Recuperado pela retrospetiva 60/80 no Festival de Karlovy Vary, Lissy é um belo exemplar do cinema da RDA dos anos 1950, que se manifestava profundamente antifascista, pedagógico e politicamente orientado, usando o melodrama para construir uma leitura histórica. A Lissy titular não é uma heroína comum, mas alguém que vê, demasiado tarde, a sua passagem íntima para uma situação de conforto tornar-se cúmplice da barbárie.
No filme, baseado no romance Die Versuchung — em português, A Tentação — de Franz Carl Weiskopf, o realizador Konrad Wolf regressa à Alemanha dos anos 30 através de Lissy, jovem de origem operária que, mesmo perante as dificuldades económicas do país, casa com Alfred, acreditando que a vida pode melhorar. Porém, a crise económica, o desemprego e a promessa de ordem por parte do emergente Partido Nazi empurram o marido para a rede do Führer. O filme acompanha o fascismo como contaminação quotidiana, que entra pelo medo e pela frustração, e transforma-se no desejo de subir na esfera social e económica.
A presença do filme na história de Karlovy Vary é significativa. Premiado no festival em 1957, Lissy mostra como a competição funcionava também como espaço de legitimação das cinematografias socialistas da Europa Central e de Leste.
Um filme sobre a sedução da normalidade quando esta já começou a apodrecer. E isso, infelizmente, nunca deixa de ser atual.

