Ainda não foi marcada uma data de estreia oficial para Deus Ainda É Brasileiro, filmado por Carlos Diegues (1940-2025) em Maceió, em 2022, e ainda não finalizado. No entanto, o maior êxito comercial do cineasta em seis décadas e meia de carreira, Xica da Silva (1976), regressa ao ecrã restaurado, a começar por uma projeção este domingo na 21.ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto.
O clássico realizado por Cacá, como era conhecido o realizador, integra a secção Preservação do certame mineiro, que decorre até 30 de junho, e será projetado a 28 de junho, antes da sua reposição comercial no Brasil, agendada para 16 de julho.
Lançado em 1976, Xica da Silva tornou-se um fenómeno de bilheteira, reunindo mais de 3,1 milhões de espectadores, e marcou profundamente a cinematografia brasileira ao colocar uma mulher negra no centro absoluto de uma narrativa decolonial e antirracista. Interpretada por Zezé Motta numa das atuações mais celebradas da sua carreira, a protagonista transformou-se num símbolo da representação negra no audiovisual brasileiro.
A nova versão restaurada em 4K surge num momento particularmente simbólico, quando a obra se aproxima do seu cinquentenário. A recuperação do filme será também tema de debate na CineOP, a 30 de junho, durante a palestra Apresentação de Casos de Restauro – Xica da Silva e Vento Norte, integrada no Encontro de Arquivos do festival. A iniciativa propõe uma reflexão sobre os desafios técnicos e éticos da preservação cinematográfica e sobre a importância de garantir a sobrevivência de obras fundamentais da memória audiovisual brasileira.
Coordenadora do restauro, Débora Butruce sublinha que a recuperação do filme permitirá a novas gerações descobrir a riqueza visual da obra e revisitar as questões raciais que continuam a atravessar a sociedade brasileira. Para a especialista, devolver ao público a exuberância cromática de Xica da Silva é também reabrir um debate sobre a complexidade histórica e política da personagem interpretada por Zezé Motta.
Inspirada no livro Memórias do Distrito de Diamantina da Comarca do Serro Frio, de João Felício dos Santos, a longa-metragem de Cacá recria de forma irreverente, sensual e provocadora a trajetória de Francisca da Silva de Oliveira (1732-1796), antiga escravizada que conquistou uma posição de destaque na sociedade colonial do século XVIII. Muitos críticos identificaram na obra uma alegoria subtil ao contexto autoritário vivido pelo Brasil durante a ditadura militar.
O regresso de Xica da Silva aos ecrãs assume ainda um valor especial por acontecer pouco mais de um ano após a morte de Cacá Diegues, falecido em 2025. Figura central do Cinema Novo, ao lado de realizadores como Glauber Rocha, Leon Hirszman, Paulo César Saraceni e Joaquim Pedro de Andrade, Diegues construiu uma filmografia decisiva para a história do cinema brasileiro, assinando títulos como Ganga Zumba (1964), Bye Bye Brasil (1979), Um Trem Para as Estrelas (1987) e O Grande Circo Místico (2018).
Na CineOP, a reposição de Xica da Silva ao alcance das plateias reforça a vocação do festival para pensar o cinema enquanto património cultural vivo, preservando obras que continuam a dialogar com o presente e a desafiar novas leituras sobre a história, a identidade e a memória do Brasil.

