Entre a culpa e o esquecimento: o regresso de Carlos Conceição com “Baía dos Tigres”

(Fotos: Divulgação)

Filme sobre a herança do poder e da culpa, Baía dos Tigres marca o regresso de Carlos Conceição aos cinemas depois de Serpentário e Nação Valente — obras que habitam ambientes particulares, onde se confrontam os fantasmas do passado.

Tal como já se insinuava em Nação Valente, aqui a herança colonial mantém-se em estado ativo. A ação decorre na Baía dos Tigres, Angola, numa aldeia entretanto fantasma após o rompimento do estreito canal que a ligava ao continente. A tempestade de 1962 destruiu o istmo peninsular e a conduta de abastecimento de água potável, e a saída dos portugueses após 1975 selou o abandono definitivo. Desde então, o lugar permaneceu isolado — o cenário ideal para Conceição situar a história de um homem que, por vontade própria, tenta se apagar da memória coletiva para escapar ao peso do passado e de um mundo com o qual já não se identifica.

Há uma culpa colonial por trás das motivações da personagem, mas quisemos que o filme fosse mais do que um comentário direto — um retrato de várias formas de colonialismo”, disse Carlos Conceição, na Sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge, ao final da tarde de domingo, após a exibição do filme. “Há referências subtis: a voz de Hanoi Hannah, que transmitia mensagens aos soldados americanos no Vietname; e ecos de Hitler, Mussolini, Salazar e Savimbi. Tudo isso cria uma herança de opressão — não literal, mas simbólica. Não é um filme sobre a guerra de libertação, mas sobre o que fica depois.

Ainda assim, o realizador sublinha que, acima de tudo, Baía dos Tigres é um filme sobre o desaparecimento: “Não queria que fosse visto como misantropo, mas sim como uma reflexão sobre uma sociedade cansada de si mesma — e o desejo profundo de desaparecer. Acho fascinante filmar esse impulso.”

Na génese do projeto está a descoberta, por Conceição, da palavra japonesa johatsu (蒸発), que significa literalmente “evaporação” e designa as pessoas que escolhem desaparecer da vida social — os “evaporados”. “É uma prática real, e há empresas que ajudam pessoas a desaparecer”, explica o realizador, referindo-se às chamadas yonige-ya, que mudam a identidade de quem as procura, num processo semelhante ao programa de proteção de testemunhas. “Tudo é recontextualizado: nome, passado e até identidade cultural.”

Esse conceito fascinou-o, tal como a história do soldado Hiroo Onoda, que passou trinta anos escondido numa ilha das Filipinas, convencido de que a Segunda Guerra Mundial ainda não terminara. Essa narrativa ecoa diretamente numa das histórias de Baía dos Tigres, que corre simultaneamente (mas em tempos diferentes) à do homem que deseja “evaporar-se”.

As filmagens foram, nas palavras de João Arraiais, “difíceis e épicas”. O ator — que colabora com Conceição desde Versailles (2013) — interpreta esse homem que tenta esquecer e ser esquecido. O público presente na estreia, ainda que reduzido, pareceu não o esquecer: foi arrastado para dentro de uma parábola distópica que confirma Conceição como uma das vozes mais singulares do cinema português contemporâneo. “Hoje o cinema está muito condicionado por fórmulas e pela necessidade de agradar. Tento resistir a isso: prefiro o cinema que se arrisca a não ter concessões”, afirmou o cineasta.

No debate que se seguiu ao filme, o realizador deixou ainda um elogio a Marco Amaral, responsável pela correção de cor, que ajudou a conferir ao filme uma identidade visual coesa, apesar da diversidade de suportes — Super 8, Super 16 e digital com lentes anamórficas, além de material de arquivo em 35 mm e Betacam digitalizado. “Costumo dizer que ele tem olho absoluto — como quem tem ouvido absoluto. O Marco Amaral vê cores que eu nem sabia que existiam.

O Doclisboa prossegue até dia 26 de outubro.

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