A estrear em Portugal com um filme belíssimo, poucos cineastas terão uma obra com a diversificação deste realizador francês, cuja carreira nas longas-metragens iniciou em 1998. A realizar praticamente um filme por ano, Ozon já abordou vários géneros e estilos cinematográficos, mas sempre de uma maneira muito particular. Os resultados, evidentemente, são variáveis (e irregulares, diriam os críticos), mas ninguém o pode acusar de conformismo. Segue abaixo um pequeno resumo da filmografia de um dos mais importantes realizadores da atualidade.
Dentro de Casa (2012)
Dizer que este é o melhor filme de François Ozon pode ser questionável e uma questão de perspetiva. Mas a verdade é que raramente um filme seu reuniu tamanho equilíbrio, beleza e assertividade no tratamento dos temas como este Dentro de Casa. A história trata da relação entre um professor de literatura do liceu (Fabrice Luchini, na sua segunda colaboração com o cineasta) e um talentoso pupilo (Ernst Umhauer). Ocorre que este é muito particular: para tratar do assunto das redações que entrega de tempos em tempos e vicia o seu mestre, ele tem de entrar na casa do seu melhor amigo e dissecar impiedosamente o seu estilo de vida de “classe média”. Mas há muito mais, num filme simples e complexo ao mesmo tempo, culminando numa bela reflexão sobre a arte, histórias e a própria vida.
Aparentemente trata-se de uma transposição de uma peça teatral de um dos mais conhecidos dramaturgos espanhóis, Juan Mayorga, El Chico de la Última Fila. Com uma história contada com grande agilidade dentro de pouquíssimos cenários, muito do sucesso de Dentro de Casa também se deve à química alcançada com os atores – de mestre-pupilo, de marido-esposa (Luchini e Kristin Scott Thomas) e também a do jovem escritor com o seu objeto de desejo, vivido por Emanuelle Seigner. Foi visto por 1.2 milhões de espectadores em França, colecionou elogios da imprensa e venceu o prémio máximo do festival de San Sebastián no ano passado.
Jeune & Jolie (2013)
Por enquanto e, excetuando-se aos eleitos que puderam em estar no Festival de Cannes (entre os quais um colaborador do C7nema – ver crítica) ou em Karlovy Vary no mês passado, pouca gente viu o novo trabalho do realizador, que estreia comercialmente em França em agosto e em Portugal… sabe-se lá quando. O que se pode saber é que se trata de uma adolescente que, pouco tempo depois de ter perdido a virgindade, torna-se prostituta.
Potiche – Rica Mulherzinha (2010)
Um dos filmes mais leves de Ozon, que aqui investe numa comédia de moldes quase clássicos. Situando a ação em 1977, podia explorar à vontade temas políticos numa época em que os sindicatos e o partido comunista ainda aterrorizavam os patrões. Um deles é o terrível dono de uma fábrica de guarda-chuvas vivido por Fabrice Luchini, um “forreta” reacionário pouco acessível às necessidades dos empregados. Por motivo de doença, no entanto, ele será substituído pela “rica mulherzinha” do infame subtítulo nacional, Catherine Deneuve. A vida toda tida como apenas um enfeite (o “potiche” do original) ela se mostrará uma líder bastante capaz.
Com um elenco de grandes nomes do cinema francês, que inclui ainda Gerard Depardieu e estrelas mais recentes, como Karin Viard e Jeremie Rennier, marcou as pazes de François Ozon com o grande público que, depois de enormes êxitos como Swimming Pool, demonstrava uma queda acentuada. Lançado no Festival de Veneza, levou 2,2 milhões de franceses às salas – sendo o 25º filme mais visto do ano. A receção da crítica foi altamente positiva e Potiche recebeu quatro nomeações ao Cesar e uma ao Bafta.
O Refúgio (2009)
Terceiro dos dramas mais pesados do realizador, que com sua forte carga simbólica estabelece conexões com Sob a Areia, de 2000, onde os personagens principais lidavam com a perda e a reelaboração da sua própria identidade, e “O Tempo que Resta” (2005), com a questão da morte e dos laços familiares.
Uma das mais conhecidas atrizes em França, Isabelle Carré (vencedora do Cesar em 2003 por Se souvenir des belles choses) é uma ex adicta cujo namorado acaba de morrer. Ao descobrir que está grávida, refugia-se numa vivenda longe de Paris – decidida a manter o bebê enquanto se trata com metadona. A visita do irmão do ex-namorado, no entanto, muda tudo. Amor, nascimento e morte são os temas centrais.
Filme simbólico e sutil, sendo talvez a coisa mais parecida que o cineasta fez com os arquétipos normalmente identificados de arthouse. Recebeu o prémio especial do Júri em San Sebastián e 116 mil franceses viram o filme no cinema, número apenas superior aos seus três primeiros filmes. A receção da crítica foi bastante positiva.
