshi.

Na descrição do filme, a antiga Pérsia é o “país das três mil guerras”. “Pertenço à geração que sobreviveu aos oito longos e mortíferos anos da guerra Irão-Iraque. Para mim, o Irão é incompreensível se não levarmos em conta o que ocorreu nos últimos 30 anos. Eu não inventei o que se passa no filme, ela é a história da minha infância após a revolução de 1979, da minha adolescência durante a guerra e da minha experiência em Teerão nos dias de hoje“.

O Movimento Verde

Em 2009 uma série de violentos protestos iniciaram-se com as eleições que reconduziram Mahmoud Ahmadinejad a um segundo mandato. Tidas como fraudulentas, elas inspirariam uma longa série de protestos nos anos a seguir, conseguindo instituir algumas mudanças no sentido de tornar o país mais democrático. “O Irão tem uma das populações mais jovens do mundo – jovens formados, cheios de curiosidade e desejo de viver. Jovens que sonham com um Irão tolerante e aberto ao resto do mundo“, observou o realizador.

Quinzena dos Realizadores

O cineasta relatou à Nisimagazine a sorte que teve em ter tido seu projeto acolhido pelo Torino Lab, uma fundação pertencente ao festival de cinema da cidade italiana. Foi na instituição que ele conheceu o produtor francês que terminou por arranjar fundos para a produção do projeto. A primeira obra de ficção de Bakhshi, já um experimentado documentarista, aportou na Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes de 2012. A partir daí, já teve lançamento em alguns países, entre os quais a França. Em geral foi bem recebido. O Les Inrockuptibles deu nota máxima à obra, afirmando tratar-se de “crónica familiar e radiografia política que faz um denso retrato do Irão contemporâneo, bem escrita e realizada”.

Últimas