Karlovy Vary: Juliette Binoche emociona-se com Krzysztof Kieślowski e Jeffrey Wright celebra Jean-Michel Basquiat

(Fotos: Divulgação)

Presente em Karlovy Vary para receber o Globo de Cristal pelo contributo artístico para o cinema mundial na cerimónia de encerramento, Juliette Binoche apresentou hoje, perante o público checo, uma sessão especial de Três Cores: Azul, de Krzysztof Kieślowski.

“Dois anos antes do início das filmagens, conheci uma mulher que tinha perdido o marido e o filho, Justin. Por isso, quando li o argumento de Azul, quis fazer o filme. Já tinha conhecido Krzysztof — ele queria que eu participasse em A Dupla Vida de Véronique, mas não pude, porque estava a filmar Os Amantes de Pont-Neuf. De certa forma, foi fácil para mim representar em Azul, porque trazia Justin dentro de mim, depois de ter ouvido falar tanto dele”, afirmou a atriz sobre o seu papel como mulher de um compositor que perde a família num acidente de viação.

“Krzysztof era humilde, um trabalhador comum e incansável. Concentrava-se intensamente nos pormenores, e era através desses pormenores que contava as suas histórias”, acrescentou, ironizando com as lágrimas que lhe caíram dos olhos quando recordou o cineasta falecido aos 54 anos: “É irónico estar agora a chorar, porque, durante as filmagens, ele estava sempre a dizer-me: ‘Nada de lágrimas.’ Só chorei no plateau no primeiro dia, durante a cena inicial no hospital.”

© Film Servis Festival Karlovy Vary

Além desta apresentação, a atriz marcou ainda presença, na passada quinta-feira, numa conversa na nova secção Talks do festival, abordando principalmente o seu documentário In-I in Motion, um projeto que revisita o processo de criação do espetáculo teatral In-I (2007), encenado por Binoche e pelo dançarino e coreógrafo britânico Akram Khan, que combinava interpretação e dança.

“Robert Redford viu a nossa performance em Nova Iorque e sugeriu que a transformássemos em filme”, disse Binoche ao C7nema, no último Festival do Rio, sobre o projeto. “Tínhamos vídeos dos ensaios, mas era importante não saber o que surgiria dali, pois trata-se de uma narrativa que se insurge contra o controlo. Nas suas entrelinhas políticas, dado o ethos do contemporâneo, o toque sem permissão prévia — que já não parece bem-vindo — apareceu como caminho. Hoje, não parece ‘dentro das regras’ o facto de uma mulher se lançar sobre um homem, mas podia ser interessante desafiar isso na nossa coreografia, para levantar questões.”

Quem também será celebrado este sábado na cerimónia de encerramento do Festival de Karlovy Vary, desta feita com o Prémio do Presidente, é o ator Jeffrey Wright, que já hoje marcou presença numa sessão especial de Basquiat, de Julian Schnabel, que o próprio apresentou pessoalmente em Karlovy Vary em 1997.

© Film Servis Festival Karlovy Vary

“É com enorme satisfação que podemos agora celebrar aqui a vida de Jean-Michel Basquiat. Por duas razões: na sua essência, ele personificava o poder da liberdade, da criatividade e da fidelidade a si próprio. Falava daquilo que a América ambiciona ser — um farol de liberdade, da liberdade de concretizarmos quem somos e quem podemos vir a ser. Era filho de imigrantes e acabou por se tornar, talvez, o artista mais popular e influente dos últimos cinquenta anos. A sua história não era muito conhecida antes da estreia do nosso filme, e fico feliz por ter ajudado mais pessoas a conhecê-lo. O filme também demonstra o poder da narrativa. Sim, é sobre a vida de um jovem artista. Mas também nos fala através da sua humanidade, que nos une a todos”, afirmou o ator sobre o filme que lançou a sua carreira.

“Ironicamente, acabei por participar noutro filme sobre Basquiat, Samo Lives, cujas filmagens terminámos no outono. Kelvin Harrison interpretou Basquiat de forma brilhante nesse filme. Interpretei o papel do pai dele; pelos vistos, já tenho idade para isso. Talvez regresse no próximo ano com esse filme”, disse o ator ao despedir-se.

O Festival de Karlovy Vary prossegue até 11 de julho.

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