Ricky(2009)
A fragilidade e a força dos laços familiares voltam a estar presentes em Ricky, onde François Ozon navega por novos territórios – o do realismo fantástico. Depois de reproduzir de forma naturalista a vida de uma operária, a volta na história surge quando ela e um emigrante espanhol tem um bebé muito especial, Ricky… que possui asas! A partir dos conflitos familiares daí resultantes, cabe à pequena Lisa, de seis anos, manter o bom senso.
Fez parte da competição do Festival de Berlim. No elenco principal, Alexandra Lamy, que circulou nos cinemas portugueses no ano passado com Descaradamente Infiéis. Visto por 180 mil espectadores em França.
Angel (2007)
Algumas das obras do cineasta pareceriam simplesmente transportadas de uma outra era não fosse uma ironia sutil. Este filme é um deles e talvez seja dos seus exercícios mais difíceis de apreciar. Angel narra, à moda da Hollywood clássica, um melodrama envolvendo uma jovem e ambiciosa filha da proprietária de uma mercearia de uma aldeia que acaba por ser bem-sucedida na literatura. Rica e famosa, casa com o homem dos seus sonhos. Mas nem tudo é o que parece…
Filme estreado no Festival de Berlim, obteve boa repercussão em termos de crítica. Em termos de público, reuniu 173 mil espectadores no seu país e, apesar de adaptar um romance inglês com atores daquele país, teve apenas um facturamento quase simbólico em Inglaterra, onde foi lançado um ano depois. No papel principal, a atriz inglesa Romola Garai (de Expiação), com um elenco secundário com nomes como Sam Neill, Michael Fassbender e, mais uma vez, Charlotte Rampling.
O Tempo Que Resta (2005)
Um fotógrafo homossexual não tem mais que três meses de vida, recusando-se a tratar um cancro já com diversas metástases. A partir daí, vai elaborando um duríssimo processo de reorientação de sua relação com as pessoas mais próximas. O amor e a família são, mais uma vez, o tema central da obra. Um dos filmes mais pesados de Ozon, que só quatro anos depois voltaria a uma atmosfera semelhante – com O Refúgio.
Primeira colaboração com o cineasta de um dos grandes atores franceses da atualidade, Melvil Poupaud. No elenco destaque ainda para o seu segundo trabalho com Valeria Bruni Tedeschi e a participação da veterana Jeanne Moreau, um dos grandes mitos do cinema francês. Em França teve um público de 285 mil espectadores, consideravelmente menos que os seus quatro trabalhos anteriores. Já entre os críticos, só para variar, foi altamente bem recebido, tendo-se estreado na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes.
5X2: Cinco Vezes Dois (2004)
Desta vez exercício estilístico passa por contar a história dos protagonistas de frente para trás, iniciando pelo divórcio e recuperando os cinco momentos-chave que os levaram até ali. Com um forte componente sexual, narra dissolução de uma instituição na qual, em mais de um momento na carreira, Ozon mostrou-se cético.
Integrante da seleção oficial do Festival de Veneza (evento onde Valeria Bruni Tedeschi receberia um prémio), foi menos mediático que seus dois antecessores, mas recebendo mesmo assim um público de mais de 500 mil pessoas em França. A crítica, como de costume, foi altamente positiva. Tedeschi fez aqui a sua primeira colaboração com Ozon, que repetiria em O Tempo que Resta e um ano depois de estrear-se na realização com “É mais Fácil um Camelo…“.
Swimming Pool (2003)
No ano a seguir à consagração mundial com Oito Mulheres, o cineasta obteve outro dos seus grandes sucessos de crítica e público. Repetindo colaborações anteriores com Charlotte Rampling e Ludvine Sagnier, o filme abordava a história de uma escritora inglesa a sofrer de bloqueio criativo que mudava-se para uma casa emprestada no interior da França. Mas aparece por lá uma sensualíssima e liberal jovem, alegando ser filha do proprietário, que acaba com o seu sossego.
Um magnífico jogo de aparências com referências à literatura e ao processo interior do artista, temáticas também presentes em Dentro de Casa. Repleto de sensualidade, ambiguidade e mistério, termina num dos seus jogos de género típicos, a parodiar o universo policial britânico. O realizador foi particularmente feliz no casting onde, ao talento habitual de Rampling, acrescenta-se um furacão sexy chamado Sagnier, que nunca mais repetiria a proeza. As cenas de nudez renderam problemas nos Estados Unidos, onde a obra sofreu cortes por causa da classificação etária. Foi a primeira aparição de Ozon na seleção principal do festival de Cannes e reuniu perto de 700 mil espectadores no seu país.
