Filmado no rescaldo da Primavera de Praga, em 1968, Birds, Orphans and Fools foi considerado “não socialista” pela comissão do Ministério da Cultura eslovaco, e proibido na Checoslováquia até ao final do regime comunista, apenas sendo exibido no Festival de Karlovy Vary em 1990, onde ganhou o Prémio FIPRESCI. Regressa agora em 2026, numa cópia restaurada, com a mesma irreverência de sempre, inserido na retrospetiva Out of the Past – KVIFF 60/80, centrada nos filmes que marcaram as 60 edições do festival checo inaugurado há 80 anos.
Para compreender o filme, há que situar a posição do seu realizador, naquilo que se denominou de Nova Vaga Checoslovaca, representando este o seu lado mais pagão, surreal, carnavalesco e apocalíptico. Se Forman era mais social e observacional, Chytilová mais conceptual e Menzel mais irónico-humanista, Jakubisko era bem mais telúrico, representando o lado barroco do cinema eslovaco moderno e filmando como se o mundo estivesse algures entre uma festa popular, um sonho erótico e o fim dos tempos.
Revelando um gosto pelo excesso, pelo circo e pelo grotesco, e frequentemente chamado surrealista, a premissa de Birds, Orphans and Fools junta dois homens e uma mulher, órfãos num mundo em ruínas, que inventam uma pequena comunidade feita de jogos, desejos e máscaras. Por entre a “passarada”, o trio comporta-se como se o absurdo fosse a sua única forma de liberdade, mesmo que precária.
Magda Vášáryová, que em Karlovy Vary apresentou o filme em 2026, é o centro magnético deste caos, como Marta, parte força vital, parte fantasma histórico (judia), alguém que se inscreve na falência da utopia masculina. O sentido de liberdade absoluta com que o filme começa vai-se transformando progressivamente, até que a fantasia comunitária dá lugar a um pequeno apocalipse, com a morte, o ciúme e a posse a revelarem a impossibilidade de manter intacta qualquer utopia.
Karlovy Vary reviu e o mesmo sentido de estranheza e fascínio marcou a sua exibição.

