Exclusivo: Jason Reitman fala ao c7nema sobre «Jovem Adulta» e «Labour Day», o seu novo projeto

(Fotos: Divulgação)

Jason Reitman fala ao c7nema sobre Jovem Adulta, desvenda elementos do seu novo projeto «Labour Day» e garante:
 

«As pessoas não mudam» 

 
 
 Jason Reitman
 
Até que ponto a música é uma presença indispensável nos meus filmes?
 
Para mim, a música é uma peça fundamental nos meus filmes. Ponto final. Mas neste caso tem a ver com o guião da Diablo, pois toda essa devoção está muito bem escrita na página. E os Teenage Fanclub estão no guião. Por isso, nesse capítulo, não inventei nada. Como queria fazer um filme sobre esta era, sobre os anos 90 que nos é muito próximo.
 
E porquê os Teenage Fanclub?
 
Como digo, foi uma escolha da Diablo, mas uma boa escolha. Não sei se sabe, mas a revista Spin considerou-os a banda mais importante do mundo uma semana antes de ser editado o álbum Nevermind dos Nirvana… (risos) O que lhes dá uma peculiaridade interessante. Representam um momento muito específico no tempo, do grunge dos anos 90. Foi uma escolha muito inteligente da Diablo, porque a Mavis (Charlize Theron) também está presa num momento do tempo. Ela quer tanto regressar àquele momento no temo em que tudo fazia sentido na vida dela. E essa banda foi importante nessa altura, mas depois desapareceu.
 
No seu caso, teve alguma música ou banda que teve um significado especial para si num determinado momento do tempo?
 
Foram tantas musicas que marcaram momentos importantes. Tenho playlists com momentos importantes… Uma música medíocre pode ser muito emotiva por representar um momento. Veja por exemplo, o Forever Young, dos Alphaville, pode ser muito emotivo num determinado contexto… (risos) A mim faz-me sempre chorar, mas para um miúdo de 16 anos ela não terá qualquer contexto.
 
A partir do guião, a escolha de Charlize era já óbvia?
 
Sim, eu só avançaria se ela estivesse a bordo.
 
A Diablo também pensou nela ao escrever o guião?
 
A Diablo nunca pensa em atores quando escreve, pois acha que é algo arrogante. Já eu, quando escrevo, penso sempre em atores. Ajuda-me a encontrar a voz no filme.
 
A personagem de Charlize veio apenas do guião ou talvez de alguém que conheça?
 
A mim faz-me lembrar eu próprio nessa altura, mas também muitos amigos meus. Mas gostei dela por querer perceber em que ponto estava a vida dela. Ela era daquelas pessoas com a justificação certa, mas as ações erradas.
 
Como é a Diablo?
 
Muito conservadora e simpática. Muito diferente da imagem que tem. Toda a gente presume que eu sou o bem comportado e ela a durona, mas é ao contrário. Ela é uma mãe muito simpática.
 
Este é um filme sobre pessoas que não mudam. Gosta disso?
 
Gosto. Porque é a verdade, as pessoas não mudam. Só mudam quando são forçadas a isso. Acho que só quando ficam sóbrias é que percebo mudanças nas pessoas. As pessoas que deixam de fumar, de beber… mas que passam por um processo tão duro. Acho que é por isso que percebo que as pessoas não mudam. Mutas mudam durante uma semana, podem ser vegetarianas durante uma semana depois de terem visto um documentário sobre a forma como se faz ‘fast food’. Mas a verdade é que vemos muitos filmes em que pessoas têm mudanças radicais. Eu não acredito nisso.
 
 
 Charlize Theron e  Jason Reitman
 
É um pessimista? Foi propositada a falta de um final feliz?
 
Eu sou um realista e não faço os filmes para me sentir melhor. Faço-os para compreender melhor a minha vida. Os filmes que têm finais felizes desnecessários não mudam a minha vida, não me fazer pensar. O «Wall-E» tem um final feliz e eu adoro o «Wall-E». Seria terrível se «Shampoo» (1994) tivesse um final feliz. Seria terrível.
 
O Patton disse-nos que era um trabalhados compulsivo. É por uma paixão pelo trabalho?
 
Eu gosto de estar com a minha filha e fazer filmes. É isso. Gosto de ver filmes, claro, de os fazer, de os montar. De todos os processos. A esse propósito lembro-me de vir a festivais de cinema que eram um local onde podíamos ver cinco filmes num dia sem que ninguém fizesse pouco de nós (risos)
 
Já foi nomeado quatro vezes para os Óscares. Ficou aborrecido de ter sido esquecido deste vez?
 
Por mim, não. Já tive esse privilégio. Mas tive pena pelo Patton Oswald. Queria mesmo que fosse reconhecido o trabalho dele. É muito complicado e as pessoas não se apercebem como é complicado. E também pela Charlize, apesar de já ter sido distinguida. Mas acho que teve um trabalho fenomenal, que é bem melhor do que colocar uma cabeleira postiça e um sotaque diferente. E queria também pela Diablo. Esta e a prova de que ela não é autora de um único trabalho. Vai agora realizar o primeiro filme dela.
 
Sempre quis ser realizador?
 
Nem sempre. Tive um momento em que cheguei mesmo a entrar numa faculdade de Medicina. Curiosamente foi até o meu pai (o realizador Ivan Reitman) quem me convenceu a fazer cinema.
 
O que nos pode dizer sobre Labour Day?
 
É um projeto com a Kate Winslet e o Josh Brolin, baseado num livro de Joyce Maynard, que escreveu «To Die For», com a Nicole Kidman. É um drama romântico negro, sem comédia, sobre uma mulher que alberga um condenado durante um fim de semana, juntamente com o seu filho de treze anos. Começamos a filmar e junho no Massachusetts.

Paulo Portugal, em Berlim

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