Oito Mulheres (2002)
O grande sucesso de público e crítica de Sob a Areia deu a François Ozon estatuto para recrutar um enorme elenco de celebridades do seu país e obter um êxito à escala mundial. Algumas gerações das mais famosas atrizes francesas são representadas aqui, trazendo desde uma Danielle Darrieux com 84 anos, até Ludivine Sagnier, com 23. Entre elas, nomes como os de Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart, Fanny Ardant, Virginie Ledoyen.
Com uma história á Agatha Christie, numa comédia policial de humor negro onde as oito mulheres do título ficavam presas num casarão às voltas com o cadáver do patriarca da família, encontrado com uma faca no peito. Teve 3,5 milhões de espectadores em França, o nono filme mais visto do ano, um consenso crítico positivo e 12 nomeações aos Cesar, além de um prémio para o elenco no Festival de Berlim, onde competiu pelo Urso de Ouro.
Sob a Areia (2000)
Este filme representou um passo de gigante na carreira do realizador, que vinha solidificando o seu nome com projetos cada vez mas elogiados. A história girava em torno de uma mulher (Charlotte Rampling) cujo marido desaparecia subitamente na praia sem deixar qualquer tipo de pistas e sem que seu corpo fosse encontrado. O seu processo de elaboração da perda, construído de forma lenta entre as ruas parisienses e as praias francesas, transita entre a redefinição da identidade e a construção de uma nova vida, com citações de Virginia Woolf à mistura.
Foi o primeiro grande sucesso de público de Ozon, reunindo mais de 700 mil espectadores em França, para além de ser se primeiro filme a ter uma distribuição internacional alargada. Em termos de crítica, obteve unanimidade quase total. Foi também a sua primeira colaboração com Charlotte Rampling, que seria nomeada ao Cesar de Melhor Atriz. O prémio máximo do cinema francês também rendeu indicações nas categorias Melhor Realizador e Melhor Filme.
Gota de Água sobre Pedras Escaldantes (2000)
Outra das obras do cineasta que parecem saídas de um outro tempo – neste caso do radicalíssimo cinema autoral dos anos 60 e 70 – e, não por acaso, extraído de uma peça de um dos grandes ícones da altura, Rainer Werner Fassbinder. A construir a história ressaltando o seu aspeto teatral, trabalha os relacionamentos e, dentro destes, um dos seus temas favoritos – a homossexualidade.
Com Gota de Água sobre Pedras Escaldantes, o estatuto de François Ozon aumentou significativamente: entrou para a seleção oficial do Festival de Berlim daquele ano – onde terminaria por receber o Teddy, prémio destinado a filmes com temáticas homossexuais. O enredo girava em torno da paixão de um homem de meia-idade, nos anos 70, por um rapaz de 20 anos. Este, por sua vez, corresponde, mas continua com a relação com a sua namorada. Marca o início da sua colaboração com Ludivine Sagnier, com quem repetiria a dose em mais dois trabalhos. Um dos protagonistas é Malik Zidi, presente em Mistérios de Lisboa e As Linhas de Wellington, que recebeu uma nomeação ao César de ator promissor. A receção da crítica também foi bastante entusiástica. Em França, cerca de 70 mil pessoas viram o filme no cinema.
Les amants criminels (1999)
Les amants criminels, sua segunda longa, iniciava com uma cena de assassinato, depois de um casal de jovens ter decidido assassinar um colega. Mas as coisas começam a correr mal depois de eles enterrarem o rapaz nas florestas. O resultado disto é um tenso e bizarro filme de terror com temáticas homossexuais.
Também era o segundo trabalho de Jérémie Renier, que mais tarde se tornaria um dos rostos mais reconhecíveis do cinema francês – atualmente em cartaz com My Way. Rendeu a Ozon os seus primeiros 40 mil espctadores em França, além de algumas críticas positivas. Também teve alguma repercussão no circuito dos festivais – como o de Sitges, que voltava a lhe conceder prémios – desta vez o de Melhor Argumento.
Sitcom (1998)
A primeira longa-metragem de François Ozon, Sitcom, surgiu em 1998. Como o título indica, trata-se de uma comédia no estilo das séries televisivas norte-americanas, mas levadas uns tantos pontos adiante. No cardápio de tons surrealistas, o despertar sexual de uma família de classe média quando o patriarca chega em casa a trazer um rato branco. O filho revela-se homossexual, a filha começa a praticar sado-masoquismo com o namorado e a mãe tenta seduzir o próprio filho para “curá-lo”… No circuito dos festivais, Évelyne Dandry levou o prémio de melhor atriz em Stiges. Um dos poucos trabalhos de Marina de Van como atriz, cujo um dos seus trabalhos na direção, Não Olhe para Trás, teve lançamento comercial em Portugal no ano passado.

