Depois de BAC Nord e Novembre, o francês Cédric Jiménez apresentou em Veneza Chien 51 (Dog 51), adaptação do romance homónimo de Laurent Gaudé que encerra a sua trilogia sobre as forças da ordem. Passando a ação de Atenas para Paris e introduzindo o elemento de Inteligência Artificial, no filme estamos num futuro próximo e a capital francesa encontra-se dividida em três zonas que separam as classes sociais. Todas estão sob controlo da ALMA, uma inteligência artificial preditiva que revolucionou a atuação policial. Quando o criador dessa inteligência artificial é assassinado, Salia (Adèle Exarchopoulos), uma agente de elite, e Zem (Gilles Lellouche), um polícia desencantado, são obrigados a unir esforços para resolver o crime e enfrentar os segredos do sistema que servem.
“Queria muito criar um filme de ficção, porque os anteriores tinham todos base em factos reais”, disse Jiménez em Veneza, no dia em que Chien 51 ia servir como filme de encerramento do festival. “ A ficção sempre me atraiu, justamente pela sua diversidade e pela liberdade criativa. O futuro, por definição, abre um campo maior à ficção, e foi isso que me inspirou para este filme.”
Definindo o livro como ainda mais futurista que o filme, Jimenez diz que preferia algo mais próximo da realidade atual, criando assim o que ele chama de realidade aumentada de uma Paris dividida em zonas. “Introduzimos a inteligência artificial, que não estava no romance. Falámos com muitos especialistas. A IA já é aplicada hoje, embora de forma menos evidente do que no filme. Mas, no fundo, não quis que fosse o tema central. É um elemento importante, mas o centro é a relação entre as personagens e a investigação (…) Sobre a Paris que vemos, quisemos apenas divertir-nos a construir um universo coerente dentro da narrativa. Não acreditamos que Paris vá ser assim dentro de 15 anos. Foi um jogo visual, não uma previsão”.

Protagonizado ainda por Louis Garrel, Romain Duris, Valeria Bruni Tedeschi, Artus, Lala &ce, Stéphane Bak e Thomas Bangalter, no filme existe um sério questionamento à justiça. Coube a Gilles Lellouche comentar esse sentimento: “É um tema complexo. A Justiça liga-se à empatia, à violência, à forma como lidamos com o outro. O que me interessou no filme foi essa utopia dentro da distopia: ver nascer um debate entre duas pessoas opostas, que acabam por partilhar e gerar uma revolução. Para mim, a justiça precisa desse lado humano”.
A experiência dos actores em Chien 51 foi marcada pela intensidade física e emocional. Alexis Manenti sublinhou a preparação exigente para os papéis de ação, desde a disciplina alimentar aos treinos com duplos, valorizando a oportunidade de sair da sua zona de conforto e o espaço de improvisação dado por Cédric Jiménez. Gilles Lellouche, por seu turno, reconheceu as dificuldades acrescidas da idade (53 anos) e da artrite, mas destacou o cuidado do realizador em proteger o elenco e a minúcia do seu trabalho. Para Adèle Exarchopoulos, o desafio passou pela energia dos papéis e pela imersão num universo onde, por vezes, tinham de imaginar drones a persegui-los, mas sobretudo pela dimensão humana que emergia nas relações entre as personagens.
Chien 51 encerrou a edição 2025 do Festival de Veneza.

