Balanço final do Fantasporto 2011

(Fotos: Divulgação)
Fazer um balanço da edição deste ano do Fantasporto não é coisa fácil. Em análise fria, pode-se dizer que foi um festival muito inferior ao que estamos habituados.  Menos filmes (camuflados em centenas de curtas metragens que dão a sensação de mais), muitos deles em exibição poucos dias antes da sua estreia nacional (o que desvirtua o espírito de exclusividade de um festival de cinema) e muitos problemas em termos práticos. Já atribuir responsabilidades não será fácil nem relevante (nesta altura), mas é uma pena assistir ao festival neste formato diminuído.
 
Os pontos positivos foram os mais previsíveis. O cinema asiático é fortíssimo e qualquer festival que vá beber a esta fonte terá sempre alguns títulos fenomenais. ‘The Housemaid’, ‘I Saw the Devil ‘e ‘Bedevilled’ continuaram a tradição de qualidade comercial e artística do cinema da secção Orient Express. Inclusive a julgar pelo apreço que o público tem pelo cinema asiático, é claro que haveria uma enorme recepção para um festival exclusivamente dedicado a filmes do outro lado do mundo.
 
Outro ponto, também por si positivo, foi a presença do filme-choque ‘A Serbian Film’. Esta obra que ultrapassa todos os limites do bom senso cinematográfico foi um forte catalisador para o festival. Essa é a virtude de ‘Serbian Film’: provoca incêndios e comoção em todos os festivais onde passa. Sendo um filme que divide os fãs do cinema fantástico (entre os que aplaudem a sua ousadia e os que o consideram apenas um “exploitation film” com muita lata),  esta foi uma aposta bem conseguida.
 
O resto da selecção contou com alguns produtos regulares e interessantes – ‘The Last Employee’, ‘Two Staring Eyes’ ou ‘Exorcismus’ foram sinais de uma produção regular do cinema fantástico europeu. No entanto, algumas destas apostas saíram furadas. ‘Sufferosa’ – o tal filme interactivo da Polónia – teve direito a duas sessões e foi uma enorme desilusão. Provavelmente a proposta mais aborrecida e desinteressante do certame. O filme de abertura – ‘The Resident’- ganhou destaque por ser quase uma antestreia mundial mas revelou ser um filme tão previsível e pouco ambicioso quanto parecia na sua promoção. Vai acabar por ser lançado directamente para vídeo nos EUA, apesar de ter três actores conceituados, destacando-se Hillary Swank.
 
O filme de encerramento, “Season of The Witch”, tem sido dizimado pela crítica, isto apesar de ter Nicolas Cage. Vai acabar também por estrear esta semana, o que transforma (de novo) o Fantasporto apenas numa antestreia paga.
 
Todos os anos o Fantas conta também com muitos filmes em regime de antestreia nacional. Produtos muito mais comerciais que estreiam no festival pelas mãos dos seus distribuidores nacionais. Se isto pode ir contra a essência do festival (o que procuramos num festival é ver filmes que não encontramos nas salas comerciais…), é apesar de tudo uma aposta compreensível para tornar exequível o festival. No entanto, não foi positivo no caso de filmes como ‘127 Hours’, ‘Exorcismus’ e ‘The Tempest’, todos eles filmes que estrearam nas salas na mesma semana em que passaram no Fantas (sendo assim uma mera antestreia paga). “The Tempest’ e ‘Camino’, entre outros, até podiam ser encontrados em Video-on-Demand.
 
Se esta situação prejudica o festival, ela atingiu o auge no caso de ‘Splice’ de Vincenzo Natali. O filme – que já no ano passado provocou dissabores no certame (pela sua ausência) – surgiu no festival com um dia de atraso em relação à sua estreia nas salas. Esta situação é perfeitamente inadmissível – independentemente de quem for a culpa. Transmite uma má imagem do festival e da distribuição de filmes, e fragiliza o circuito cinematográfico e da sua credibilidade junto do grande público.
 
E será que ainda vale a pena falar do caso ‘The Chameleon”? Como pode um filme estar na Semana dos Realizadores quando a versão que se apresenta no Festival foi feita pelos produtores à revelia de quem o dirigiu, Jean-Paul Salomé? Não tem sentido, voltamos a frisar, e dá uma péssima imagem de gestão.
 
Destaque negativo ainda para dois pontos. Um prende-se com a presença de muitas obras no pequeno auditório sem legendas, algo que torna os filmes inacessíveis a muitos. E se em filmes como “Zombie Undead”, essa diferença não se nota muito, em obras como “TiMER” notou-se na audiência: pouco mais de 20 pessoas, num filme diferente (uma comédia romântica), mas perfeitamente inserida no género do cinema fantástico. O lançamento de um novo site do Fantasporto, ou antes, de um novo visual, a meio do certame, também não dá – de todo – a imagem de um Festival que é essencial na nossa cultura.
 
Uma última nota vai para os filmes que se esperava encontrar no Fantas e que não marcaram presença. À cabeça claramente podemos destacar ‘Rare Exports’ (vencedor de Sitges com pai natal assassino), ‘Sint’ (outro pai natal Malévolo), ‘The Silent House’ (filme-sensação de muitos festivais do género), “The Troll Hunter (que até tem distribuidora nacional) ou até títulos ainda mais óbvios como ‘The Ward’ (o regresso de John Carpenter) ou ‘My Soul to Take’ (novo filme de Wes Craven que apesar de ser muito fraco iria de encontro às expectativas do público do festival). Todas estas ausências podem ser justificadas, mas o facto de outros dois títulos estarem confirmados para uma mostra de cinema fantástico, em Lisboa, daqui a uma semana, já mostram que o Fantas também deixou passar intencionalmente filmes que o seu público esperava: refiro-me a ‘Tucker and Dale vs Evil’ (delirante comédia de terror) e ‘Hatchet 2’ (talvez o ‘slasher’ mais genuíno do ano).
 
Para além disso, podíamos ter visto ‘Monsters’ ou ‘Never Let Me Go’, duas obras do cinema fantástico com um tom de dramas independentes que poderiam atrair outro género de público.  Ambos têm distribuidor nacional, o que facilitaria (teoricamente as coisas). E porque não ‘Buried’, o filme sensação de Rodrigo Cortés, que curiosamente vai abrir a tal Mostra de cinema em Lisboa? 
 
E já agora. Onde andam as antigas extensões do Festival a outras cidades? Não seria bom para o Fanstasporto surgir em outras salas do país?
 
Em última análise, o festival em si pareceu muito menos. Só as duas salas do Rivoli (mais Espaço Cidade do Cinema), menos promotores e menos público, qualquer que sejam os valores apresentados pela organização. Certamente sinais da crise e dos problemas de financiamento(num país cada vez menos interessado na cultura), mas fica a ideia que mesmo assim o festival podia e devia ter feito muito melhor.
 
O Fantasporto é um dos mais importantes certames em Portugal, mas não se pode constantemente apenas criticar os governos e a imprensa, quando nitidamente este se torna num evento cada vez mais regional e mais pobre nas escolhas dos seus filmes… 
José Pedro Lopes & Jorge Pereira & Margarida Proença

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