Foi com sucesso que o português Carlos Conceição “aterrou” em Locarno, na Competição Internacional, com o seu mais recente filme, “Nação Valente”, no qual acompanhamos um grupo de soldados portugueses em missão em plena guerra colonial.
“Espero que se fale mais dos nossos fantasmas do passado”, explicou o jovem cineasta ao C7nema, regressando a um certame que o marcou precisamente há dez anos. “Este foi o primeiro grande festival a que vim na vida e nem foi com um filme meu, mas o “A Última Vez que Vi Macau” do João Pedro Rodrigues e Guerra da Mata. Faz agora 10 anos. Depois, sim, estive novamente aqui com uma curta minha. Este é o festival perfeito para o “Nação Valente” estrear“.
“Roubando” do hino português o título do filme, o realizador de filmes como “Serpentário” executa agora um drama minimalista com tons “extra-ordinários”, levando-nos para uma experiência única onde não faltam twists. Ainda assim, e apesar de surgir na nossa mente (e inevitavelmente) M. Night Shyamalan como potencial influência para “Nação Valente”, o realizador chuta para canto a referência, apontando noutra direção: “Gosto de narrativas bifurcadas e a grande influência para este filme, mesmo que não tenha nada a ver, é o “Merry Christmas Mr. Lawrence” do Nagisa Ōshima”.
Aqui há fantasmas

Para Carlos Conceição, as guerras coloniais criaram novos tabus que progressivamente estão a ser esbatidos com várias obras globais nos mais diferentes formatos artísticos. “Em tempos não se falava disto [guerra colonial e colonização), pois os que tinham a herança da culpa, queriam fingir que nada aconteceu. Depois veio uma fase em que os herdeiros das vítimas, dizem que não querem falar do assunto porque é sempre a mesma conversa. A brincar a brincar deixa-se de se abordar temáticas importantes e existe uma acumulação de problemas para resolver. Não fiz o meu filme com esse propósito especifico, para falar do passado colonial e dos seus fantasmas, mas é importante que este género de diálogos aconteçam.”
E poderá “Nação Valente” despertar essas novas discussões na nossa sociedade? Conceição confessa que gostava que isso acontecesse, e relembra um caso recente que demonstra bem que os fantasmas do passado andam bem presentes nos dias de hoje: “Filmámos o Nação Valente pouco tempo depois do caso Bruno Candé, que me chocou profundamente, mas não surpreendeu. A minha mãe fez um doutoramento em torno dos traumas de guerra e nas entrevistas que fez a ex-combatentes viu que muitos deles falam como se ainda estivessem na guerra. A guerra deixou traumas nas pessoas, sejam ex-combatentes ou as suas familias . Há que falar nisso. Estas pessoas andam aí e não devemos fingir que o problema não existe”.
“Nação Valente” estreia nos cinemas portugueses a 20 de abril.

