Karlovy Vary 60/80: “The Outsiders” e a miséria sem redenção de Mrinal Sen

(Fotos: Divulgação)

Mais um dos clássicos exibidos na retrospetiva Karlovy Vary 60/80, em Oka Oori Katha, conhecido internacionalmente como The Outsiders, Mrinal Sen adapta ao cinema Kafan, de Munshi Premchand, deslocando a história do Uttar Pradesh para Telangana, como que querendo dizer que a miséria não pertence a uma geografia, a uma estação do ano ou a uma tradição específica, mas a uma estrutura de opressão que muda o rosto, mas nunca a lógica.

No centro do enredo estão um pai e um filho que vivem à margem de uma aldeia, presos a uma pobreza tão extrema que já nem conseguem acreditar no trabalho como promessa de dignidade. A sua recusa em trabalhar surge assim não como preguiça, mas uma sabotagem à ética capitalista do trabalho que, para eles, apenas serve para alimentar os proprietários que os exploram. Se trabalhar é saber que se vai continuar pobre, e se obedecer é permanecer no terreno diário da humilhação, então a recusa torna-se o derradeiro ato de insubmissão.

Afastando-se do cinema social de maior compaixão, Sen nunca santifica os seus oprimidos, nem dá qualquer aura de tragédia nobre à pobreza. No seu cinema, a pobreza extrema corrói as pessoas a tal ponto que estas se tornam incapazes de imaginar um futuro diferente.

The Outsiders

A entrada de Nilamma na história, uma mulher com quem o filho casa, ainda traz ao filme uma hipótese de vínculo, continuidade ou mudança, mas essa possibilidade entra imediatamente em conflito com a herança de uma miséria que já deformou e destruiu o ferramental moral e ético.

A construção formal de Sen, radicalizada no final pela queima da própria película, traduz visualmente a secura e a aspereza das personagens, recusando o melodrama e impondo um distanciamento crítico que impede o espectador de se instalar num registo passivo de piedade. 

Distinguido com o Prémio Especial do Júri em Karlovy Vary em 1978, The Outsiders encaixa na história do festival e do cineasta na luta contra a opressão. Ele, aliás, sempre fez dessa opressão a matéria central do seu cinema, bastando pensar em Calcutta 71, onde a pobreza, a fome e a violência de classe atravessam a história indiana como acusação direta a uma sociedade estruturalmente injusta. 

Mas aqui, ao contrário de outros filmes exibidos na retrospetiva KV 60/80, como em Blood on the Land ou No Peace Under the Olive Tree, onde a terra servia de palco para a revolução, já nem existe o desejo de nivelar as classes. O que encontramos é a desistência, onde a recusa do trabalho, da comunidade e do futuro surge como resposta a um sistema que tornou todas essas palavras inúteis.

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