Paixão: crime, sensualidade e vingança, a receita afrodisíaca de Brian de Palma

(Fotos: Divulgação)

Este remake de um filme francês de 2010 (Crimes d’Amour) realizado pelo veterano Brian de Palma, e cuja qualidade varia conforme a perspetiva, é particularmente bem-sucedido ao criar uma relação sensual e ambígua entre duas mulheres. Os seus primeiros minutos são particularmente divertidos, quando Christine (Rachel McAdams) e Isabelle (Noomi Rapace) confraternizam e se embebedam numa reunião de “trabalho” na casa da primeira. Esta relação dá o tom ao que de melhor o filme oferece – a ambiguidade da relação entre as protagonistas. Mas um elemento novo logo surge entre elas: o ódio absoluto – quando Isabelle decide que já aturou demais uma chefe que lhe rouba as suas ideias e o seu amante.
O filme foi apresentado mundialmente no Festival de Veneza do ano passado, passando pelo Lisbon & Estoril Film Festival dois meses depois. Só para variar entre os últimos lançamentos do realizador, a obra tem dividido completamente os críticos. Ainda sem estrear nos Estados Unidos, o filme recebeu, entre aqueles que o viram no certame italiano, avaliações positivas (Indiewire, Slant Magazine) e negativas (Variety, Hollywood Reporter).

Mais positiva, ainda que igualmente polarizada, foi a receção em França, país onde já teve lançamento comercial. Entre estas, surpreende a da revista Les Inrockuptibles, que deu nota máxima a Paixão, no que foi acompanhado por mais alguns veículos importantes. Também o Cahiérs du Cinema, velhos fãs do cineasta norte-americano, renderam-lhe elogios, assim como o Le Monde e vários outros órgãos especializados. Em termos de público foi visto por 132 mil espectadores e arrecadou € 911 mil. Com um custo de U$ 30 milhões e com um lançamento limitado nos Estados Unidos (previsto para o final de agosto), é bem provável se estar diante de um novo fracasso financeiro do realizador.

Crimes de amor

Último trabalho do cineasta francês Alain Corneau, falecido em 2010, o mesmo ano em que o filme estreou, Crime d’Amour tinha Kristin Scott Thomas como uma executiva manipuladora que abusava das qualidades da sua assistente, Ludivine Sagnier, até que essa fartou-se do tratamento dispensado e resolveu ir à luta. Vale dizer que o filme de Brian de Palma subverteu totalmente o enredo num momento crucial, ao mesmo tempo que as suas modificações permitiram a Rachel McAdams e Noomi Rapace levarem a um relacionamento de erotismo e sedução muito mais pronunciado do que no original.

O século XXI e a carreira errática de Brian de Palma


A essas alturas é de admirar sua persistência depois de mais de uma década de falhanços sucessivos. Essa é a razão, conforme o próprio explicou, para que só depois de cinco anos após Censurado conseguisse estrear outro filme. Se a receção da crítica tem sido oscilante, a do público tem sido invariavelmente má.

Os problemas começaram em 2000 com Missão a Marte, onde tentava a sua primeira incursão pelo universo da ficção científica. Essa missão de resgate a um grupo de astronautas perdidos no planeta vermelho, às voltas com um segredo que poderia mudar a história da humanidade e com um elenco liderado por Gary Sinise e Tim Robbins, não chegou a ser um flop estrondoso, embora esmagado pelos críticos. Mas, bastante emblemático do século XX do realizador, foram duas menções completamente antagónicas: rendeu uma “nomeação” à nada desejável Framboesa de Ouro (categoria Pior Realizador) ao mesmo tempo que entrava para a lista de melhores do ano da Cahiérs du Cinema!

A França parecia território mais seguro para situar a ação (e levantar os financiamentos) da obra que faria a seguir, Mulher Fatal, que tinha Rebecca Romijn-Stamos no papel de uma ladra sedutora e a dividir o protagonismo com Antonio Banderas. Novamente a crítica dividiu-se, mas o público não: condenou o filme ao fracasso financeiro, ainda que os € 2 milhões arrecadados em França não tenham sido de todo maus. O problema é que, mundialmente, nem arrecadaria metade dos seus custos.

Os espectadores também não ajudaram no seu trabalho seguinte, A Dália Negra, uma confusa história noir com Josh Hartnett e Aaron Eckardt nos papéis principais – numa obra destroçada pelos críticos. Ainda assim, obteve uma nomeação ao Oscar, na categoria Melhor Fotografia.

Já bem longe dos grandes orçamentos, o cineasta lançou em 2007 Censurado, sobre as atividades dos soldados norte-americanos no Iraque e a cobertura dos eventos pela imprensa. Novamente polarizado, manteve-se na alta conta dos seus velhos fãs dos Cahiers, que o puseram na lista dos melhores filmes de 2008. O crítico do New York Post, por sua vez, disse que poderia ser um “dos piores filmes alguma vez feitos“. Não se sabe o quanto o retrato negativo da política externa norte-americana pode ter pesado nas avaliações dos especialistas de um país onde o nacionalismo é importante, mas certamente o seu conteúdo de esquerda condicionou a sua distribuição. Neste aspeto, a “democracia” norte-americana não brinca. O falhanço financeiro da obra dificultou o financiamento dos futuros projetos do realizador até esse Paixão.

Anos 70/90: a “belle époque”


Steven Spielberg, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola foram alguns dos ilustres companheiros de jornada de Brian de Palma e da famosa safra de cineastas norte-americanos surgidos nos anos 70. Era a primeira geração cinéfila, saída das primeiras escolas de cinema nos Estados Unidos. Eles tinham uma origem muito diferente dos antigos mestres de Hollywood, que podiam começar como varredor do estúdio e, com sorte e talento à mistura, podiam chegar a realizador. Deste belo grupo de jovens realizadores, ninguém trabalhou com mais paixão do que de Palma sobre as novíssimas referências que um estudo aprofundado e inédito dos clássicos trouxe.

Particularmente com Carrie, em 1976, cujo aproveitamento das regras do suspense e da montagem dos clássicos gerou um dos finais mais inesquecíveis da história do cinema, o cineasta inaugurou um período incrivelmente fértil que o tornaria um dos mais emblemáticos realizadores dos anos 80 – com títulos como Vestida para Matar, Scarface, Blow Out, Testemunhas de um Crime e um dos grandes hits da década, Os Intocáveis outro particularmente bem-sucedido numa homenagem fantástica à famosa cena da escadaria de O Couraçado Potemkim, de Sergei Einsenstein.

Os anos 90 começaram mal, com o tiro ao lado que foi a adaptação de A Fogueira das Vaidades, o grande best-seller da altura. Seguido pelo modesto Em Nome de Caim, o bastante bom Perseguido pelo Passado (com o “scarface” Al Pacino a fazer de criminoso retirado), Brian de Palma teve seu canto de cisne de críticas e bilheteiras com o primeiro Missão Impossível, de 1996 – o maior êxito comercial da sua carreira.

Com Olhos de Serpente, lançado em 1998, o realizador finalizou o século passado com um filme que tinha um Nicolas Cage ligado à corrente a fazer de polícia corrupto. Receções controversas entre os críticos e êxito moderado de público davam o tom de que a trajetória descendente começava.

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