50 primaveras de “Barry Lyndon”

(Fotos: Divulgação)

Reverenciado por cineastas de elevado quilate autoral, como Steven Spielberg, Christopher Nolan e Kleber Mendonça Filho, Barry Lyndon (1975) celebra esta segunda-feira os 50 anos da sua estreia com uma projeção na mostra Klasikoak de San Sebastián, num tributo ao esplendor visual alcançado pela genialidade de Stanley Kubrick (1928-1999). Depois de passar pela secção Classics do 78.º Festival de Cannes, em maio, a produção de 12 milhões de dólares, baseada na prosa de William Makepeace Thackeray (1811-1863), regressa agora aos cinemas dos EUA e da Europa, entre outubro e novembro, restaurada em 4K.

A restauração seguiu as instruções de uma carta enviada por Kubrick, em 8 de dezembro de 1975, a projeccionistas, com exigências rigorosas sobre a forma como o filme deveria ser exibido. Foi feita uma digitalização do negativo original em 35 mm sob supervisão de Leon Vitali, assistente pessoal do cineasta. A sua busca obsessiva pela perfeição envolveu toda a obra, ambientada no século XVIII, que conquistou quatro Óscares: Melhor Figurino, Direção de Arte, Banda Sonora e Fotografia.

Íman de aplausos em Cannes, o épico arrancou um desempenho impecável de Ryan O’Neal (1941-2023), então no auge da popularidade após Love Story (Uma História de Amor, 1970) e Paper Moon (Lua de Papel, 1973), que o levou para além do rótulo de galã. Ele interpreta Redmond Barry, um alpinista social irlandês do século XVIII, descrito por Thackeray como um trapaceiro, que se casa com uma viúva rica para assumir posição aristocrática. É assim que o seu nome passa a ser Barry Lyndon. Entre duelos, traições e mortes, Kubrick compõe um retrato cínico e cruel da elite.

Na iluminação das cenas, Kubrick — nova-iorquino que fez do Reino Unido o seu refúgio longe de Hollywood — levou ao limite a sua destreza técnica. O objetivo era que Barry Lyndon evocasse as pinturas de mestres do século XVIII, como Johannes Vermeer (1632-1675) e Antoine Watteau (1684-1721). Para atingir tal efeito, algumas sequências foram filmadas apenas à luz de velas, com recurso a lentes especiais desenvolvidas originalmente para a NASA.

“Eu queria criar uma imagem que nunca traísse a sua época”, explicou o realizador de A Clockwork Orange (Laranja Mecânica, 1971), em depoimento publicado no site oficial de Cannes. “A luz tinha de parecer natural, como se viesse de um tableau vivant, de um quadro vivo”.

Um dos episódios de bastidores mais célebres da longa-metragem, que arrecadou cerca de 20 milhões de dólares nas bilheteiras, envolve a decisão de Kubrick de exigir que o guarda-roupa fosse confeccionado apenas com tecidos autênticos do século XVIII, sem qualquer adaptação moderna. Depois do sucesso estrondoso de 2001: A Space Odyssey (2001: Odisseia no Espaço, 1968), que custou 10,5 milhões de dólares e rendeu 146 milhões, Kubrick conquistou prestígio suficiente para se mudar para Inglaterra e viver em reclusão, filmando quando e como desejava. Nesse isolamento dos holofotes, dedicou-se a um projeto nunca concretizado — um misto de argumento e catálogo de referências com cerca de 500 páginas — sobre a vida do imperador Napoleão Bonaparte.

Atualmente, o seu amigo e admirador Steven Spielberg anunciou que vai transformar essa saga napoleónica de Kubrick numa minissérie para a plataforma HBO Max, onde também se encontram pérolas da sua trajetória autoral, como The Shining (1980), celebrado em San Sebastián através do ensaio documental Una Película de Miedo (2024), de Sergio Oksman.

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