A culpa dos homens comuns regressa a Karlovy Vary em “Cold Days”, de András Kovács

(Fotos: Divulgação)

Numa das frases finais mais devastadoras do filme húngaro Cold Days (1966), um dos homens detidos observa a perversão da utilização de uma técnica, recordando que aquilo que aprendera na escola naval para o bem — abrir buracos no gelo com TNT para evitar cheias ou pescar — acabaria por ser convertido num instrumento de massacre.

Essa transformação interessa particularmente a András Kovács, cineasta húngaro nascido na Roménia, que viu neste filme a possibilidade de mostrar o fascismo não como algo demoníaco ou supra-humano, reduzido a uniformes e símbolos, mas como algo humano, psicológico, recorrente, capaz de regressar noutras formas históricas.

Com as devidas diferenças e focos em períodos distintos da história hungara, tanto o cinema de Kovács como o de Miklós Jancsó, nome maior desta época, mostravam muito interesse na natureza e no poder dos mecanismos de opressão.

Em Cold Days, exibido em Karlovy Vary na retrospetiva Out of the Past – KVIFF 60/80, centrada nos filmes que marcaram as 60 edições do festival checo inaugurado há 80 anos, Kovács incide na questão de como homens comuns participam num  sistema de violência e, sobretudo, que linguagem usam depois para se absolverem dos crimes. Nesse sentido, o filme não funciona tanto como reconstituição linear do massacre de Novi Sad, um evento real, mas como um dispositivo em que quatro homens, à espera do julgamento, vão contando as suas histórias, desmontando as suas percepções, para tentarem sobreviver à culpa.

A fotografia a preto e branco, austera e fria, reforça uma distância emocional no espectador perante estes homens encerrados que, em conversa, partem para sucessivos flashbacks. Neles, a memória é trabalhada como algo contaminado, pois naquilo que recordam, aquilo que dizem e aquilo que deslocam para a responsabilidade da cadeia de comando ou para a obediência militar, existe sempre uma tentativa de justificação e isenção pessoal da culpa.

Distinguido em Karlovy Vary em 1966, Cold Days estava isento de qualquer heroísmo reparador ou catarse, preferindo antes centrar-se em homens encerrados nas suas versões, que tentam convencer a lei, os outros e, sobretudo, eles próprios de que ainda existe neles alguma forma de inocência.

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