Tão singular quanto seu próprio filme, que aborda a sexualidade feminina sobre o prisma de uma burguesa (vivida por Juliette Binoche) que ao entrevistar prostitutas se dá conta do seu vazio emocional, foi a passagem da realizadora polaca Malgorzata Szumowska pelo festival Tribeca, em Nova Iorque. Lá fez interessantes comparações entre o modo do cinema norte-americano, a nível de censura, de público e de imprensa, e a forma mais livre como a arthouse europeia aborda o tema da sexualidade. “Elas”, por exemplo, ganhou nos Estados Unidos uma classificação da censura que o impede de ser exibido em cinemas multiplex!
Conforme relata a autora, a ideia para o projeto partiu da produtora francesa Marianne Slot, que desejava realizar um filme sobre as universitárias que faziam sexo por dinheiro. Este desejo coincidiu com o de Szumowska, que na altura tinha uma vaga ideia para abordar no cinema o tema da sexualidade feminina. Depois de dois anos de trabalho de pesquisa, com entrevistas e leitura de artigos, em parceria com a argumentista francesa Tine Byrckel o guião foi finalizado.
O choque que sofre a personagem de Juliette Binoche no filme afetou primeiro a realizadora, quando descobriu jovens que não tinham qualquer vergonha em fazer o que faziam – nem tampouco justificava o “trabalho” com uma necessidade desesperada por dinheiro. A história de Alicia (Joana Kulig), por exemplo, é inteiramente verídica.
“ELAS” E A MORALIDADE NORMATIVA DO CINEMA NORTE-AMERICANO
Numa entrevista a Huffington Post, a cineasta fez interessantes comentários sobre a relação entre cinema e sexualidade na América – relacionados ao seu filme.
Assim, ela fez comentários sobre uma das críticas que o filme sofreu, a de não ter mostrado a realidade das jovens que se prostituíam. “Eu não tinha interesse em fazer um filme sobre isso. O filme era sobre Anna e como a experiência delas influencia a sua vida. Um filme sobre as garotas que se prostituem seria algo diferente. Tal como nos filmes americanos, teríamos que achar razões para elas fazerem isso, como o fato de terem pais terríveis, por exemplo, ou ter tido uma experiência traumática na infância. Eu não queria fazer um filme deste tipo”.
Já quando inquirida sobre que “tipo de mensagem” queria passar para os espetadores, saiu-se ainda melhor. “Não existe uma mensagem. A ideia é colocar questões incómodas, sobre sociedade, solidão, sexualidade… Eu não sei as respostas, não julgo a situação. Eu quero que as pessoas deixem o cinema a pensar por elas próprias nestas questões. Talvez na América existe um ponto de vista diferente no cinema – muito moralista, sempre a dar respostas. ‘Isto é bom e isto é mau e você tem que ser uma pessoa boa’ – e esta é a mensagem. Eu não faço filmes com mensagens, apenas ponho questões”.
Para as cenas de sexo, ela admitiu ter visto alguns filmes pornográficos como inspiração, género que nunca a tinha interessado. Mas a principal influência foi, no entanto, o filme de Patrice Chéreau, “Intimidade”.
AS MULHERES DE “ELAS”
Malgorzata Szumowska concorreu ao prémio do Júri em Sundance com “Ono” (2004) e venceu na mesma categoria em Locarno com “33 sceny z zycia” (2008).
Juliette Binoche já entrou em quatro projetos depois deste “Elas”, um dos quais, “Cosmopolis”, já exibido nos ecrãs portugueses. Ainda inéditos estão “La Vie d’Une Autre”, onde contracena com Matthiew Kassovitz, “À Coeur Ouvert”, obra com locações na Argentina lançada em França em Agosto, “Camille Claudel – 1915”, nova abordagem (desta vez por Bruno Dumont) da personagem já vivida por Isabelle Adjani em filme homónimo nos anos 80.
Já Anaïs Demoustier, que já foi indicada a dois César e já venceu em Karlovy Vary, entra em “Thérèse Desqueyroux”, versão do livro de François Mauriac por Claude Miller – com Audrey Tatou no papel principal. Também entra numa produção americana, “Bird People”, realizada por Pascale Ferran e prevista para 2013.
Início da carreira internacional da atriz polaca Joana Kullig, que entra também na obra do seu conterrâneo Pawel Pawlikowski, “The Woman in the Fifth”, com Ethan Hawke e Kristin Scott-Thomas. Em Janeiro de 2013 é lançada a sua estreia nos cinema norte-americano, com um papel secundário em “Hensel & Gretel – Witch Hunters”, com Jeremy Renner e Gemma Arterton.
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Realizadora: Malgorzata Szumowska
Elenco: Juliette Binoche, Anais Demoustier, Joanna Kulig {/xtypo_rounded2}

