Festival do Cairo recebe “Rosemead”, o drama que revela uma nova Lucy Liu

(Fotos: Divulgação)

Estreado mundialmente no Festival de Cinema de Tribeca, em Nova Iorque, em junho passado, Rosemead é um dos filmes mais comentados na corrida a prémios como os Oscars e os Golden Globes. E com ele fala-se também de Lucy Liu, que interpreta uma mãe atravessada pela delicadeza, pela força e por uma precisão emocional rara, enquanto enfrenta o estigma persistente em torno da saúde mental nas comunidades asiáticas nos EUA — em particular na taiwanesa — e a omissão deliberada de questões ligadas à saúde, física e mental, para manter a fachada de uma família perfeita que, apesar de viver na América, resiste à “ocidentalização”.

Baseado numa peça jornalística do L.A. Times de 2017, assinada por Frank Shyong, Rosemead chega agora ao Festival do Cairo, procurando conquistar o público com a história de Irene (Lucy Liu), uma sino-americana de primeira geração que luta contra um cancro, mas esconde a doença de todos, incluindo do filho adolescente, Joe (Lawrence Shou), que sofre de esquizofrenia. Quando a doença entra numa fase terminal e o filho se aproxima dos 18 anos — idade em que se tornam inevitáveis responsabilidades legais —, Irene toma uma decisão radical que chocou o país. “Foi um soco no estômago”, disse Lucy Liu no Festival de Locarno, em agosto, onde o filme teve a sua estreia europeia. “Quando li o guião, fiquei com o coração partido pela história e por saber que era baseada num artigo do LA Times. Senti muita dor e sofrimento, mas também muito amor, porque percebi que ela fez aquilo a partir de um lugar de amor pelo filho e também de medo. Foi muito impactante.

Construção de personagem: precisão e humanidade

Para interpretar Irene, Liu investiu em detalhes de linguagem e corporalidade que revelam a origem, a fragilidade e o isolamento da personagem. O trabalho incluiu ajustes de sotaque, postura e ritmo de fala. O objetivo era retratar uma mulher sem traços de explosividade emocional, mas que se contrai num silêncio externo sob a pressão. 

Uma tragédia anunciada

A história real que inspira o filme envolve uma sucessão de eventos trágicos: pai e mãe diagnosticados com cancro; o filho, às portas da maioridade, em crises psicóticas constantes; um sistema de saúde incapaz de oferecer apoio adequado; e uma mãe que, por vergonha, esconde a condição do filho e se isola da comunidade. Liu sublinha que Irene não teve apoio emocional, médico ou social: “Ela não sabia defender-se e não tinha quem a defendesse.

Para a atriz, o caso expõe um problema mais amplo. Estudos que menciona indicam que jovens asiático-americanos têm algumas das taxas mais altas de suicídio nos Estados Unidos — um dado que reforça a urgência do tema abordado pelo filme.

Uma viragem na carreira

Famosa por interpretar figuras icónicas da cultura pop como O-Ren Ishii em Kill Bill, Ling Wu em Ally McBeal ou Alex Munday em Os Anjos de Charlie, Rosemead desafia Lucy Liu num território mais delicado, o social e psicológico, exigindo dela novas ferramentas dramáticas. A atriz diz não se arrepender de nenhum trabalho que efetuou no passado, mas reconhece que este projeto inaugura uma nova fase da sua vida: a da artista que usa a própria voz para discutir fragilidades. “A arte é uma forma de expressão que, quando reprimida, faz mal”, afirmou. Em Rosemead, essa visão materializa-se num filme que promete gerar conversas difíceis e dividir emoções em torno das decisões da sua personagem.

O Festival do Cairo decorre até 26 de novembro.

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